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Eu sou o número 4 tem seus méritos

Pegando carona na estréia da versão cinematográfica, a Editora Intrínseca lançou no mês passado a tradução brasileira para o livro Eu sou o número 4, de James Frey e Jobie Hughes sob o pseudônimo de Pittacus Lore, uma espécie de sábio responsável por levar essa história adiante, contar como nove alienígenas dotados de dons especiais escaparam da destruição de seu planeta e suas dificuldades de adaptação à nova vida na Terra. Pouco original, facilmente digerível e esquecível, mas no fim das contas a proposta deve ser mesmo essa, entreter e lucrar – e não uma vergonhosa tentativa de marcar a história da literatura e da geração, como diria ofendido o mais xiita entre os intelectuais.

Restaram nove. Vieram ainda crianças, cada qual acompanhado de um protetor, um professor que os preparariam para a grande guerra, grande vingança contra a raça inimiga que dizimou seus familiares. Eles não têm nomes, têm números que marcam a ordem de suas mortes. Não podendo assim o número três morrer antes do dois ou o dois morrer antes do um.

Um, dois e três estão mortos. Quem conta essa história é o número quatro, o a partir de agora chamado John Smith, o nome mais comum para o mais talentoso dos personagens dessa trama. Desde pequeno foi um nômade, escapando pelas cidades dos Estados Unidos sem deixar pistas nem amigos. Nunca se firmou, nunca se comprometeu nem se apaixonou por ninguém. Está prestes a descobrir que é o próximo na lista da morte e que quando alguém da sua raça se apaixona, se apaixona para todo sempre.  Não estava pronto pra nenhuma das duas coisas. Seu próximo destino é Paradise, uma cidadezinha de Ohio, mais uma pra chegar e sair sem ser visto nem amado ao primeiro sinal de perigo. Mas dessa vez (é óbvio) ele encontrou amigos, inimigos e um grande amor – pela lógica o único. Agora ele pode (e quer) ser normal, pode viver das fraquezas, arroubos e dramas exagerados da adolescência humana.

Não é novidade que essas histórias de amor com adolescentes e elementos sobrenaturais vendem. Vendem livros, filmes e tudo mais que houver de produto associado à popularidade de seus personagens, seus autores – e também atores quando é o caso da mais cara e rentável dessas produções, o cinema. O que Eu sou o número 4 procura trazer de novo é a voz masculina na narração da história, a voz do menino que preza pela ação e economiza no melodrama. Até então, a esmagadora maioria dos textos nesse sentido se direcionavam de forma clara ao público feminino, com a voz da garota que chora por amores impossíveis para comover e alimentar suas leitoras com o mito do príncipe encantado. Eu sou o número 4 tem, dessa forma, um estilo mais frio de tratar os relacionamentos e as perdas.

No mais, Pittacus Lore nos apresenta um conjunto de clichês.

Clichês que, no fim das contas, se mostram muito eficientes para o conjunto da obra. É basicamente um livro despretensioso e divertido que convence na medida que o leitor aceita as limitações desse tipo de literatura-produto. É em outras palavras, entretenimento descompromissado e nada mais.

A adaptação para cinema sob a direção de D.J. Caruso (Paranóia, Smallville) chegou aos cinemas brasileiros na última sexta-feira (15) com considerável alarde. De um modo geral, o filme tem o que o gênero precisa: um show de efeitos especiais e um bocado de rostinhos bonitos pra fazer o trabalho sujo que o roteiro não conseguiu. É acima de tudo uma adaptação e, de modo geral, não se pode dizer que seja coerente com a obra original. É um John Smith muito mais rebelde – provavelmente pra que a nossa juventude pós-moderna possa melhor se identificar – e em resposta a essa rebeldia, temos seu tutor doente de uma ironia incurável não tão evidente no livro. Pode-se dizer, na verdade, que nenhuma das cenas apresentadas no cinema mantém fidelidade ao texto de James Frey e Jobie Hughes, mas acredito que o importante seja a essência, e essa, D.J. Caruso soube resguardar.

Já faz algum tempo que aprendi a não julgar a eficácia de um filme o comparando ao livro que o originou, pois – embora seja clichê falar – a linguagem é outra. O cinema tem à sua disposição a facilidade das imagens e o poder de manipular a nudez e apelar com ela.

Nesse sentido, pra mim, tem-se um filme tão válido quanto o livro segundo os objetivos do entretenimento e da Indústria Cultural.

Não vou atribuir nota a obra porque penso que embora seja justo que Eu sou o número 4 termine com uma nota máxima, a minha religião não permite dar a esse livro a mesma nota que eu daria a, digamos, o 2666 de Roberto Bolaño.

JAMES FREY é o autor do polêmico Um milhão de pedacinhos, uma autobiografia sobre seus problemas com drogas. Tem 33 anos e nasceu em Cleveland. Já morou em diversos lugares do mundo, inclusive no Brasil, e atualmente vive com a esposa em Nova York. JOBIE HUGHES nasceu em Washington e é formado em Escrita Criativa. PITTACUS LORE é o responsável pela história dos nove lorienos remanescentes.

3 opinaram!

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  1. Gerúndios do dia: Apreciando e Opinando. Como tudo que você escreve, é mais um texto digno de leituras atentas, sem mais distrações ( adulei). Apesar de eu ser avessa a coisas mornas, falo do filme. Mas, me esforçarei para mudar de opinião. Tenho dito.

  2. Como você disse um filme sem pretensão alguma, e as vezes isso acaba trazendo seu sucesso ou fracasso, acredito(pelos comentários lidos) que a obra seja mais interessante, preciso vê- los!
    Foi direto, preciso nas palavras!
    Boa kra, parabéns!

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Explorador(a)

Publicado por Ramon Vitor Fernandes

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