em

Resenha: Estranhas Criaturas Noturnas, de Jozias Benedicto

Li há poucas semanas Estranhas criaturas noturnas, livro de contos de Jozias Benedicto, que saiu em 2013, pela Apicuri. Há quem torça o nariz para a narrativa curta em literatura, como se fosse algo menor, como se o contista não soubesse escrever romance e se resignasse com o conto. Felizmente, em 2013, o Nobel de Literatura foi para Alice Munro, escritora de 82 anos conhecida por escrever somente narrativas curtas, mostrando que não há hierarquia entre narrativas. O livro de Jozias Benedicto, finalista no Concurso SESC de Literatura 2012/2013 – Conto, não deixa a dever a nenhuma narrativa longa.
O primeiro conto fornece uma senha dos personagens e situações que permeiam o livro. De um caderno de capa cinza traz uma lista de deveres que nos mostram, de modo cínico (e essa é a graça) que certas condutas razoáveis, saudáveis, corretas, que certos hábitos minuciosamente pensados e quantificados (“comer no máximo 5 ovos por semana”, “manter a regularidade diária no esvaziamento do intestino”) podem esconder outras condutas, tão obsessivas quanto, mas um pouco mais bizarras.
Um pai que assiste ao concerto do filho após muitos anos sem vê-lo, e que, em sua mistura de emoções, lembra de ter aconselhado que o filho estudasse economia ou direito, não música, e, se música fosse, não percussão, mas melhor que harpa, instrumento de mulher. O regresso de um irmão doente que, com a proximidade de seu fim, revela segredos que desconstroem alguma parca noção de eu. Um homem que faz seu dever de casa na praia, escrevendo sobre a literatura acessível enquanto tenta acessar, com humor, as mulheres do litoral. Essas são algumas das criaturas (nem sempre noturnas) que a narrativa irônica e afiada do autor nos revela.
O conto Suicídio (a preparação) é particularmente brilhante. Nele, o suicida faz os planos que antecedem a morte voluntária e paralisa diante da questão da assinatura da revista, que ainda tem dois anos pela frente, muito além de sua própria existência. O que fazer das revistas que continuarão chegando após sua morte? Diz o narrador, preso desse conflito a ser resolvido, desse futuro que, à sua revelia, persistirá: “(…) não consigo me imaginar morto e a revista chegando ainda por longos meses na minha porta, na porta de um apartamento que já nem vai ser mais meu, afinal não consigo pensar que paguei pela revista que um idiota qualquer vai receber todo o mês na porta do agora meu que depois será seu apartamento, não dele também pois ele apenas alugou depois que limparam todo o sangue (…)”. Mas nem tudo está perdido, a telefonista tentará ajudá-lo quanto ao sentido de sua vida: “Cancelamento? Qual o motivo? O senhor não está satisfeito com a nossa linha editorial? Como assim o senhor não está satisfeito com a sua vida?”
O último conto do livro, Noturno, é um fechamento excelente, espécie de apanhado geral das situações e personagens que o livro retrata: um pai de família emperrado no computador, na madrugada, tentando fechar um trabalho, dispersando-se nas janelas que a internet oferece, refletindo, fragmentariamente, sobre sua vida, sua família, suas dívidas, suas escolhas. Um inventário que recorda o passado para cotejá-lo com o presente, um lamento que ninguém pode ouvir. O que não deixa de ser, em tom mais emocionado, menos obsessivo, um caderno de capa cinza. Ou um ótimo epílogo.

alguém opinou!

Deixe sua opinião!

    Participe com sua opinião!