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“O Clã” e o insustentável peso da vida real

Dostóievski não estava apenas divagando quando em um de seus melhores livros, Os Demônios (opinião pessoal de quem nem é muito fã de sua obra), escreveu: “a verdadeira verdade é sempre inverossímil“.

O diretor argentino Pablo Trapero devia ter isso em mente ao mergulhar de cabeça no caso assustadoramente real da família Puccio, que ficou conhecida nos anos 80 por sequestrar parentes de pessoas ricas. Liderado pelo pai, Arquímedes (Guillermo Francella), o grupo ficou marcado por assassinar as vítimas após recolher o valor do resgate. Tem-se o perturbador O Clã. O trabalho principal e plenamente assertivo de Trapero é o de apresentar essa família aparentemente ordinária dentro do extremo ato criminoso que promove.

A figura paterna impõe-se sobre os desdobramentos trágicos daquela família, em confronto emocional e estranhamente moral com o filho, Alejandro (Peter Lanzani), a face mais humana do que se entende como vilão numa conjuntura de história real.

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O roteiro nivela a estrutura de um thriller da qual Trapero não perde o ritmo em momento algum, juntando conexões militares com permissividade institucional (afinal, estamos em fins do regime militar argentino).

Vale destacar a reconstituição da época, assim como a fotografia correta e pertinente aos fatos retratados. A condensação desses fatos só reforça o quanto Dostóievski estava certo ao relativizar a “verdade real”. Tanto que é nos letreiros finais, onde descobrimos os desdobramentos verídicos dessa família, que mais ficamos perplexos em como a realidade ficaria muito aquém de qualquer “verdade inventada”.

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