Fragmentos, cartas e reflexões revelam experiências de desejo, abandono e reencontro consigo mesma, convidando leitores a mergulhar na intensidade do amor-próprio.
A escritora e artista multidisciplinar Luciana Palhares convida o leitor a uma viagem profunda pelo amor-próprio e pela autoficção em seu livro “Para Entender Uma História de Amor”. Lançado de forma independente, o livro reúne fragmentos, cartas e reflexões que atravessam as fronteiras entre memória e invenção, revelando experiências de desejo, abandono e reencontro consigo mesma.
Nascida no Rio de Janeiro em 1981, Luciana Palhares é atriz, terapeuta holística e escritora. Formada pela CAL (Casa de Artes de Laranjeiras), já atuou em teatro, cinema e produção cultural antes de se dedicar integralmente à escrita e às terapias alternativas. Finalista do Prêmio Marie Claire de Contos Eróticos (2012) e do Prêmio Microconto de Ouro (2023).
“Para Entender Uma História de Amor” nasce de uma necessidade pessoal de decifrar vivências íntimas e transformar dor em arte. Inspirada por autores como Milan Kundera, Anaïs Nin e Henry Miller, Luciana constrói uma narrativa onde a escrita se torna um gesto de cura e autoconhecimento, mostrando que olhar para si mesma, enxergar-se e amar-se é também um ato de sobrevivência.
No livro, cada fragmento funciona como uma lente para compreender os afetos e o corpo, revelando que a construção do amor-próprio passa pela coragem de se expor, refletir e se reinventar. Para Luciana, escrever é mais do que criar histórias: é respirar, existir e se afirmar no mundo.
Se você pudesse resumir Para Entender uma História de Amor em algumas ideias centrais, quais seriam as forças ou dilemas que movem o livro?
A busca por amor fora de si. Os encontros e desencontros derivados dessa busca. As reflexões que vêm dessas experiências.
Em que momento você percebeu que estava vivendo mais para o olhar do outro do que para si mesma?
Foi um choque. Eu precisei admitir que boa parte das minhas escolhas vinha de uma necessidade de ser aceita, de caber em expectativas externas. Perceber que eu estava sempre me moldando para ser vista — e não necessariamente para ser eu — foi doloroso, mas libertador. A partir daí, comecei o movimento de me olhar, de tentar entender quem eu era quando ninguém estava olhando.
De que maneira suas experiências pessoais te levaram a explorar o tema da busca por amor fora de si?
A escrita começou a ser meu refúgio ainda na infância, de noite quando a casa se calava eu escrevia. E até hoje, escrever segue sendo a melhor maneira que encontrei para conhecer-me, para digerir minhas experiências. Cresci numa casa emocionalmente árida, o que é diametralmente oposto à minha essência espontânea e curiosa, fiquei buscando atenção e amor nas minhas relações com os homens por um bom tempo, até fazer o caminho de volta para mim.
O que significa, para você, o movimento de “voltar para si”?
Significa aprender a se escutar, a se acompanhar, a se acolher. A voltar a ser sua própria referência. É um exercício diário de se perguntar o que eu quero, o que eu sinto, o que faz sentido para mim — e não o que esperam de mim. É sair do piloto automático e recuperar o direito de escolher.
Você menciona em outros momentos da sua trajetória o quanto foi treinada a colocar as necessidades dos outros antes das suas. Essa herança familiar ainda reverbera na sua escrita?
Muito. A escrita é onde eu revisito essas camadas, esses padrões. Escrevendo, eu consigo entender de onde vêm certas dores, porque repito certas dinâmicas. É um espaço de consciência e também de libertação. Cada texto é uma tentativa de me reapropriar da minha história.
O vazio aparece como um ponto de virada importante na sua trajetória. O que você aprendeu ao atravessá-lo?
Aprendi que o vazio não é o fim — ele é o começo. Quando tudo desaba, o que sobra é o que realmente importa. O vazio me obrigou a me escutar. Ele me fez perceber que a ausência de amor que eu sentia era, na verdade, a ausência de mim mesma.
A busca pelo amor costuma ser um tema íntimo e confessional. Como foi o processo de escrita deste livro?
Não sei precisar o tempo que levei para escrever o texto. Ele já está pronto comigo há muitos anos. Depois que entrei na minha fase nômade e em especial, depois da pandemia, entendi que esses escritos deviam ser divididos, deviam ganhar mundo, como eu mesma estava e, ainda estou, fazendo. Escrevo em ondas. Há temporadas que estou mais extrovertida e estou vivendo. Elas costumam ser seguidas de temporadas profundamente introspectivas em que escrevo muito, muito, muito mais do que o normal. Publicar meus livros é de certa forma afirmar a minha existência, assumir um lugar no mundo, ser vista. Me escondi por muitos anos, agora quero ser vista, lida, ouvida. Quero conversa, companhia, troca.
Que mensagens ou provocações você espera despertar nos leitores com essa obra?
Nossas experiências só nos definem se damos permissão para isso. Independente do que nos acontece, do que experimentamos, podemos buscar outras formas de viver, de ser. Existem novas versões de nós que ainda desconhecemos.Sempre podemos reescrever-nos.
Você costuma dizer que amar é ver. O que essa ideia significa para você?
Para mim, amar é olhar com presença, sem querer mudar o que é. É ver a sombra e a luz, o bonito e o feio, e continuar ali. Ver algo ou alguém é criar um espaço, uma brechas entre expectativas.Quando nos vemos de verdade — com compaixão, sem filtros — começamos a nos amar. E esse amor muda tudo: nossos vínculos, nossos desejos, nossa maneira de existir.
O que “Para Entender uma História de Amor” representa para você nesse processo de se reconhecer e se mostrar através da escrita?
É mais um passo no meu projeto de expressão pessoal. A Luciana que escreveu “Para Entender Uma História de Amor” já nem existe mais, hoje sou outra, mas devo a essa versão anterior, a quem sou agora. Inclusive a figura na capa do livro sou eu mesma na minha década de 20.
Você acredita que a escrita do livro te transformou de alguma forma? Por quê?
Sim, claro. Para mim estou sempre escrevendo-me. A Luciana que escreveu o livro nem existe mais. Há pouco tempo percebi que a escrita foi uma das poucas, se não a única, constante na minha vida. Escrever é território seguro e de infinitas possibilidades. Enquanto a história não acabou, vêm novos capítulos, novos episódios.
Você escolheu a autoficção como forma de expressão. O que te atrai nesse gênero e como ele se tornou uma ferramenta para pensar e reelaborar suas próprias vivências?
Pensar sobre a linha fina que divide a realidade da ficção me fascina. A autoficção para mim é um mecanismo natural, é uma ferramenta de sobrevivência psíquica até. O imaginado é real para o imaginador.
Suas referências vão de Milan Kundera a Anaïs Nin, de Nelson Rodrigues a John Fante. Como essas influências tão diversas se refletem na sua escrita e na maneira como você aborda o amor, o corpo e o imaginário?
Tenho muitíssimas influências! Tive a oportunidade de explorar muitas vias artísticas. Estudei pintura e desenho. Estudei literatura. Estudei dança. Me formei como atriz. Li e sigo lendo de tudo! Sou um pouco avessa a modismos, confesso. Li muito Sidney Sheldon, Harold Robbins. Li muito Harlequin na pré-adolescência. Amo livros de banca de jornal naquele papel jornal, e um dia encontrarei um jeito de lançar meus livros naquele papel que para mim me transmite proximidade. Li muito Nelson Rodrigues e Shakespeare. Li muito John Fante e Camus. Li muito sobre mitologia, psicologia analítica, constelação familiar, psicologia em geral. Li muito Osho. Tive muitas fases diferentes nas minhas leituras, mas este texto em especial é muito influenciado pelo meu amor incondicional ao Milan Kundera. Para mim houve um antes e um depois da leitura de “A Insustentável leveza do ser”. Este texto e outros que escrevi em fragmentos vêm dessa experiência. O Henry Miller e a Anaïs Nin também são grandes influências. Gosto da honestidade crua deles, quase infantil por vezes. E isso também está em “Para Entender uma História de Amor”.
Você descreve seu estilo como um fluxo de consciência, de frases curtas e respiração de atriz. Como chegou a essa voz literária e que estrutura escolheu para compor “Para Entender uma História de Amor”?
Tenho tendência aos períodos sincopados, fluxos de consciência, pontuações respiradas (talvez herança da atriz). Busco usar o menor número possível de palavras para expressar certas sensações que tenho, certas imagens que busco decifrar, digamos assim. “Para Entender uma História de Amor” é quase um auto-ensaio escrito em fragmentos numerados. Tem narrativas curtas, tem cartas, tem reflexões. Os fragmentos funcionam separados além do conjunto que formam.
Desde quando a escrita te acompanha?
Desde que aprendi a escrever, escrevo. Cada noite escrevia. Escondida por anos e anos. Escrevia spin-offs dos livros que gostava (antes de saber que tal termo existia!). Na pré-adolescência cheguei ao cúmulo de escrever todas as redações de inglês para os colegas da escola. Eles traziam as propostas dos cursos particulares que frequentavam e eu escrevia durante a aula. Sempre escrevi, sempre estou escrevendo. Não saio de casa sem meu caderninho e caneta. Nunca pensei em começar a escrever e por muitos anos nem me dei conta de que tinha o hábito. Era algo essencial como a higiene diária, simplesmente fazia.
Sua vida nômade influencia diretamente o modo como você escreve?
Sou uma pessoa que tem dificuldade com rotinas. Tenho rotinas por temporadas, por períodos de tempo curtos. Isso ficou ainda mais acentuado desde que me tornei nômade. Dependendo do lugar que estou, das condições em que estou vivendo. Crio pequenos ninhos de escrita. Escolho um café ou um ponto da casa onde estou para gestar meus textos, minhas poesias, meditações e escutas.
Como esse olhar amoroso sobre si se manifesta hoje na sua escrita e no seu trabalho terapêutico?
Ele está em tudo. No Escrita Íntima, meu projeto de escrita terapêutica, incentivo as pessoas a escreverem não para agradar, mas para se encontrar. A escrita é um espelho, e quando temos coragem de olhar para o que está refletido ali, algo dentro se reorganiza. Escrever é um ato de cura — e de liberdade.
Você costuma dizer que escrever é um refúgio, mas também uma forma de sobrevivência. Ainda é assim?
Sim, completamente. Escrever me mantém viva, lúcida e inteira. É o meu modo de respirar.
Quais são os seus projetos atuais de escrita?
Estou editando um livro de poesias em português e outro em inglês. Curiosamente eles são duas faces diferentes minhas. “A Noite em que os Espinhos viraram Flores” é uma Luciana mais dolorida. São versos traumatizados, ainda muito na falta, mergulhados na dor. E, claro, sempre muito auto-reflexivos em versos livres. Quem me conhece, quem sabe da minha trajetória pessoal, vai reconhecer personagens. Isso pode acontecer com o “Para Entender uma História de Amor” também!
As poesias em inglês são uma Luciana bem mística, prima do Rumi. O volume chama-se “Queen of Flowers” e é uma Luciana Fada, bem mais doce e etérea. Versos livres e um formato gráfico, uma diagramação específica em alguns poemas importante para os significados que estou buscando. Também estou desenvolvendo mais e estruturando meu trabalho com escrita terapêutica tanto as mentorias, como infoprodutos.









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