Depois de gerar muita discussão e curiosidade entre a comunidade cinéfila, “Entrevista com o Demônio” chega aos cinemas brasileiros com uma defasagem de 9 meses. Em tempos de internet, timing é tudo, e se o lançamento se desse quando o filme era o assunto das conversas de bar nas cercanias das faculdades de cinema, sem dúvida atrairia um público maior do que o formado pelos que ignoraram os sites de pirataria e esperaram para conferir na telona. E o que causou tanto hype? A fórmula que funciona desde “A Bruxa de Blair”, do “found footage” – produção gravada de fatos supostamente reais.
Jack Delroy é o apresentador de um programa de televisão dos anos 70 que está lutando para recuperar a audiência, assim como precisa superar sua desmotivação com o trabalho após a trágica morte de sua esposa. Desesperado por recuperar o seu sucesso de volta, em um esquema “vale tudo pelo Ibope”, ele planeja um especial de Halloween de 1977 cheio de surpresas. O que ele não imaginava é que, ao receber em seu programa uma parapsicóloga para mostrar o seu mais recente livro que mostra a única jovem sobrevivente de um suicídio em massa dentro de uma igreja satã, estaria prestes a desencadear forças malignas que ameaçam a sua vida e a de todos os envolvidos no programa ao vivo em rede nacional.

Não é descabido chamar Late Night With the Devil (no original) de uma mescla de “A Bruxa de Blair” com “O Exorcista”. De fato os irmãos diretores Colin e Cameron Cairnes se esmeraram para imprimir realismo no programa de TV Night Owls, com direito a espiadinhas nos bastidores. Mergulharam em uma profunda pesquisa para desenvolver o longa assistindo a programas da época como os de Johnny Carson, Dick Cavett, observando seus planos de fundo, os acabamentos, as cores e assim chegaram aos tons predominantes marrons e laranjas. Essa fidelidade é primordial para a credibilidade e o clima de tensão que é lenta e gradativamente construído. Todavia, no final das contas, não há tanta surpresa assim. Ainda que a ideia se destaque em meio a outras produções do gênero, não se pode chamar “Entrevista com o Demônio” de “divisor de águas”.
É inegável que o show não funcionaria sem a atuação de David Dastmalchian. Apenas com olhares ele consegue transmitir a confusão trazida pela obstinação em reverter a adversidade ao mesmo tempo que tem plena ciência do caráter sensacionalista e escroque da atração (isso até tudo sair do controle).

A direção dos irmãos Cairnes (que também assinam o roteiro) busca emular os enquadramentos e movimentação de câmera de programas de TV dos anos 70 sem deixar o espectador escapar da “veracidade”, inclusive utilizando o recurso (ultimamente uma escolha estilística apreciada por muitos cineastas, sobretudo os indies) do formato de tela 4:3. A dupla ainda contratou o veterano da TV Matthew Temple como diretor de fotografia, para que pudesse dar orientações mais detalhistas não só para o programa, mas também nos bastidores da história e no estilo de documentário que também compõe o longa.
“Entrevista com o Demônio” é um filme de terror eficiente, embora recorra a elementos um tanto banais em alguns momentos (inclusive na conclusão). Romper narrativamente com o lugar comum é um trunfo, mas seu atrativo não vai muito além do suposto realismo, ainda que tenha sido concebido de forma bastante criativa.









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