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Vidas ao Vento – A obra prima e o adeus de Hayao Miyazaki

Hayao Miyazaki se tornou popular mundo afora ao vencer o Oscar com A Viagem de Chihiro, porém fãs de animação japonesa o conhecem de longa data e muita discussão. Afinal, qual a grande obra prima do cineasta que, longe de se restringir seu trabalho a qualquer nicho, produziu as mais incríveis fábulas do tempo contemporâneo?

Nausicaa do Vale dos Ventos sempre me exerceu grande fascínio e A Princesa Mononoke é monumental, assim mesmo sabendo que Miyazaki anunciou aposentadoria após o lançamento de Vidas ao Vento (Kaze Tachinu, no original), nem me ocorreu o quão extraordinário seria a experiência de sua última obra.

O vento se ergue, é preciso tentar viver

Apesar de costantemente citada em Vidas ao Vento, a frase do poeta francês Paul Valéry se ergue como uma voz silenciosa por toda obra de Miyazaki. Esqueçamos o velho maniqueísmo que rege o ocidente! Apesar de todas adversidades vivemos, vivemos e sonhamos! Vivemos como Miyazaki que recria aqui aqui seus sonhos de juventude através de Jiro Horikoshi – engenheiro que desenvolveu o famoso Zero para o Império Japonês. Como Jiro, a aviação foi a primeira grande paixão do pequeno Miyazaki, que cresceu em uma família ligada a indústria aeronáutica japonesa.

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Vidas ao Vendo abre com Jiro sonhando em pilotar aviões, mas por usar óculos se descobre impossibilitado de tal aventura. Ainda em sonho Jiro recebe a visita do conde Giovanni Caproni, lendário engenheiro de aviões do início do século XX, que lhe inspira a burlar a adversidade e insistir em seus sonhos com aviões. Foi Caproni criador do avião Ca.309, modelo mais conhecido como Ghibli, palavra líbia que designa o vento do deserto e hoje é mais conhecida como estúdio de animação fundado por Hayao Miyazaki.

O vento se ergue, é preciso tentar viver

O sonho de Jiro o leva para a universidade, e voltando do feriado após o grande terremoto de 1929, o vento espalha o incêndio que destruiu boa parte de Tóquio em 1929. No caos Jiro auxilia a jovem Naoko Satomi e sua enfermeira a retornar para sua casa. Jiro e Naoko seguem suas vidas e o jovem designer consegue oportunidade de desenvolver seu sonho na indústria bélica japonesa, que saiu da primeira guerra atrasada vinte anos para surpreender o mundo na segunda grande guerra graças ao projeto de Jiro Horikoshi, que até hoje é visto como referência das principais qualidades do povo japonês – ao ponto de levar o próprio Miyazaki a declarar que considera o desenvolvimento da aeronáutica na época uma das poucas façanhas que japoneses podem verdadeiramente se orgulhar.

Ainda intercalando as vidas de Jiro Horikoshi e Myiasaki, o filme empresta seu título do escritor Tatsuo Hori, que em 1937 publicou um livro com a história do desenvolvimento do avião japonês pelo Sr. Horikoshi intitulado “O vento se ergue”. Myiasaki, que nasceu em 1941, cresceu no Japão arrasado pela Guerra e naturalmente cresceu fascinado com aquele mundo anterior a crise vivida no pós-guerra.

Vidas-ao-Vento-Hayao-Myiasaki

Ainda que idealista, os ventos levaram a obra de Jiro para o inferno da guerra. “Tudo que eu queria era fazer algo lindo” declarou certa vez o Jiro histórico, frase que segundo Myiasaki o impulsionou a escrever e dirigir Vidas ao Vento. Tema este tão forte nesta obra carrega uma das cenas mais incríveis do filme, quando o Sr. Caproni indaga a Jiro em seus sonhos se ele prefere viver no onde as pirâmides existem ou não!

Jiro precisa seguir em frente com seus sonhos e também com sua vida, como faz Miyazaki e como fazemos todos de modo ou de outro, mesmo que em meio às mesquinhas disputas humanas por controle e poder. Esta sim é a grande mensagem construída na devastação de Nausicaa, nas transformações de Kiki, com a morte dos deuses em Mononoke Hime e na luta pelo amadurecimento na viagem de Chihiro. O bem e o mal só existem pela condição humana, não cabendo assim figurar no panteão mitológico dos mestres contadores de histórias.

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Longe de ignorar o sofrimento humano, Vidas ao Vento também busca em outra obra literária – desta vez A Montanha Mágica, de Thomas Mann, o reforço desta mensagem que nos persegue por toda vida. Jiro e Naoko Satomi voltam a se encontrar e se apaixonam no retiro em meio as montanhas desconhecidas, mas acometida de Tuberculose, Jiro acompanha sua amada também para uma jornada de desfecho tráfico que somente fica par do sofrimento trazido de ver sua criação se transformar em terror e morte.

Miyazaki, que ainda pequeno teve sua mãe levada pela tuberculose, se conecta mais uma vez com o escritor Tatsuo Hori, escritor de um livro sobre a luta de sua amada contra a tuberculose, na época fatal, nesta insistente e bela mensagem de vida que o cineasta nos deixa de legado. Obrigado Miyazaki.

O vento se ergue, é preciso tentar viver

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