AcervoCríticasFilmes

Por que assistir a Táxi Teerã, do diretor iraniano Jafar Panahi

Alx jafar panahi taxi original1

O novo filme do diretor iraniano Jafar Panahi (O Balão Branco, Cortinas Fechadas) é um emblema de como criar estratégias para dar continuidade àquilo que deve ser feito, mesmo que uma proibição estapafúrdia o queira impedir.

Panahi, condenado à censura em seu país, primeiro não pôde filmar e sair de casa. Havia contornado o problema filmando Isto não é um filme (2011), que tematizava exatamente o impedimento de uma potência de vida, muito mais forte por conter a proibição da própria vida somada à proibição da criação que, neste caso, é o único ofício de um homem, o sentido de sua vida. Proíba um escritor de escrever, proíba um desenhista de desenhar, proíba um cuidador de cuidar, proíba qualquer pessoa de falar, e veja o que acontece. Proíba um cineasta de fazer filmes e ele fará Isto não é um filme, como é o caso de Panahi, que, com isso, conseguiu veicular sua história para além das fronteiras rígidas de seu país.

Com Táxi, ele pode sair, circular, interagir, ver a cidade, retomar os percursos de vida que qualquer um tem a cumprir (e quer cumprir), e aproveita para criar um filme interessante, que se apresenta como um documentário, inicialmente, para, não muito depois, mostrar-se novamente um filme metalingüístico que coloca em questão sua definição, mas que, em aliança com o espectador, define-se claramente como ficção. Uma singular ficção.

Assim, o diretor improvisa um táxi e, pelas ruas de Teerã, vai pegando passageiros aleatórios para, na seqüência, transportar pessoas conhecidas. São encontros interessantes, rápidos e cômicos. São encontros fortuitos plenos de mensagens, com referências a filmes do próprio autor e a dilemas do país.

Uma discussão política, um vendedor de filmes piratas que questiona o próprio filme em que é personagem (real ou fictício?), um acidente e a quase-morte, mulheres absurdas transportando um aquário caricato com dois peixes, mulheres essas que devem cumprir um determinado ritual que, se não for realizado, pode significar a morte de ambas (referência a O Balão Branco). E uma mulher bonita, advogada, que carrega flores bonitas para outras mulheres, presas por tentarem ir a um estádio. Antes de partir, ela deixa uma rosa no táxi de Panahi e a dedica a todas as pessoas que amam cinema. A rosa, a partir daí, vira a moldura da tela no itinerário final do táxi-filme, cuja câmera volta-se para as ruas que estão sendo percorridas, mostrando agora a visão do motorista.

taxi teerã 1

Nesses caminhos percorridos pela câmera, Panahi levanta alguns problemas essenciais: a censura na criação de filmes no país (que representa a censura em todos os outros âmbitos da expressão e da comunicação humanas), a situação das mulheres iranianas, a excessiva e adoecedora crença religiosa, as proibições que assolam o país, as punições direcionadas àqueles que burlam as regras e as formas que são encontradas para delas (das proibições) escapar, quais sejam: greve de fome, filme no táxi, venda de filmes piratas e por aí vai.

Desse modo, o filme mostra, sem precisar escancarar sua temática, a questão básica da ausência de liberdade. E que diante de uma ausência maior de liberdade política e coletiva, é a liberdade interior, de pensamento e de afetos, de sua expressão, da fabricação de subterfúgios que propiciem sua veiculação, é justo essa liberdade interior o que pode construir microcosmos de pequenas liberdades que permitem que a vida se sustente tolerável entre uma proibição e outra. Que se sustente, acima de tudo, vivível.

E é por essas razões e pela veia política de Panahi, uma marca que acompanha o diretor há algum tempo, que há razões para assistir a esse interessantíssimo Táxi Teerã, que levou o Urso de Ouro no último Festival de Berlim. E também por sua cena final, que enfatiza o fato assustador de que a liberdade de expressão é sempre algo que se pode perder quando menos se espera, em qualquer lugar, quando nem se pode imaginar, e não apenas no Irã. Talvez pudéssemos pensar que a perda iminente da liberdade seja um aspecto inerente ao conceito geral de liberdade. Liberdade é aquilo que sempre pode nos ser tirado.

Deixe um comentário

Sugeridos
Street Fighter trailer jogável
FilmesGamesTrailersVideos

‘Street Fighter’ Inova ao Lançar Trailer Jogável em Clima de Arcade Anos 90

Prévia interativa no YouTube Playable permite que fãs executem combos e golpes...

Tim Curry
AstrosFilmes

Tim Curry (1946–2026): O Sorriso Sombrio que Iluminou a Cultura Pop

De cientista louco de salto alto em Rocky Horror a palhaço demoníaco...

Nosso Segredo Cinema Filme BSBArt 2 1024x549
CríticasFilmes

Nosso Segredo: A Materialização do Luto e a Casa-Quilombo de Grace Passô

Duas décadas após transformar o teatro brasileiro com a peça Amores Surdos,...

Festival do Rio
FestivaisFilmesNotícias

Première Brasil Anuncia 101 Filmes Selecionados para o Festival do Rio 2026

Escolhida entre quase 1.500 inscritos, a safra da 28ª edição do evento...

Coyote vs. acme
CríticasFilmes

‘Coyote vs. Acme’ é sagaz na proposta e no desenvolvimento

Longa resgata a nostalgia dos desenhos clássicos em uma sátira inteligente que...

Dolly Parton and Sylvester Stallone
AstrosFilmesListasMúsica

Dolly Parton e Suas Parcerias Mais Inusitadas

De duetos com os Beatles e Sylvester Stallone a participações em comédias...

Gaivota 24 JoaoGabrielMonteiro
CríticasTeatro

Excelente montagem de A Gaivota, de Tchekhóv

O Armazém Companhia de Teatro está de volta com uma nova montagem...

Flávio Venturini ao vivo
CríticasMúsicaShows

Após longo hiato, Flávio Venturini festeja 50 anos de carreira no Rio com show inspirado

Assistir a um show do cantor, compositor e tecladista Flávio Venturini sempre...