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“Looper” quer ser mais complicado do que realmente é

Filmes sobre viagem no tempo sempre tendem a fazer as pessoas pensarem, especialmente se começarem a tratar dos assuntos filosóficos relativos aos paradoxos que uma viagem através do tempo pode causar e as diversas possibilidades dali advindas.

Looper traz em si os elementos da viagem no tempo e trata dos paradoxos ali presentes de forma simples e de fácil explicação, porém, no fundo, ele queria ser mais do que simples e quem sabe, ele é.

Na história, Joe (Joseph Gordon-Levitt, amadurecendo a cada filme que passa) é um looper, assassino contratado pela máfia do futuro para assassinar pessoas mandadas ao passado e sumir com os corpos das mesmas lá no passado. Os assassinatos vão acontecendo até que, em certo ponto, o eu mais velho de cada looper é mandado ao passado para que o novo mate a si mesmo velho e feche seu ciclo (loop), ganhando uma bolada em ouro e vivendo por 30 anos até ser pego e mandado de volta para ser assassinado.

O Joe mais velho é interpretado por Bruce Willis e ele escapa da execução e resolve correr contra o tempo para matar o Rainmaker, o novo chefão da máfia que está encerrando todos os loopers, enquanto ele ainda é criança.

Começa aí a filosofia em forma de roteiro. Para quem não quiser ler spoilers, melhor parar por aqui e ir assistir ao filme.

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Para começo de conversa, o velho Joe tem todas as memórias do novo Joe, só que a partir do momento em que ele evita a própria morte; o passado muda, e toda sua vida após tais fatos também tende a mudar. E esse é seu medo. Afinal, da mesma forma que ele não quer perder sua esposa, que o salvou da vida de drogas e assassinatos, ele não quer deixar que seu eu passado viva todos os problemas que ele viveu.

Claro que há todo o aspecto da luta entre gerações, com o novo chamando o velho de idoso e o velho chamando o novo de criança. Sabedoria e conhecimento lutando contra a impulsividade. Da mesma forma, temos a situação de Abe (Jeff Daniels), um membro da máfia mandado para o passado com a intenção de montar terreno para a futura consolidação da mesma e Kid Blue (Noah Segan), um capanga menor mas que a todo momento do filme está em evidência. Teorias foram formuladas de que Abe e Kid Blue são a mesma pessoa, mas isso só vai poder ser comprovado com uma segunda ou terceira ida ao cinema para prestar atenção aos detalhes, mas eles estão ali.

A todo momento, Kid Blue olha para Abe com necessidade de aprovação e se imagina que seria uma relação de pai e filho, mas Abe o olha com o mesmo olhar que o velho Joe olha para o novo. Vendo a si mesmo e a estupidez da juventude.

A forma como o filme trata a viagem no tempo implica que tudo o que acontece com o seu eu mais jovem, vai lhe afetar quando mais velho, vide a cena de Seth e seu eu mais velho, uma das coisas mais desesperadoras do filme.

Ainda assim, por mais simplificado que o filme retrate a viagem no tempo, percebe-se que há mais em jogo. Afinal, se o velho Joe viveu todos aqueles 30 anos e decide mudar o seu passado, ele em verdade criou uma nova linha cronológica. Ou será que se ele não tivesse voltado no tempo, o Rainmaker não existiria? Saindo do cinema, o filme te dá uma solução simples mas, se formos pensar, ele poderia ter sido um novo Inception, com camadas e camadas de possibilidades se acumulando.

A escolha em simplificar tudo é justificada e bem feita, afinal, mesmo tendo sido explicado, o filme ainda deixa brecha para que o espectador fique pensando. A fórmula, entretanto, é renovada dos primeiros dois filmes da série “Exterminador do Futuro”. Se Kyle não voltasse no tempo e engravidasse Sarah Connor e destruísse o primeiro Exterminador, a Cyberdine teria encontrado o chip e os pedaços do robô para construir a Skynet? O que veio primeiro, o ovo ou a galinha?

Todos os paradoxos da viagem no tempo estão presentes no filme e são tratados de forma a fazer você pensar que todas as linhas do tempo se cruzaram e criaram mais uma realidade. Uma dessas linhas foi a linha original, que foi totalmente deturpada pela criação da viagem temporal e conforme o tempo foi modificado, as coisas foram mudando.

Os “e se” são tantos que daria para fazer uma tese de doutorado baseada inteiramente nesse filme.

O diretor e roteirista Rian Johnson (de Brick e Brothers Bloom) fez um filme muito bem amarrado e com um elenco na palma da mão do diretor. Bruce Willis, Joseph Gordon-Levitt e Emily Blunt formam o trio principal, apesar da última só aparecer no terço final do filme mas, ser de extrema importância e presença marcante.

O restante do elenco, Jeff Daniels, Noah Segan e até Piper Perabo que basicamente foi contratada para ficar seminua no primeiro terço do filme, valem menção por traduzirem seus personagens em atuações pontuais e respeitáveis. Perabo, que teve uma ascensão explosiva quando fez Show Bar (Coyote Ugly), nunca mais engatou um papel forte em sua carreira, talvez por ter ficado marcada demais por aquele filme. Jeff Daniels era outro que estava sumido, fazendo papéis menores, mas desta vez tem a possibilidade de voltar a fazer um papel consistente e condizente com sua carreira.

Os efeitos especiais são de primeira e a direção de arte com certeza se inspirou no futuro distópico de Blade Runner, especialmente quando retratando os veículos da polícia flutuando pela cidade com as vielas sujas e úmidas. Nas cenas da zona rural em especial, parece que o filme deixa os detalhes futuristicos escondidos, dando uma falsa sensação de presente quando na verdade estamos 30 anos no futuro (o filme se passa em 2042).

Looper é um filme para ser assistido com a atenção aos detalhes e com a cabeça pensando em diversas coisas que você acha que viu, mas não tem certeza, te forçando a debater, e quem sabe, até a assisti de novo. Extremamente recomendado e um dos melhores filmes de ação lançados neste ano.

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