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Crítica: "Boa Sorte" vale pela reinvenção e ousadia de Deborah Secco

Conhecida do grande público desde muito jovem, quando foi uma das protagonistas do seriado de sucesso nos anos 1990 “Confissões de Adolescente”, Deborah Secco realizou vários trabalhos marcantes na TV e no cinema e poderia ter se acomodado com seus papéis nas novelas em que atua. Mas a bela atriz parece querer mais e não tem medo de se arriscar em projetos mais ousados, que exijam alguns sacrifícios. Foi assim que ela encarou o desafio de viver na telona uma famosa ex-garota de programa em “Bruna Surfistinha”, que alcançou uma das maiores bilheterias do ano em 2011. Agora, Deborah vai mais além e se entrega de corpo e alma para protagonizar “Boa Sorte” (Idem, 2014), numa interpretação intensa e uma das melhores em sua carreira.

Na trama, Deborah vive Judite, uma mulher que contrai o vírus da Aids após várias problemas envolvendo sexo e drogas (econômico, o filme não perde tempo mostrando maiores detalhes sobre a vida da personagem, resumindo tudo a uma cena que revela como ela costumava passar as noites). Internada numa clínica de recuperação comandada por Lorena (Cássia Kis Magro), onde recebe apenas as visitas da avó, Célia (Fernanda Montenegro), Judite conhece o jovem João (João Pedro Zappa), que teve problemas comportamentais e acredita que, quando toma o medicamento Frontal com refrigerante, fica invisível para todos. Ela se torna uma espécie de guia do rapaz na instituição e, aos poucos, os dois ficam cada vez mais próximos e começam um relacionamento amoroso. Porém, o agravamento da doença leva Judite a temer pelo bem estar de João, o que pode fazê-la tomar uma decisão grave para o casal.

Estreante na direção de longas-metragens, após realizar documentários e filmes publicitários, Carolina Jabor (filha do cineasta e escritor Arnaldo Jabor) mostra uma sensibilidade para contar bem o romance entre seus protagonistas, sem cair na pieguice. As cenas de nudez e sexo, apesar de várias, são feitas com bom gosto, sem parecer vulgar. Além disso, Jabor se preocupa em desenvolver os personagens, fazendo o possível para não cair no maniqueísmo. Bons exemplos disso, além de Judite e João, são os pais do jovem, vividos por Felipe Camargo e Gisele Fróes, que se mostram perdidos quando descobrem os problemas que o filho tem pois, apesar de parecerem distantes, ficam realmente preocupados com o rapaz. A diretora da clínica também não é mostrada como uma ditadora (algo tão comum em filmes que se passam em locais como esse) e, embora seja uma pessoa que procura manter as coisas em ordem, não levanta a voz para se impor diante de seus pacientes, o que é um ponto positivo para o filme.

Porém, “Boa Sorte” possui algumas falhas que poderiam ter sido evitadas se houvesse um cuidado melhor na produção e no roteiro. A clínica, por exemplo, parece sucateada demais para um uma instituição particular, onde tudo é pago. Numa cena, um dos personagens reclama do preço algo por um bombom. Por isso, fica estranho mostrar um lugar com paredes descascando, péssima iluminação e outros problemas de infraestrutura. O texto escrito a quatro mãos por Jorge Furtado (inspirado em seu conto “Frontal com Fanta”) e seu filho, Pedro Furtado, também cria cenas um pouco fora da realidade, como a que João rouba os prontuários dos pacientes com certa facilidade e lê os diagnósticos de cada um deles (até chegar ao de Judite) na frente de todos, sem ser importunado por ninguém, nem mesmo os enfermeiros. Mas são bem realizados os momentos em que o casal sai pela rua acreditando estar invisível, culminando com uma visita à casa do rapaz, onde ninguém fala com eles e depois vão parar numa praia, onde resolvem testar sua “invisibilidade”.

Mas a principal qualidade de “Boa Sorte” está mesmo no seu elenco exemplar, onde Deborah Secco é o principal destaque. Para dar mais veracidade à sua personagem, a atriz emagreceu mais de dez quilos e assusta o espectador com seu aspecto esquálido, inclusive nas cenas em que tira a roupa. Além disso, ela também trabalhou o olhar triste e exprime bem o sofrimento de quem, às portas da morte, encontra o amor quando não esperava mais por ele e sabe que não tem muito tempo para vivê-lo. Fernanda Montengro, mais uma vez, mostra porque é a atriz mais respeitada do Brasil nos poucos minutos que aparece, especialmente na sequência em que discute de uma maneira até divertida com uma atendente de farmácia sobre os problemas da saúde no país. Além disso, ela protagoniza uma cena que pode causar polêmica, envolvendo maconha e um livro considerado sagrado por muitos.  Já João Pedro Zappa, apesar de convencer fisicamente e falar como um adolescente (embora tenha 26 anos) não dá conta do recado nos momentos mais dramáticos e sua atuação fica um pouco mecânica demais, sem autenticidade. O que mostra que ele ainda precisa amadurecer mais para se tornar um bom ator.

Com um desfecho simples e sem grandes reviravoltas, “Boa Sorte” tem também o mérito de ser um filme honesto, algo em falta no nosso cinema. Ele não se compromete a ser mais do que é, apenas a mostrar um bom romance entre pessoas tão diferentes, que acabam se completando numa situação inusitada. Portanto, quem for ao cinema, deve ir com as expectativas para apreciar melhor este filme, que revela uma boa diretora em Carolina Jabor e em Deborah Secco uma atriz e tanto.

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