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O Sorriso Perdido dos Beach Boys

Se o gorducho com voz de anjo te obrigasse a usar capacete de bombeiro para gravar uma música chamada “Fire”, você iria achar que o sujeito estava brincando. Ou enlouquecendo. Brian Wilson, o dono da voz de anjo e líder dos Beach Boys, estava enlouquecendo.

Boas Vibrações

Sua banda tinha acabado de lançar uma obra-prima chamada “Pet Sounds”. Logo depois lançaram o single “Good Vibrations”, gravado de modo incomum: pequenos trechos da música eram gravados separadamente e em várias versões. Depois, Brian escolhia os trechos que mais o agradavam e os unia, experimentando diversas combinações até chegar ao resultado que considerava ideal. Assim, conseguia que a canção tivesse muitas mudanças de andamento e diferentes instrumentos tocados em cada parte da música.

Brian queria que todas as faixas de “Smile”, o próximo álbum da banda, fossem gravadas a partir dessa técnica, mas sua pretensão ia mais longe: queria fazer um disco conceitual, uma viagem musical pela América, começando em Plymouth Rock e terminando no Havaí; uma obra monumental e inovadora, inspirada nas composições de George Gershwin e que deveria superar Revolver, o último álbum dos Beatles, tanto na opinião da crítica como do público. Segundo Brian Wilson, o novo álbum seria uma “sinfonia adolescente para Deus”.

 

Sorria

A criação de “Smile” começou a tomar corpo em abril de 1966, quando Brian Wilson se uniu ao letrista e compositor Van Dyke Parks, e compuseram algumas das principais canções do álbum, como “Heroes and Villians” e “Surf´s Up”.

Logo surgiram complicações. A sofisticação sonora pretendida por Brian estava muito além das possibilidades técnicas da época. As bandas de rock geralmente gravavam ao vivo no estúdio, em gravadores de apenas 4 canais. As canções dos Beach Boys contavam com orquestras e uma grande diversidade de instrumentos inusitados, que precisavam ser gravados separados, em gravadores com o maior número de canais possíveis. Para editar e juntar as partes gravadas separadas eram usados estilete e fita adesiva. Brian era um compositor e produtor perfeccionista e minucioso. Apenas para a gravação do single Good Vibrations, que dura pouco mais de três minutos e meio, foram gastos mais de 90 horas de fitas gravadas em estúdio, num período de seis meses. Foi a mais complexa e cara gravação de uma música pop até então. E a canção nem estava prevista para fazer parte de um álbum.

 

Heróis e Vilões

Pouco após o início das gravações de Smile, tanto a gravadora como alguns membros dos Beach Boys passaram a pressionar Brian Wilson para que abandonasse suas experiências e voltasse às composições mais comerciais e acessíveis.

Van Dyke Parks abandonou o projeto em Março de 1967. Comercialmente, o single “Heroes and Villians” foi um fracasso. Agora Brian Wilson tinha a impressão de que ninguém queria seu novo disco: público, banda ou gravadora. Apesar de seu estado mental fragilizado, continuou trabalhando com a certeza de que sua obra revolucionaria a música pop. Até que certo dia ouviu “Strawberry Fields Forever”, dos Beatles, no rádio de seu carro. Estacionou e disse para um amigo que estava no banco do passageiro: “Os Beatles chegaram lá primeiro”.  Em 6 de Maio a gravadora Capitol anunciou que o álbum “Smile” não seria mais lançado.

Por pressão da gravadora, os Beach Boys regravaram apressadamente parte do material criado por Brian e Van Dyke, e em Setembro de 1967 lançaram Smiley Smile. Novo fracasso comercial.

Fogo

A maior parte do material gravado para o álbum “Smile” já apareceu em discos piratas ou regravada em versões diferentes. Talvez por isso o lançamento de “The Smile Sessions”, há exatamente um ano, não tenha despertado a atenção que deveria.

Lançado em vários formatos (LP duplo, Cd duplo e caixa de CDs), “The Smile Sessions” reúne canções, fragmentos musicais e diálogos. É o mais próximo que se pode chegar de uma versão definitiva de “Smile”. A imensa ambição de Brian Wilson está lá. Dezenas de micro orquestrações cuidadosamente escolhidas e unidas para formar as peças de pop sinfônico mais complexas da época. As harmonias vocais vão de uma delicadeza emocionante ao humor mais cartunesco. As letras abstratas, compostas mais para criar uma certa sonoridade, e não para que fizessem sentido. Uma obra de arte imperfeita, incompleta e belíssima.

Entre várias canções geniais, alguns fragmentos de “Fire” sobreviveram: turbilhões sonoros como sirenes tocadas por uma orquestra com capacetes de bombeiros e regida por um lunático. Conta-se que logo após a última sessão de gravação de “Fire” foi registrado um número estranhamente alto de incêndios nas vizinhanças do estúdio. Talvez Brian não estivesse tão louco.

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Navegante

Publicado por Gustavo Guimaraes

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