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Resenha: Thales Silva – Minimalista

“Enquanto vários cantores (‘reis’ ou não) persistem em lançar e relançar eternamente ‘perfis’ musicais com o repetitivo ‘top top’ das suas eternas canções, uma nova safra de cantores (polivalentes em sua maioria) surge na contracorrente do comodismo e da estagnação criativa, protagonizando um momento vanguardista e essencialmente autoral da música popular brasileira.”
O novo e o clássico são melodias inerentes de uma mesmo identidade sonora. Mas, a máxima dos vinhos não se aplica a música, e em qualquer viés artístico a renovação se faz necessária. Em meio às possibilidades da internet, o poder de longo alcance das redes sociais, e o acesso gratuito aos mais variados sons, ritmos e estilos, a cada dia somos contemplados com artistas de talento, de personalidade.
Thales Ferreira da Silva – guardem bem esse nome.
O mineiro é um dos músicos que representa esse furacão contemporâneo de sensibilidade, sonoridade e letras.
Destaco 03 canções de ‘Minimalista’, seu primeiro álbum solo, que marcam pela profundidade das estrofes, pela sonoridade aguçada e pelas referências psicossociais que nos fazem refletir.
FAIXA 01 ‘SAUDADE’

Por que botô o som na agulha?
Fez nego tudo, requebrar
Tudo que é nego, quebra tudo

Raro, raríssimo! ‘Botá’ a bolacha na vitrola, sentir aquele ‘gingi’ após o arranhamento inicial e ouvir… Nos dias de hoje, a praticidade assassina o ritual, e um único clique abrevia o coito ritmado.
A saudade adentra meus tímpanos, toma meus músculos. Balanço por dentro e por fora. De dentro pra fora. Sinto-me verdadeiramente nego – Cuidado! Em tempos de discussões raciais à flor da pele um termo pode nos comprometer – como de fato sou. Pena que essa negritude não se estende ao requebrado nagô, que assumo não ter. Mas não tê-lo não me impede de requebrar, quebrar, e sair por aí QUE-BRAN-DO conforme a música.

é o funky music, white boys
Com o black bloc ninguém pode
é maior gueto do Brasil
O quarteirão não é um bloco, nigga é
nego no Brasil

Tolos e ignóbeis aqueles que insistem em negar a miscigenação Na etnia, na música, nos guetos e nos asfaltos. A atemporalidade da música se reflete nos fatos da letra. Os blacks blocs, lembram-se deles? Há meses atrás, na erupção vulcânica da neo revolução, eles estavam lá, nas ruas, puxando o bloco na linha de frente, sendo procurados nas manchetes jornalísticas.

Charme ou lundu, fez balançar
Aparelhagem, umbigada quente
O quarteirão, o soul, sambar!

A música se reinventa a cada geração. Da tropicália à ‘Nova MPB’ – que amanhã engolida por outro fogo vanguardista será lembrança. Embarco na nostalgia (ela é essencial pra vida), mas me jogo em queda livre no presente (é a vida), que às vezes pode ser de grego. Só escuto, não me atrevo a umbigar, mesmo com ele quente, latejando, doido para sambar soul – não só – nas rodas…

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FAIXA 09 ‘MENINO PRETO’

Mataram outro menino preto
Mataram outro menino preto
Quando apontava pra vida, o redentor lhe faltava
Ó mãe gentil e omissa, Têmis de balança quebrada

As manchetes parecem repetidas. Notícias requentadas do jornal de ontem. Ledo engano. Não são! É o café amargo do nosso coffebreak. Notícias corriqueiras de uma pátria amada. A comunidade muda, a farda muda, mas os meninos continuam sendo pretos. Triste coincidência, não é? Até o redentor, parece incrédulo diante à barbárie. A mãe – aquela do hino, do patriotismo, da placenta identitária – é gentil e omissa. Finge não ler jornais, não ouvir os prantos, não testemunhar as estatísticas (ora são números, meros números). Nos picos do Olimpo, Têmis segura sua balança injusta, que insiste em envergar para o lado mais fraco.

Dívida histórica, mais valia, em troca samba, crime e alegria

Ela com Eles é histórica e inquestionável. Não sei se um dia conseguiremos pagá-la por completo, com os devidos juros e correções monetárias. Mas, de alguma forma é necessário quitá-la, e o ponto de partida para nossa redenção, mesmo que tardia, é sambar com alegria e com o respeito que eles merecem.

A farda mata a gente, mata a gente de vergonha

A farda usada como escudo vira arma letal. Mata quem devia proteger e se corrompe aos pés de quem devia combater. O homicídio é doloso, há a intenção de matar é camuflada pelo ‘escudo’. Já não fossem bastante os sonhos, o futuro e os próprios filhos, ainda tem a vergonha. Vergonha do fardo, vergonha da farda!

Jogaram tinta na vida, é preta a morte matada
Não era um Gil ou um Milt on, mas uma farda lava a outra

Um quadro expressionista em preto e branco e vermelho. Mais o preto é a cor que prevalece em meio ao rio que corre. Não era Gil, não era Milton, eram meninos (pretos), que seriam jovens (pretos) e que poderiam ser os ‘NOVOS PRETOS’.

Vergonha na cara! Vergonha!

Da farda para a cara!

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FAIXA 11 ‘SÍNDROME DE ESTOCOLMO’

O sorriso de quem, sabe o viço que tem
Sou seu refém, sou seu refém
Sou seu!

Aquela indecisão maliciosa. O visgo prende, a gente se rende, tentamos não nos render… E nos vemos ali! Queremos afundar – e lambuzar – cada vez mais fundo na areia gulosa.

Me ame, me engane, me olhe, me
aprove, me prove e me faça besteiras
Oh mulher!
Me ame, me engane, me faça mulher
de malandro, me faça as suas besteiras
Oh mulher!

Sequência do prazer! Como é bom ser carnívoro. Carne, carnes, muitas carnes! Verborragia do despudor. Antropofagia do consumo. Consumir, ser consumido, fazer e ser. Mulher de malandro, nas profundezas do eu lírico feminino, todas querem – ou são – na cama, no mínimo, na cama, é o máximo!

Sem saber dos seus planos eu estou,
como está, como Estocolmo

Jogo vernáculo que diagnostica o quebra cabeça da nossa língua (línguas!). Ser, o como se está, a síndrome de ‘se dar’ com a alma viçosa e imoral do crime, com ares europeus de requinte e fetiche.

Estou, se sou o seu refém e eu me dou!
Eu vi você…com meu olhar de menino
Eu vi você…seu coração de bandido, de
quem da vida aprendeu, a se proteger
com a arte e altivez de ser uma mulher,
de Honoré

Contradições do homem. Olhar de menino, coração bandido. A criança e o algoz na mesma matéria. Matéria que me têm que me toma, que me faz refém dos olhos e das pulsações.

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Neste link você pode baixar o disco Minimalista de Thales Silva.

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