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Saldo final do Cinema Ritrovato 2019

Para esse meu último artigo sobre a experiência do Festival Cinema Ritrovato 2019, vou tentar fazer um apanhado geral das minhas impressões e descobertas dos últimos três dias.

Então vamos lá:

No quinto dia tive o prazer incomensurável de assistir uma cópia vintage (não restaurada) de “Indiscreta”, um filme de Stanley Donen de 1958, estrelado por ninguém mais, ninguém menos que Ingrid Bergman e Cary Grant, dois dos mais charmosos atores dos tempos áureos hollywoodianos. Como era de se esperar do diretor, mais conhecido pelo favorito de muitos, “Cantando na Chuva”, existe uma aura deliciosa em torno de cada gesto, de cada movimento de câmera e olhar. A inegável química entre os dois atores já era conhecida e bem sucedida desde o filme de 1946 de Hitchcock, “Notorious”. Um excelente artigo sobre a história de amizade entre os dois atores pode ser encontrado neste link; https://sistercelluloid.com/2015/08/30/ingrid-bergman-and-cary-grant-an-indiscreet-friendship/

 

 

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Além destes elementos, que denotam a maestria do diretor e de sua equipe e o amor pelo cinema, a trama também merece destaque. A história, que pode ser considerada bastante pouco usual para a época, mostra uma mulher que se envolve com um homem casado numa situação pouco explicada mas que, subentende-se, não tem como ser resolvida à curto prazo. Algo que hoje em dia é considerado tão corriqueiro, mas que naquela época representava algum tipo de indiscrição, como o próprio título do filme diz, pondo em risco a reputação da mulher envolvida. A leveza é tanta que até mesmo quando a trama poderia levar a um clímax de ciúmes e rompimento e tristeza, típico das narrativas clichê de comédias românticas, ela nos leva a uma das cenas mais cômicas do filme todo e um dos momentos mais simples e belos da história do cinema.

Voltando ao cinema francês, Toni, de Jean Renoir, realizado em 1935, traz o elemento do amor obsessivo e da tragédia num contexto da chegada de imigrantes ao sul da França para narrar a micro-história de um triângulo amoroso entre Toni, Marie e Josefa. É muito interessante observar a estrutura criada pelo diretor, que inicia e termina o filme da mesma maneira, reforçando a ideia de ciclo e de repetição dos mesmos sonhos alimentados pela esperança de uma vida melhor, seguidos pelas mesmas quedas, numa luta incansável pela felicidade.

Há aspectos tanto em termos visuais quanto em termos narrativos que anunciam o realismo e naturalismo que tomariam a linguagem do cinema de assalto pós segunda guerra mundial, tais como o clima pessimista, uma certa secura e racionalidade das personagens, a indefinição do que costumava ser obviamente um bom caráter, a incerteza das vontades misturada à cegueira do desejo. Enfim, um filme duro, com pinceladas daquela beleza etérea trazida pelo cineasta através da simplicidade extrema encontrada em momentos banais como o acontecimento em torno de uma picada de inseto. Pra quem quiser dar uma conferida no filme, aqui vai um link:

https://vimeo.com/78521450

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Ainda no assunto do cinema Francês, Judex, adaptado da série conhecida desde 1916 por Georges Franju traz as aventuras de um justiceiro galanteador, precursor de heróis pulp e de super heróis como Spirit, Fantasma, e outros. Esta “refilmagem” de 1963 traz uma cena emblemática belíssima na qual personagens vestem cabeças de pássaros durante um baile de máscaras num castelo. https://www.youtube.com/watch?v=xS_hq0MlNwo

“Le Plaisir”, de Max Ophüls, um de meus cineastas favoritos, foi exibido na Piazza Maggiore num dos últimos dias do Festival. O filme de 1952 traz três capítulos, cada um com uma duração diferente, que transparecem como contos ou anedotas sobre desejo, amor e prazer. Às vezes mais pessimista do que outras, uma das qualidades que mais admiro no diretor é o caráter revolucionário de suas histórias. Ele fala sobre o amor sem pudor e sem o recalque da época. Pra quem não conhece sua obra, recomendo altamente. 😉

“Finis Terrae”, de Jean Epstein, filme mudo de 1929, narra a história de 2 pescadores que fazem parte de um grupo de 4 que, isolados numa ilha durante o período da pesca, acabam por brigar e se distanciar cada vez mais. A premissa do filme me parece bastante rasa, não havendo muita sustentação para manter coesão e coerência na trama dessa suposta inimizade crescente. Entretanto, visualmente, o filme é de uma beleza rara, sobretudo para a “safra” deste período. Logo no começo, quando uma das personagens está correndo com uma garrafa na mão, Epstein consegue criar um movimento de câmera fluido que segue a corrida em um traveling improvisado.

De modo geral, Epstein filma muitas de suas cenas como um documentário de observação, misturando estes momentos mais naturalistas com interpelações visuais bastante intencionais através do uso de closes e câmeras lentas, para transmitir os sentimentos e preencher o ambiente. Estas técnicas estavam à serviço de sua teoria sobre a fotogenia que, segundo ele, era intrínseca à linguagem do cinema, inefável e imponderável, intimamente ligada à questão do movimento e do “grande plano”. 

 

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“O Anjo das Ruas” (Street Angel), um filme de Frank Borzage de 1928, se encontra na transição entre o filme silencioso e as primeiras artimanhas para preencher o escopo sonoro. Neste, por exemplo, um dos elementos mais simbólicos que une e representa o amor das duas personagens é uma canção assoviada por ambos. Um filme singelo que, apesar de possuir questões morais conservadoras e algumas péssimas decisões das personagens, no geral, é bem sucedido como elogio ao amor que ultrapassa barreiras.

Finalmente, minha programação do Festival terminou com dois filmes maravilhosos: “The Devil Thumbs a Ride’, um longa de 1947 dirigido por Felix E. Feist, que fechou com chave de ouro a mostra de filmes do gênero Noir, cheio de momentos tensos e quebras de expectativa, e “O Pão”, de Manoel de Oliveira, realizado em 1959, exibido numa belíssima cópia restaurada em sua duração de 59 minutos.

O grande representante da cinematografia portuguesa durante a edição do Festival de 2019 mostra como um documentário de “observação” sobre o “ciclo do pão”, produzido para a Federação dos Industriais de Moagem, pode conter momentos poéticos e de extrema beleza e maestria na montagem, denotando o pensamento meticuloso do diretor para a construção de imagens precisas ainda que afetivas.

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Vale ainda ressaltar a mostra que ocorre todos os anos dedicada a exibir trechos curtas de filmes do início do século XX, dedicados à busca pela cor no cinema

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Cinema Ritrovato é o festival de cinema que acontece na cidade italiana de Bolonha, focado em contemplar tesouros desconhecidos e também revisitar filmes favoritos da comunidade cinéfilos. Leia mais aqui.

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Publicação Raquel Gandra