Filmes

Nouvelle Vague já!

Resenha de Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague, de Emmanuel Laurent, por Guilherme Preger

Escrito pelo biógrafo dos dois grandes diretores, Antoine de Baecque, que também é  o narrador do filme, o documentário de Emmanuel Laurent traz imagens dos filmes, cenas documentais e dezenas de entrevistas mostrando a gestação de um dos mais importantes movimentos cinematográficos do século XX, ao mesmo tempo um movimento de cinema, de crítica e de pensamento.

Gestação que, segundo o diretor e o roterista, é um fruto benfazejo da amizade destes dois grandes autores de personalidades e origens muito contrastantes, mas que foram unidos pelo destino em torno da paixão pelo cinema.  Cine-filia, na acepção mais rigorosa do termo, e que acabará, como toda paixão, num desenlace trágico digno de um filme. Ou de um documentário…

François Truffaut e Jean-Luc Godard não foram os únicos criadores da Nouvelle Vague. Eles formavam os “jovens turcos” (insistentemente traduzidos como “rebeldes” no filme) com Eric Rohmer, o mais velho entre todos, Claude Chabrol e Jacques Rivette. Todos começaram como críticos na famosa revista Cahiers de Cinema, sob a égide do crítico humanista Andrè Bazin. Polêmicos, eles direcionaram suas agudas metralhadoras críticas contra o cinema francês da época, segundo eles, por demais acadêmico e baseado na produção dos grandes estúdios.

Tirar o cinema dos estúdios e levá-lo para as ruas para captar a vitalidade do cotidiano foi um dos objetivos do grupo de jovens. Assim, num autêntico movimento “avant-la-lettre” de “faça-você-mesmo”, os críticos cinematográficos trocaram a máquina de escrever pela máquina filmadora e saíram às ruas de Paris.  Seus primeiros filmes, verdadeiros ensaios livres, foram curtas-metragens que registravam com atores desconhecidos, sob luz natural, o ritmo vertiginoso da contemporaneidade.

O documentário de Laurent mostra que foi com a inscrição de Os Incompreendidos, de François Truffaut, apoiada pelo ministro da cultura francês Andrè Malraux, ao festival de Cannes de 1959, que a Nouvelle Vague começou a ganhar projeção. Truffaut ganhou o prêmio de melhor diretor e, ao mesmo tempo, mostrou ao mundo a “nova onda” de filmar, entre o autobiográfico e o biográfico, como ele mesmo frisou. Os Incompreendidos também lançou internacionalmente, ainda garoto, a figura franzina e frágil de outro ícone do movimento, o ator Jean-Pierre Léaud. O frescor da atuação de Leáud neste filme, fazendo o papel do alter-ego juvenil de Truffaut, se tornaria uma marca registrada do novo cinema francês defendido pelos jovens autores: jovem, frágil, ambíguo, irônico, moderno e contemporâneo.

O sucesso de Os Incompreendidos e a amizade entre os diretores possibilitou a Godard recursos para, no ano seguinte, filmar um antigo projeto-roteiro de Truffaut. Á Bout de Souffle, O Acossado, é o resultado desta parceria-amizade que acabará por revolucionar o cinema contemporâneo. Neste filme, o iconoclasta enfant-terrible Godard torna, com um só lance de gênio, todos os filmes anteriores, inclusive o de Truffaut, como representantes de um cinema antigo.  Verdadeiro divisor de águas, O Acossado introduz o estilo paródico e irônico do pop, os jump-cuts, a meta-linguagem e o meta-cinema.

Ao desafio de Godard, Truffaut responde com dois filmes que seguem a mesma linha de radicalização de uma nova linguagem: Atirem no Pianista e Jules e Jim. Ao que Godard responde, por sua vez, com Uma mulher é Uma Mulher e Viver sua vida. É assim, por meio de um intenso diálogo cinematográfico, que Truffaut e Godard tomarão a linha de frente entre os jovens turcos para abrir caminho para a nova onda do cinema. Intelectuais pensadores com cultura literária e humanística, amantes obcecados pela história do cinema, estes dois diretores polemizam nas arenas recalcitrantes da mídia impressa e televisiva na década de 60, enquanto a radicalização de seus filmes começa a se tornar inconveniente para o grande público. O documentário de Laurent, com fartura de imagens, mostra dezenas de entrevistas em que um charmoso Truffaut e um pirado Godard, sempre de óculos escuros e cabelos desgrenhados qual um pierrot-le-fou, vão desfiando o programa político e estético da Nouvelle Vague.


Curiosa e tragicamente, serão as mesmas linhas polemistas que os uniam que mais tarde os separarão. Para Truffaut e Godard, a radicalização da linguagem cinematográfica que ambos haviam levado a termo tinha significados diferentes que implicavam em distintas linhas políticas. Para Godard, a política de sua estética era política stricto sensu. Foi assim que o aristocrata,  oriundo de uma família rica de industriais suíços, se tornaria maoísta, querendo dar aos seus filmes a mesma letalidade de uma metralhadora na mão de um guerrilheiro. Para o órfão de pai Truffaut, vindo de uma família modesta, por outro lado, a política cinematográfica de seus filmes era a dos autores: é pelo seu caráter singular que a obra se afirma esteticamente e faz desta estética uma política única. Para Godard, a política de um filme está na incessante auto-crítica que o leva a questionar sua origem e seu destino de classe. Para Truffaut a verdadeira política está na vida cotidiana das ruas, com seus personagens à deriva entre o acaso dos acontecimentos e a violência de suas paixões.

E foi na violência apaixonada de suas ideias e de seus ideais que as linhas divergentes de estética e política iriam se chocar inapelavelmente para jamais se restaurar. Após de uma agressiva troca de cartas, ambos acabam rompendo a amizade e nunca mais iriam se reencontrar.

E foi com o rompimento definitivo da amizade e com a morte precoce de Truffaut que a Onda Nova se aplainou e foi absorvida pelo imenso oceano da cultura de massas. Todos seus autores vivos, Rohmer, Rivette, Chabrol e o próprio Godard, e outros próximos como Resnais, Varda e Remy, continuaram realizando seus filmes da maneira ainda singularmente autoral, filmes que em nada regrediram em proposta estética, nem consentiram com a facilidade de expressão. Porém, a Nouvelle Vague, enquanto movimento revolucionário, foi relegada à idiossincrasia daqueles anos febris de 60, apenas uma etapa da história das artes.

Mas, contra a maré, o documentário de Emmanuel Laurent se pergunta como um movimento ligado a um “cinema da juventude”, cheio de frescor, rebeldia e liberdade, pode ser ignorado ou mesmo desprezado pelos jovens contemporâneos, mesmo entre amantes de cinema. Em Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague, uma moça vivida por Isid Le Besco, folheia os arquivos e vê os filmes antigos como se procurasse decifrar os hieróglifos de uma linguagem perdida. É deste “gap” geracional que provém a força do filme: será que foi a Nouvelle Vague, qual uma vaga no mar, que veio e passou, ou foram os jovens contemporâneos que envelheceram precocemente?

Deixe um comentário

Sugeridos
FilmesGamesTrailersVideos

‘Street Fighter’ Inova ao Lançar Trailer Jogável em Clima de Arcade Anos 90

Prévia interativa no YouTube Playable permite que fãs executem combos e golpes...

AstrosFilmes

Tim Curry (1946–2026): O Sorriso Sombrio que Iluminou a Cultura Pop

De cientista louco de salto alto em Rocky Horror a palhaço demoníaco...

CríticasFilmes

Nosso Segredo: A Materialização do Luto e a Casa-Quilombo de Grace Passô

Duas décadas após transformar o teatro brasileiro com a peça Amores Surdos,...

CríticasFilmes

‘Coyote vs. Acme’ é sagaz na proposta e no desenvolvimento

Longa resgata a nostalgia dos desenhos clássicos em uma sátira inteligente que...

AstrosFilmesListasMúsica

Dolly Parton e Suas Parcerias Mais Inusitadas

De duetos com os Beatles e Sylvester Stallone a participações em comédias...

CríticasFilmesLançamentos

Champagne (2026): uma inesquecível viagem de pai e filho

Ali pela metade do filme holandês “Champagne”, Hans está conversando com um...

FilmesNotícias

Frozen 3 e 4: Tudo o que a Disney revelou sobre o Destino de Elsa e Anna na D23

Josh Gad classificou o terceiro longa como o mais divertido da franquia...

FilmesNotíciasTrailersVideos

Vingadores: Doutor Destino — Tudo o Que a Prévia Revela Sobre o Colapso do Multiverso

O trailer de Vingadores: Doutor Destino (Avengers: Doomsday), apresentado na D23 Expo,...

CríticasFilmes

O Fim da Rua e o ensaio sobre a finitude

O Fim da Rua, produção assinada por J.J. Abrams e sua produtora...