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Ozzy Osbourne joga para a torcida no encerramento da turnê brasileira

Uma vinda de Ozzy Osbourne ao Brasil costuma sempre evocar celebração. Apesar de não ser exatamente uma figura difícil (foram sete vindas, sendo duas com o Black Sabbath), é o pai do heavy metal, gênero que tem popularidade garantida por aqui. Mas era uma ocasião bastante especial. Essa é (em tese) a turnê de despedida. Além disso, ainda conta com a presença do guitarrista Zakk Wylde. Ele é considerado o melhor que já tocou com Ozzy, junto com o falecido Randy Rhoads. Os dois fatores provocaram uma corrida de última hora atrás dos ingressos no Rio de Janeiro. O que se viu ontem (20/05) foi uma Jeunesse Arena bastante cheia, contrariando o pessimismo com o ritmo lento do início das vendas.

Turnê de despedida não pode trazer nada diferente de um apetitoso greatest hits. E assim foi a noite. Portanto, nada de faixas de “Down to Earth” (2001), “Black Rain” (2007) ou “Scream” (2010). O repertório se concentrou na fase áurea do príncipe das trevas, que vai de “Blizzard of Ozz” (1980) a “No More Tears” (1991). Desses dois discos, inclusive, saiu mais da metade das músicas que compõem o setlist: oito (quatro de cada) de quinze.
Os fãs de primeira hora sabem, o mordedor de morcegos honra a fama dos britânicos no quesito pontualidade.

O show estava marcado para as 20h30. Às 20h28 apagaram-se as luzes e o telão começou a mostrar imagens de arquivo. Eram registros que iam da infância, passando pelo BS até o auge da carreira solo. O palco consistia em um telão dividido em dois por uma cruz onde eram projetados grafismos. A bateria ficava em uma plataforma alta (como deve ser) e nas laterais, torres de amplificadores. Logo chegou o dono da festa, abrindo passagem com ‘Bark at the Moon’ faixa do clássico disco homônimo de 1983. Em seguida veio ‘Mr. Crowley’, que traz aquela introdução funesta de arrepiar. Nessa música, Wylde já empunhava sua icônica Bulls Eye em formato de V.

Foto: Carlos Brito (via G1)

Após ‘I Don’t Know’, também de “Blizzard”, foi a hora de relembrar o Sabbath com ‘Fairies Wear Boots’. Emular a clássica banda é tarefa fácil para os rapazes. baterista Tommy Clufetos e o tecladista Adam Wakeman foram músicos de apoio da turnê The End. Já o guitarrista é fã confesso (tem até uma banda cover, o Zakk Sabbath, com a qual esteve no Brasil em 2017). Nessa música Wakeman também assume uma guitarra de base, para dar aquela encorpada no som.

De volta à carreira solo – e ao disco “Blizzard of Ozz” – chega a pesadona ‘Suicide Solution’, executada ainda com mais peso que a versão original. Na sequência, uma dobradinha de faixas de “No More Tears”, o maior êxito comercial da colaboração Ozzy/Wylde. A faixa título, como já se esperava, foi acompanhada com empolgação pelo público que berrava o refrão (que se restringe ao próprio nome da música) a plenos pulmões. Ali Ozzy mostra que está em boa forma vocal, é uma música de notas relativamente altas, que não se esperaria que ele ainda alcançasse. A power ballad ‘Road to Nowhere’ também teve recepção calorosa.

‘War Pigs’, standard do Sabbath, foi um dos pontos altos. O solo final foi a deixa para Wylde brilhar sozinho. O guitarrista desceu o pit, tocou com com a guitarra nas costas, depois com os dentes. Ele emendou um medley instrumental apresentando trechos de ‘Miracle Man’, ‘Crazy Babies’, ‘Desire’ e ‘Perry Mason’. Clufetos também teve seu momento de holofotes e executou um energético solo de bateria. Foram dez minutos de show dos músicos enquanto o Madman tira um descanso providencial. Afinal, trata-se de um senhor chegando aos setenta anos.

O guitarrista Zakk Wylde – Foto: Ross Halfin/Divulgação (via O Globo)

De volta ao palco, o pai do heavy metal trouxe ‘Shot in the Dark‘, única do disco “The Ultimate Sin”, de 1986, seguida de ‘I Don’t Wanna Change the World’. Daí, o momento mais esperado da noite: o clássico absoluto do príncipe das trevas, ‘Crazy Train’. Seguindo o protocolo, Ozzy entrega o refrão para a plateia e entoa “everyboooodieee” (que muitos fãs já até incorporaram à música). E inevitáveis rodinhas de pogo (aquele empurra empurra em parte sério em parte de brincadeira que os garotos promovem no meio da plateia em shows de metal) se abriram.

O curioso foi que não houve retirada de cena para o bis. Ozzy se despediu mas permaneceu no palco incitando a plateia a gritar “one more song” (mais uma música). Pedido atendido e a banda volta com mais uma power ballad do álbum “No More Tears”, ‘Mama I’m Coming Home’. Acompanhada em coro pelo público, ainda contou com um show de lasers que formaram um efeito de céu estrelado no teto da arena. Para encerrar a noite e lavar a alma dos fãs, ‘Paranoid’, o petardo do Black Sabbath que também encerrava as apresentações dos recente shows do grupo.

E assim Ozzy se despediu da mesma forma que se despediu do BS em 2016: jogando para a torcida. E com todos aqueles maneirismos já famosos: as caras de louco com os braços erguidos, a corridinha de velhinho e o balde de água na plateia. Se essa é de fato a última turnê não se sabe. Uma coisa é fato: o marido de Sharon Osbourne parece estar longe de abandonar os palcos. Ter largado de vez as drogas e o álcool – que complicavam seu tratamento de esclerose múltipla diagnosticada há mais de 20 anos – melhoraram muito sua performance. Está mais disposto e cantando melhor do que da última vez em que veio em carreira solo, há sete anos. E com o suporte de Wylde, Clufetos, Wakeman e o baixista Blasko era mesmo garantia de um encerramento de carreira em grande estilo. A No More Tours 2 vai até 2020. Quem sabe ele não volta no Rock In Rio em setembro de 2019? Não custa torcer.

Foto de capa: Carlos Brito (via G1)

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