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Morrissey abusa de seu caráter mítico e mantém a plateia nas mãos em show de poucos hits

Se há um nome no rock venerado incondicionalmente por um séquito fiel de seguidores como uma reencarnação divina é Morrissey. O ex-The Smiths construiu uma carreira solo logo após o fim da banda de Manchester e 27 anos depois a idolatria em torno de sua persona continua inabalada, como se pôde ver na noite do dia 22 de novembro no Metropolitan, no Rio de Janeiro. A casa localizada na Barra da Tijuca foi onde o cantor fez sua estreia na cidade, na primeira vinda ao país há 15 anos, e na época acabava de mudar de nome para ATL Hall. Hoje, após outros dois nomes (um de operadora de celular e outro de um banco), voltou ao de batismo.

O The Smiths nunca veio ao Brasil em sua breve existência de quatro anos, mas neste ano tivemos a metade mais criativa do grupo, já que além de Morrissey, também esteve por aqui (apenas em São paulo), no primeiro semestre, o guitarrista Johnny Marr. Todos sabem que uma reunião está completamente descartada, então essa foi a grande oportunidade de vê-los no país.

O show foi precedido da já tradicional seleção de vídeos, uma espécie de “Morrisseytube” em que é exibida uma série de clipes de artistas dos anos 60 e 70, geralmente com músicas não tão conhecidas ou já meio esquecidas. Teve de Ramones a Tina e Ike Turner, passando por New York Dolls. Às dez da noite, meia hora após o previsto, o inglês de 57 anos subiu ao palco em meio a gritos histéricos dos súditos e disparou já de cara seu maior hit da carreira solo, ‘Suedhead’, do álbum de estreia “Viva Hate”. Em seguida, um outro sucesso, esse um pouco mais modesto, ‘Alma Matters’, do álbum “Maladjusted” de 1997.

Com o sucesso da época de The Smiths ‘This Charming Man’ veio o momento de êxtase, que se repetiria no outro clássico oitentista ‘How Soon Is Now’ cantada pelos fãs a plenos pulmões. Entre as duas músicas, outras de trabalhos solo mais recentes também foram bem recebidas como ‘You Have Killed Me’ do álbum “Ringleaders Of The Tormentors” de 2006 e ‘World Peace Is None Of Your Business’ faixa título do último disco, lançado no ano passado.

morrissey Morrissey é indubitavelmente uma das maiores vozes do rock, se cerca de uma banda impecável e possui carisma e uma presença de palco inegáveis, que mantêm a plateia em transe a cada pose, careta ou seu habitual chacoalhar do fio do microfone. Porém é pouco afeito à linha greatest hits de shows. Poucas músicas de sua antiga banda constam no repertório (apenas quatro) e, mesmo de sua carreira solo, muitas favoritas dos fãs costumam ser preteridas em detrimento de composições mais recentes. Esta, inclusive, foi a primeira turnê sem uma música sequer de seu melhor disco, “Your Arsenal”, no repertório.

Daí, após ‘How Soon’ o set entrou em uma sequência de nove músicas recentes desconhecidas do grande público, das quais sete eram do último trabalho, entre elas, ‘Kiss Me A Lot’, ‘Istanbul’, ‘The Bullfighter Dies’ e ‘Earth Is The Loniest Planet’. Os fãs mais ardorosos continuaram acompanhando todas as letras entusiasmadamente, mas o público em geral, que esperava mais The Smiths ou mesmo outros hits da carreira solo, começaram a apresentar sinais de enfado. Até alguns fãs de longa data pareciam mais empolgados em estar diante do ídolo do que com o que estava sendo tocado.‘The world Is Full Of Crashing Bores’ até arrancou alguns risinhos com a imagem do casal real William e Kate estampada no telão e o sarcástico trocadilho “United King-Dumb” adornado com a Union Jack.

Quando o clima da plateia parecia prestes a se inclinar para o morno quase frio, Mozza recuperou o domínio da massa com um soco no estômago em ‘Meat Is Murder’, faixa título do álbum do The Smiths de 1985 que critica o consumo de carne (na tradução, “carne é assassinato”). O cantor é vegano e ativista ferrenho dos direitos dos animais. Durante a música, são projetados no telão vídeos fortes de animais sendo mortos para o consumo, que fizeram até o maior dos amantes de um bom churrasco parar para refletir.

Depois dessa “sessão mal-estar”, Morrissey passou a jogar para plateia e virou o placar com seu segundo maior hit ‘Everyday Is Like Sunday’, também do primeiro disco, com direito a distribuição de autógrafos. A energética ‘What She Said’ da fase Smiths fechou a etapa regular do concerto. Na volta para o bis, o sucesso do disco “Years Of Refusal” de 2009, ‘I’m Throwing My Arms Around Paris’, veio com a bandeira francesa projetada no telão em homenagem à cidade vítima de atentados terroristas no dia 13 de novembro.

Completaram o bis outro sucesso dos anos 00, ‘First Of The Gang To Die’, com uma levada um pouco diferente, puxada para o folk. Nesse momento um fã conseguiu subir no palco mas levou um mata-leão do segurança gigantesco (para cima e para os lados) do staff do artista.

morrissey4A noite foi encerrada com ‘The Queen Is Dead’, faixa título do clássico álbum do The Smiths de 1986, com uma imagem da rainha Elizabeth II levantando os dedos médios das mãos (montagem, claro), a segunda provocação à realeza britânica, que sempre foi alvo de crítica e deboche por parte de Morrissey.

No final, o cantor tirou a camisa, exibindo um físico “saradinho”, ao contrário da forma rechonchuda das duas visitas anteriores ao Brasil, e a arremessou para o público. Isso resultou em uma verdadeira batalha campal no gargarejo e as várias pessoas que agarraram o souvenir não a largaram e saíram da casa de espetáculos juntas. A curiosidade é como se deu a “divisão” depois.

Em dado momento durante o show, Morrissey disse “espero que eu esteja sendo ok” e a reposta foram gritos histéricos. Com certeza muito mais que ok, Morrissey.

Fotos: Patrícia Moura

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