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Festival do Rio: Irregular, mas tocante, “Campo Grande” emociona

O cinema de Sandra Kogut está sempre procurando estabelecer realidades, ao invés de impor uma representação delas. Em seu novo filme, o tocante Campo Grande, ela trabalha sob o mesmo prisma, mas dilata essa propriedade para os desígnios da inocência. Ygor e Rayane são abandonados pela mãe na portaria de um apartamento, em Ipanema, com um bilhete dizendo que eram para ficar a moradora Regina (Carla Ribas, sempre precisa), que está em pleno processo de declínio familiar.

E o filme é exatamente o que acontece a partir daí. Kogut coloca sua câmera como ponto de vista de suas crianças (amadoras e comoventes) e esse paralelismo entre a realidade e o viés onírico que fazem dela, é muito bem explorado pela diretora, sobretudo na primeira parte da projeção.

Ygor-e-Rayane-estatua

Há permeando toda a trama uma certa desolação que vem a ser o primeiro ponto de maturidade dessa inocência mostrada. Campo Grande, com algumas poucas imagens do bairro da zona oeste carioca, torna-se assim uma grande curva dramática de seus seres.

É impressionante a habilidade da diretora em trabalhar essa necessidade dramatúrgica com sua sensibilidade objetiva (repare nas cenas do abrigo, em especial). Ainda que dessa vez tenha se ressentido de uma falta de polidez em seu terço final, deixando a narrativa um tanto arrastada, eis um filme que cresce muito ao fim da sessão, principalmente quando olhamos nos olhos de Ygor e vemos que quanto menos inocência ainda vai lhe restando, mais legitimidade o filme ganha. Exatamente pelo que tem de melhor: o estabelecimento da realidade frente ao que se representa dela.

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