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Ira! revive seu álbum clássico no Rio

Fotos: Patrícia Moura

O ponto alto do Rock Brasil, ou BRock, foi sem dúvida o biênio 1985/86, quando saíram os discos mais importantes e emblemáticos que definiram aquela onda roqueira que varreu o país como “Selvagem?” dos Paralamas do Sucesso, “Cabeça Dinossauro” dos Titãs e “Legião Urbana 2”. Outro álbum completa 30 anos esse ano é “Vivendo e Não Aprendendo” do Ira!, que foi celebrado com show da banda no Circo Voador, no Rio de Janeiro no último sábado. Shows comemorativos de aniversário de disco consagrado não costumam ter muito erro, e com o Ira! não foi diferente, com uma apresentação fluida e pesada da receita que evoca o mod do The Who mesclando o punk dos primeiros dois discos do Clash, Gang of Four e The Jam a uma melodia quase seresteira.

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A banda paulista havia encerrado as atividades devido a uma séria briga entre o vocalista Nasi e os outros integrantes. Em 2014 o guitarrista Edgar Scandurra reatou com Nasi, mas os outros integrantes se recusaram a voltar. Atualmente, os shows têm tido o formato folk, mas no circo voador o que se viu mesmo foi o chumbo grosso de guitarra alta que os definiram. Tendo a dupla como remanescentes da formação original, o Ira! conta com os músicos de apoio Daniel Scandurra (filho de Edgar) no baixo, Johnny Boy nos teclados e, em algumas músicas, violão, e Evaristo de Pádua na bateria.

Wander Wildner
Wander Wildner

O show contou com a abertura luxuosa do gaúcho Wander Wildner, outro ícone do punk oitentista que desfiou hits e lado b de sua ex-banda Replicantes, como surfista calhorda e festa punk, e de sua carreira solo, com destaque para “Eu Tenho Uma Camisa Escrita Eu Te Amo” e “Eu Não Consigo Ser Alegre O Tempo Inteiro” e a célebre versão de ‘Lugar do caralho’, do Júpter Maçã. Wander veio acompanhado da banda Beach Combers e do guitarrista Jimmy Joe, em um azeitado combo para seu brega core, cantado a plenos pulmões por boa parte da já numerosa plateia na casa da Lapa carioca.

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O Ira! adentrou o palco com ‘Longe de Tudo’, do primeiro disco da banda, “Mudança de Comportamento”, de 1985, seguida de ‘Flerte Fatal’ e ‘Sem Saber Pra Onde Ir’. O primeiro grande sucesso a ser executado na noite foi ‘Tarde Vazia’, e o prato principal ainda estava por vir.

Após ‘Eu Quero Sempre Mais’, sucesso no Acústico de 2004 que tinha participação da cantora Pitty, ‘Advogado do Diabo’ e ‘Rubro Zorro’, veio o tão esperado set composto do clássico de 1986 na íntegra. A máxima de que clássico não envelhece pode perfeitamente se aplicar a “Vivendo”. As dez faixas foram acompanhadas com entusiasmo pela plateia que mesclava quarentões e jovens que sequer eram nascidos em 1986.

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Como era de se esperar, as que provocaram maior efusividade foram ‘Envelheço na Cidade’, ‘Dias de Luta‘, ‘Flores em Você’, e ’15 Anos (Vivendo e não Aprendendo)’. Encerrando o set, ‘Gritos da Multidão’ e ‘Pobre Paulista’, duas músicas do primeiro compacto, e que entraram no disco como extras ao vivo. Na volta para o bis, veio um dos pontos altos do show, o já esperado retorno de Wander Wildner ao palco para um dueto em ‘Bebendo Vinho’, música do gaúcho gravada em 1996 e regravada pelo Ira! em 1999 no álbum “Isso é Amor”.

A música demorou um pouco a começar a ser executada por que a guitarra de Jimmy Joe, que voltou ao palco junto com Wildner, precisava ser afinada. Enquanto isso, Scandurra dedilhava os acordes e a plateia entoava o refrão em coro “vou me entorpecer bebendo vinho/eu sigo só/o meu caminho”. A música ganhou uma versão mais punk do que a do cover que tanto tocou nas rádios e MTV.

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O encerramento se deu com ‘Núcleo Base’, com direito a foto da banda com a plateia ao fundo no final. Os fãs saíram de alma lavada e agradecendo o fato de a interrupção das atividades ter sido breve. Passados mais de trinta anos, a banda continua em plena forma. Edgar Scandurra é sem dúvida o melhor guitarrista da geração BRock, Nasi, mais magro após se submeter a uma cirurgia de redução de estômago, está cantando muito melhor do que no início dos anos 2000, quando a banda voltou aos holofotes e foi redescoberta, sobretudo pelos mais jovens. Os novos membros são músicos tecnicamente impecáveis e não decepcionam, apesar de a ausência da outra metade original ser sentida por alguns. E, pelo que se viu no palco, dessa vez parece que o fim do Ira! é uma hipótese muito remota.

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