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Crítica: "Amor Fora da Lei" emula o cinema de Terrence Malick

Amado pela crítica especializada e por muitos cinéfilos, o americano Terrence Mallick se tornou conhecido com seus filmes que combinava, como poucos, cenas belíssimas plasticamente com um ritmo bem diferente do que estamos acostumados a ver no cinema americano, onde seus personagens são levados à reflexão sobre o mundo ao seu redor. Depois de anos recluso, após lançar “Cinzas no Paraíso” em 1978, Mallick só voltou à ativa quando dirigiu “Além da Linha Vermelha”, em 1998 e, de tempos em tempos, reaparece com uma nova produção que sempre causa grande expectativa, com um elenco estelar, como “A Árvore da Vida” (2011), que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes daquele ano. Seu estilo é tão cultuado que até há cineastas que se inspiram em seu trabalho para a realização de seus filmes. Este é o caso do pouco conhecido David Lowery, que conduziu em 2013 “Amor Fora da Lei” (“Ain’t Them Bodies Saints”).
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Ambientada no Texas, a trama é centrada no casal Bob Muldoon (Casey Affleck) e Ruth Guthrie (Rooney Mara). Desajustados, os dois resolvem participar de um assalto, junto com o amigo Freddy (Kentucker Audley), logo após a jovem contar ao namorado que está grávida. O roubo não ocorre como o planejado e os três acabam encurralados pela polícia. Após uma troca de tiros, onde Freddy morre e Ruth atira num policial, Bob vai preso e pede para que a amada o espere. Alguns anos depois, ele consegue fugir da cadeia e vai atrás de Ruth e da filha Sylvie (vivida pelas gêmeas Kennadie e Jacklynn Smith). Só que ela anda recebendo visitas de Patrick Wheeler (Ben Foster), o policial que foi baleado naquele tiroteio e parece ter se afeiçoado a Ruth e à filha. Para piorar, Bob ainda tem que lidar com um grupo de assassinos contratados por Skerritt (Keith Carradine), que não quer que os dois voltem a se reencontrar.
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A história simples (também escrita por Lowery), no fim das contas, é um mero pretexto para que o diretor mostre o seu apurado bom gosto para fazer belos enquadramentos, apoiados numa fotografia realmente arrebatadora de Bradford Young, especialmente nas cenas feitas ao nascer do sol, com filtros que deixam a imagem mais amarelada. Além disso, as divagações dos personagens e a ambientação são realizadas com um estilo praticamente idêntico ao de Mallick, especialmente ao que ele apresentou em “Terra de Ninguém” (1973), estrelado pelos então jovens Martin Sheen e Sissy Spacek. Talvez esse seja o principal problema de “Amor Fora da Lei”, pois a falta de originalidade do cineasta (ou seria “homenagem”?) incomoda por não apresentar algo que poderia ser inovador. É até justificável a reverência ao “mestre”, mas não precisava ser tão submisso, a ponto de preferir ficar nas sombras de sua própria obra.
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O bom elenco não chega a brilhar, mas também não compromete o resultado final. Casey Affleck, acostumado a fazer personagens fora da lei, está à vontade para interpretar o marginal angustiado Bob. Rooney Mara mostra que tem carisma e consegue transmitir bem o dilema de Ruth, entre aceitar o pai de Sylvie de volta ou tentar dar uma nova vida para a filha. Ben Foster impressiona com sua capacidade camaleônica e aparece quase irreconhecível com um bigode espesso no rosto e sua fala contida, ao contrário de outros tipos mais intensos que já viveu no cinema. O veterano Keith Carradine está apenas OK como o pouco confiável Skerritt. Já as meninas Kennadie e Jacklynn Smith dão o tom certo de fofura para Sylvie.
Com um final pouco surpreendente, “Amor Fora da Lei” é uma opção razoável para quem quiser assistir a um filme “de arte”. Mas o resultado poderia ser bem melhor se a produção não lembrasse tanto o que Mallick já realizou anteriormente. Mesmo assim, o espectador pode até se sentir satisfeito com o drama de Ruth e Bob e até mesmo torcer pelo casal, apesar de, no fim das contas, a sensação é de que poderia ter rendido mais.

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