em ,

Bruno Albert reflete questões humanas e negritude em EP de estreia

O multi artista Bruno Albert mergulha em uma jornada de imersão e identidade em seu EP de estreia, “Semióforo”. Construindo sobre a sonoridade revelada nos singles “Razão” e “Pre-tu”, ele se apresenta pela primeira vez como artista solo de canção após uma trajetória no campo expandido da arte contemporânea.

Somando as faixas “Feriado”, “Ideias cadentes” e “Ciclos e Rotas”, o álbum já está disponível nas plataformas digitais através do selo Diáspora.

O trabalho é guiado pela experiência humana em múltiplas formas. Seja pelo abandono de amarras e convenções para se entregar a experiências intensas (“Razão”), a solidão na calada da noite (“Ideias cadentes”), a relação da memória com noções de afeto e identidade (“Ciclos e Rotas”) até passar pela presença da música como a vontade do encontro, comunicação, representatividade e reconhecimento em faixas como “Pre-tu” e “Feriado”. Tudo isso é embalado pelo violão folk de Bruno, que se encontra a instrumentos como bateria, baixo, cello e rabeca sob o comando do produtor Hugo Noguchi.

As canções do EP brotaram de um contexto de reclusão e questionamentos vividos por Albert, porém sem se limitar ao seu próprio microcosmo. “Não é difícil de se identificar e se enxergar no mesmo lugar daquilo que é dito nas letras das canções e é daí que vem a urgência de compartilhamento de tudo que arrodeou os limites da minha mente durante tanto tempo, mas se revelou como algo que tem voz em outros lugares, vozes e olhares”, reflete o artista, que cita inspirações indo de Milton Nascimento a Laura Marling, Gilberto Gil a Jeff Buckley, Caetano Veloso a Lianne La Havas.

Natural de São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro, Bruno Albert começou a compor muito jovem e sempre viu na música um meio de experimentação e produção artística para expressar seus questionamentos e afetos. O curso em História da Arte foi motivado pelo encontro com a instalação de “cosmococas”, do artista plástico Hélio Oiticica, que chegou a comparar seu trabalho com música. Inspirado a buscar uma abordagem diferente e sem barreiras, Albert se dedicou às artes de forma mais ampla até começar a compor as canções solo que viriam a fazer parte de “Semióforo”, ainda em 2016.

Além do EP, Bruno também tem feito interpretações de trabalhos importantes de outros artistas. É o caso de “Uma Canção”, de Ronaldo Bastos e Lô Borges, para a divulgação do livro de Marcos Lacerda sobre Bastos intitulado “Hotel Universo”; e também de “O Que Sobrou do Céu”, de Marcelo Yuka, gravada para o manifesto Carnavalhame.

A produção musical, engenharia de som, mixagem, masterização e as linhas de baixo de “Semióforo” são de Hugo Noguchi, conhecido por projetos como Ventre, SLVDR e Posada e o Clã. Participaram também os músicos Pedro Millecco (bateria), Beto Lemos (cellos e rabeca),  Flavia Chagas (cellos), além do rapper Jef Rodriguez, que surge em “Pre-Tu”.

O lançamento é uma aposta do novo selo Diáspora, projeto iniciado por Noguchi que pretende dar visibilidade para que artistas racializados se insiram de modo profissional no mercado musical, buscando descendentes das diásporas africana e asiática, bem como das internas brasileiras.

Faixa-a-faixa, por Bruno Albert

 

Razão: Razão foi o motivo de eu decidir começar este trabalho. Ela aconteceu na minha cabeça e eu fiquei cantarolando até gravar um vídeo e publicar no instagram o instante de seu nascimento. Surgiu em um momento de caos no qual eu não conseguia me comunicar com a vida e a via passar como a pessoa amada que você vê mas não consegue dizer nada para ela. Para me adaptar e superar tal momento tive que me entregar a algo que me movesse além da razão para que pudesse acontecer e cá estamos. É uma canção com clima dramático para você se imaginar dentro de um teatro com sons de tímpanos e naipe de cordas ao seu redor. A letra é uma conversa imaginária do eu-lírico com a vida sobre o paradoxo razão e o que a transcende. É uma canção bem abstrata feita para que o ouvinte se sinta dentro do dilema do eu-lírico e possa se libertar junto dele, gritar junto no ápice sendo uma catarse coletiva nos shows.

 

Pre-Tu: Também concebi esta canção de maneira bem arrebatadora, o chamado do início da música evoca várias questões, sobretudo a complexidade da presença, origens e transformações destas matrizes africanas em especial no Brasil. Eu também tenho estas questões pois me encontro em processo de desenvolvimento individual tanto quanto às origens quanto ao que me difere destas, este diálogo é o que vejo como interessante nisso tudo. Preto não é só a origem mas sim o que já nos tornamos hoje com nossas próprias identidades. Pre-tu é um blues/folk com um certo tom de “Django Livre” pós moderno, quem curte novo blues como Gary Clark Jr. e animações do Shinichiro Watanabe vai se identificar. Ao longo do processo convidei o Jef Rodriguez para fazer uma ponte com rap para passar esta ideia de várias épocas presentes ali… e foi tiro certo! Ele topou e mandou muito bem.

 

Feriado: Acredito que Feriado seja a canção mais leve do EP. É fácil e gostosa de ouvir, fala de uma relação à distância que o eu-lírico quer encurtar. Tem uma conversa com a mpb de Djavan, Gil e Caetano que torna tudo bem fácil de se reconhecer ali. Durante as gravações eu fiz muitos arranjos usando a voz para mostrar a melodia dos instrumentos e nesta canção acabamos aproveitando para a versão final e funcionou de maneira divertida.

 

Ideias Cadentes: Certamente a canção mais crua do EP, apenas violão e voz para tratar da solidão da noite e uma certa esperança melancólica de lidar com o que se passa entre o cair da escuridão e o amanhecer. Apesar de menos informação que as outras, “Ideias Cadentes” conta com um violão mais exposto e utilizado em conversa com a melodia vocal, em alguns momentos é a melodia principal, em outras é base harmônica e em um terceiro momento atua de maneira híbrida.

 

Ciclos e Rotas: “Ciclos e Rotas” foi feita quando me deparei com um destes episódios da vida que marcam pra sempre. Uma das pessoas que me criou e levava para escola passava por problemas de saúde e estava perdendo a memória após ter perdido os movimentos das pernas e o marido. Naquela noite ela acordou querendo ir para cozinha fazer meu almoço para eu ir para a escola e eu aprendi o quão importante o afeto e a memória são para a percepção da nossa existência. O que ela mais amava persistia vivo e a fazia querer ultrapassar o impossível, anacrônico. Após colocá-la na cama eu fui para a sala, escrevi esta canção e voltei para o quarto onde ela estava para tocar para ela. Após ouví-la ela finalmente dormiu como na canção. O ritmo de “Ciclos e Rotas” remete ao movimento de um trem, fazendo referência ao trem azul, de Ronaldo Bastos e Lô Borges. A ideia da canção gira em torno da seguinte frase: A gente é o que se lembra. “Ciclos” são as fases da vida e “Rotas” sobre o processo e as pessoas que são os elos entre os pontos.

 

Ficha técnica

 

Razão

Arranjo: Bruno Albert

Composição: Bruno Albert

Violões e Vozes: Bruno Albert

Bateria: Pedro Millecco

Baixo: Hugo Noguchi

Cellos e Rabeca: Beto Lemos

Engenharia de som, mixagem e masterização: Hugo Noguchi

Arte de capa (Single)

Fotografia: Pedro Gomes

Arte em Cerâmica: Gabriella Marinho

Tambor: Débora Linck

 

Pre-Tu

Arranjo: Bruno Albert

Composição: Bruno Albert

Violões e Vozes: Bruno Albert

Rima: Jef Rodriguez

Bateria: Pedro Millecco

Baixo: Hugo Noguchi

Engenharia de som, mixagem e masterização: Hugo Noguchi

Arte de Capa (Single)

Fotografia: Pedro Gomes

Produção de moda: Fabiana Pernambuco

Maquiagem: Silvia Medeiros

Modelo: Sabrina Henrique

 

Feriado

Arranjo: Bruno Albert

Composição: Bruno Albert

Violões e Vozes: Bruno Albert

Bateria: Pedro Millecco

Baixo: Hugo Noguchi

Engenharia de som, mixagem e masterização: Hugo Noguchi

 

Ideias Cadentes

Arranjo: Bruno Albert

Composição: Bruno Albert

Violões e Vozes: Bruno Albert

Engenharia de som, mixagem e masterização: Hugo Noguchi

 

Ciclos e Rotas

Arranjo: Bruno Albert

Composição: Bruno Albert

Violões e Vozes: Bruno Albert

Bateria: Pedro Millecco

Baixo: Hugo Noguchi

Cellos: Flavia Chagas

Engenharia de som, mixagem e masterização: Hugo Noguchi

 

Semióforo (EP)

Arte de Capa

Fotografia: Pedro Gomes

Arte em Cerâmica: Gabriella Marinho

Tambor: Débora Linck

Deixe sua opinião

Arthus Fochi recebe Ivo Vargas em “Canção do Sol”

O C.A.O.S. muito bem organizado de Guto Goffi