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Crítica: "Um milhão de maneiras de pegar na pistola" faz rir apesar de irregularidade nas piadas

O sucesso mundial de “Ted” em 2012 pegou todo mundo de surpresa. Afinal, quem iria apostar que a história de um homem que tem como melhor amigo um urso de pelúcia que, apesar da cara simpática, era politicamente incorreto, fumava, bebia e tinha uma boca mais suja do que banheiro de botequim iria se tornar uma das maiores bilheterias daquele ano? De qualquer forma, o filme tornou mais conhecido o nome do ‘pai’ de Ted, Seth MacFarlane, que já chamava a atenção de muita gente com suas séries de desenhos com humor ácido, como “Uma Família da Pesada”, “The Cleveland Show” e “American Dad”. Assim, MacFarlane, depois de apresentar o Oscar 2013 (onde seu estilo um pouco ousado demais para a cerimônia dividiu opiniões), decidiu que seu próximo projeto seria uma paródia aos filmes de faroeste. O resultado final, “Um milhão de maneiras de pegar na pistola” (“A million days to die in the West”), até tem bons momentos. Mas não consegue ser tão satisfatório quanto seu filme anterior.
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A história é ambientada em 1882, na pequena cidade de Old Stump, no Arizona. Depois que o pastor de ovelhas Albert Stark (o próprio Seth MacFarlane) foge de um duelo de uma maneira um pouco covarde, sua volúvel namorada Louise (Amanda Seyfried) o troca pelo empresário mais bem sucedido da região, o arrogante Foy (Neil Patrick Harris). Mas logo em seguida, ele conhece Anna (Charlize Theron), uma bela forasteira que ajudará Albert a encontrar sua coragem e confiança. Aos poucos eles acabam se apaixonando, mas o romance é ameaçado quando o marido de Anna, Clinch (Liam Neeson), o bandido mais temido da região, chega em busca de vingança. Relutante, Albert precisa colocar em prática sua valentia recém-descoberta para encarar o vilão num duelo que pode conquistar de vez o amor de Anna e o respeito de todos da cidade.
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O que chama a atenção em “Um milhão de maneiras de pegar na pistola” é que, desta vez, o humor politicamente incorreto de MacFarlane não está tão engraçado assim. Algumas piadas soam exageradas demais e perdem o controle. Uma delas, por exemplo, estaria mais adequada se fizesse parte de um dos filmes da série de terror “Premonição”, pois não dá para rir de alguém que é morto por um bloco de gelo ou de um personagem que se fere gravemente numa briga de bar e o diretor tenta fazer isso soar divertido, quando não é. O roteiro, escrito pelo cineasta/ator, junto com Alec Sulkin e Wesllesly Wild, se sai melhor quando brinca com os clichês dos faroestes tradicionais e na construção de alguns personagens, como o ingênuo Edward (Giovanni Ribisi), melhor amigo de Albert, que namora a prostituta Ruth (Sarah Silverman), que apesar de saber do trabalho dela, nunca teve algo mais “quente” com sua amada porque ela não quer ofender a Deus e só permite sexo depois do casamento. Todas as cenas envolvendo os dois são realmente inspiradas. É uma pena, contudo, que o texto não desenvolva bem o romance entre Albert e Anna, pois fica um pouco difícil de acreditar no envolvimento tão repentino entre os dois. Além disso, o vilão Clinch e a fútil Louise são tão mal elaborados que fica difícil saber por que Liam Neeson e Amanda Seyfried aceitaram papéis que desperdiçam seus talentos.
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No entanto, quando o filme utiliza elementos de outras produções pop, algo já visto nos trabalhos anteriores de MacFarlane, ele cresce consideravelmente e a gargalhada sai naturalmente do espectador. A melhor piada, inclusive, está relacionada a um certo veículo que viaja no tempo desde os anos 1980 e ainda é bastante popular no coração dos cinéfilos. Contar mais estraga a graça. Algumas pontas de astros como Ewan McGregor e Ryan Reynolds também são bem divertidas. Outro destaque está na parte técnica. A fotografia de Michael Barrett é belíssima, especialmente ao mostrar a região do Novo México, onde o filme foi rodado, e já foi usado em  diversos faroestes. A trilha sonora de Joel McNeeley também empolga, com um bom tema principal.
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Porém, para funcionar melhor, o filme deveria ter um protagonista mais carismático e, infelizmente, essa é uma qualidade que Seth MacFarlane não possui. Não há como não reparar que, apesar de criar boas piadas, ele não sabe contá-las muito bem. Tanto que, numa cena, ele chega a dizer isso num momento crucial da trama. Sua inexpressividade fica ainda mais evidente nas cenas que divide com Charlize Theron. A atriz, além de estar belíssima, defende bem sua personagem e está bem à vontade, apesar do roteiro não ajudá-la muito. Além de Ribisi e Silverman, Neil Patrick Harris também está divertido como o metido Foy, dono de uma loja especializada em produtos para bigodes.milhao_pistola_foto4
Apesar de seus altos e baixos, “Um milhão de maneiras de pegar na pistola” serve como passatempo inofensivo, caso o espectador não tiver nada melhor para ver. Desta vez, Seth MacFarlane não acertou no alvo, como foi em “Ted” (que terá uma segunda parte, já sendo filmada), mas ainda assim consegue arrancar algumas risadas. Especialmente no final, com uma brincadeira envolvendo um personagem que se tornou conhecido por Quentin Tarantino. Não saia do cinema antes do fim dos créditos, pois há uma cena extra que vai valer a pena.

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