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Total Recall – Podemos recordar para você, por um preço razoável

O Vingador do Futuro é baseado no conto do escritor americano Philip K. Dick. PKD, como é conhecido, abandou os estudos de Filosofia e Alemão para trabalhar como Disc-Jockey numa rádio. E, como costuma acontecer com bons escritores, adquiriu fama após sua morte, tendo sua primeira adaptação para o cinema em 1982, com Blade Runner dirigido por Ridley Scott. Ele escrevia seus livros em maratonas de algumas semanas e as narrativas de suas edições de bolso baratas por vezes deixavam evidente a pressa com que escrevia.

Ao contrário dos escritores de Sci-Fi famosos de sua época, PKD criava personagens comuns, como você ou eu, enfrentando versões futurísticas de problema humanos normais. Numa dessas ruelas vertiginosas entra Doug Quaid, interpretado por Colin Farrell, e sua bela esposa Lori, estrelada por Kate Beckinsale, esposa do diretor do longa, Len Wiseman, numa versão mais sexy e quase indestrutível da agente usada para corroborar a memória fake implantada na mente do protagonista.

Em vez de um remake baseado no clássico de 1990, com Arnold Schwarzenegger, o que encontramos foi uma versão nova baseada mais diretamente no conto de PKD – “Podemos recordar para você, por um preço razoável”. Num cenário pós-apocalíptico em que uma guerra química tornou inabitável grande parte do planeta, sobraram apenas duas “colônias” de seres humanos. De um lado a Federação Unida da Bretanha, e do outro a Austrália, a verdadeira colônia, uma espécie de população explorada que viaja rotineiramente para a FUB através de um meio de transporte supersônico que atravessa o planeta, A Queda. Incomodado com sonhos recorrentes e atual status quo de sua vida, vivendo num shit hole, como fala sua esposa mal-humorada, Quaid decide contratar os serviços de uma empresa do submundo. A Rekall oferece ao cliente qualquer tipo de memória dos sonhos, uma espécie de escapismo do cenário decadente.

Não houve racionamento de efeitos especiais nesta super produção e umas das cenas mais alucinantes foi situada logo no início do filme, na transição do Mundo Normal para o Mundo Especial, segundo a teoria da jornada do herói. Após ser posicionado na máquina provedora da memória desejada, Quaid acorda como Hauser – sua suposta verdadeira identidade –, agente duplo, disparando contra-ataques aos homens armados que irrompem pela porta para matá-lo; a câmera faz dá uma volta de 360° enquanto a ação acontece.

Algumas referências à versão 1990 fazem graça diante de nossos olhos, como a cena da passagem pelos seguranças em que Hauser usa uma máscara. Somos enganados pela mulher gorda que aparece em cena, idêntica à do primeiro filme, pois nosso herói está disfarçado de um outro homem mais adiante. Ainda que Hauser não tenha precisado tirar uma bola gigante do cérebro pelo nariz, a ideia de um dispositivo implantado na palma da mão é caricata e remete a uma celular anti-furto, nada mal para os parâmetros de qualquer amante de tecnologia.

Podemos recordar para você, por um preço razoável é o slogan da Rekall. Mas o espectador sente um friozinho na barriga vez ou outra em que o plot ameaça jogá-los para a (suposta verdadeira) realidade. Ainda somos confrontados com o dilema de Matrix: optar por uma ilusão conveniente e agradável ou render-se à pura e excruciante realidade?

Afinal, o que é real?

2 opinaram!

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  1. Para mim o grande “furo” do filme foi a transição para o “mundo especial” não ter sido precedida por um pouco mais de detalhe. No filme original, a equipe da Rekall informa que o protagonista irá viver uma grande aventura, ficar com uma bela moça e salvar o mundo no final; e é justamente o que acontece, o que torna a dúvida muito maior para o espectador. Neste filme não achei que eles reforçaram a questão de “você pode estar em uma ilusão” nenhuma vez; mesmo a conversa com o amigo dele, dizendo isso, é logo seguida por uma cena onde a esposa do protagonista pára de fingir, mesmo longe das vistas do protagonista, deixando claro para o espectador que NÃO é uma ilusão. Sem esta “dúvida razoável”, a versão nova virou apenas um filme de ação legal, quando poderia ser um filme épico como “A Origem”, cujo final realmente deixa o espectador em suspense. Uma pena!

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Aprendiz

Publicado por Daniele Ribeiro

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