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Rush delira 38 mil ouvintes em sua jornada pelo tempo no Morumbi

Vamos tocar por algumas horas aqui e espero que vocês não se importemGeddy Lee, São Paulo, 2010

Um show do Rush é, em todos os sentidos literais da palavra, um evento. Rush tem, hoje, 40 anos de carreira e consegue representar o hard rock progressivo como quase ninguém consegue. Aliás, uma particularidade deste trio canadense é que, sim, eles são uma banda nerd que tocam para nerds. Para roqueiros e fãs de boa música, claro, mas esses três senhores são nerds veteranos e não negam isso em suas músicas trabalhadas e virtuosas, bem como em seu palco mais que fantástico. Com uma turnê de nome Time Machine o trio canadense trouxe 3 horas de show ao Brasil depois de 8 anos de sua primeira passagem em nossas terras, que gerou o DVD Rush in Rio, gravado numa apresentação lotadíssima no Maracanã. Passada a novidade, era esperado que a banda tivesse um público um tanto menor nestes shows, mas São Paulo decepcionou um pouco neste sentido. Tendo capacidade para 60 mil pessoas o Morumbi teve apenas pouco mais da metade de sua lotação. Por outro lado, a ausência do público foi compreensível:

  • O festival SWU atraiu muita gente por preços semelhantes e várias bandas em 3 dias ;
  • Feriado prolongado faz muita gente ir embora da capital, mesmo com bandas legais tocando por lá;
  • Foi-se a época da novidade, afinal, a banda da “música do MacGyver” já veio uma vez para cá.

De qualquer forma a intensidade do público foi muito forte e o baixista/tecladista/vocalista Geddy Lee percebeu isso, lançando sorrisos e agradecimentos em português o tempo todo para os presentes. A empolgação era tamanha que todas as músicas instrumentais ganharam acompanhamento em coro dos fãs, deixando o trio enlouquecido no palco. Mas vamos por partes, afinal, é assim o show deles e é assim que falaremos dele.

PONTUALIDADE E ABERTURA INIGUALÁVEL

A apresentação estava marcada para as 21:30 e não deu outra: às 21:28 a ansiedade dos fãs havia tornado-se palpável e quando as luzes se apagaram e deram lugar aos telões e ao divertidíssimo vídeo de introdução, a gritaria era tamanha que muitos sofreram para ouvir o que saía das caixas sonoras do estádio. Foi realmente impressionante. O frio e o perigo de chuva não importavam mais, mas sim ver o Rush brincar com seus fãs nos telões. Tirando sarro de sua própria trajetória, Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart estrelam um curta de 10 minutos do Rash, uma paródia da banda que os mostra há anos atrás tentando fazer alguma música e os três integrantes no presente sendo produtores daquela coisa horrorosa toda.

A música parodiada é a fantástica Spirit of Radio, música escolhida para começar o show e que arrancou lágrimas de alguns presentes. Momento único e que estabeleceu para sempre o quanto eles são mitológicos dentro do rock. Deste momento em diante, o que os fãs tiveram foi um desfile de clássicos e novidades, até sofrendo um pouco sem saber se observavam atentamente a versatilidade de cada músico em seu instrumento ou se divertiam-se com os vídeos malucos e pastelões nos telões.

UM SHOW PARA NERDS E CHEIO DE EFEITOS

É inevitável: Rush é nerd. Cada efeito do palco era um detalhe cuja representação poderia ser discutida por horas e horas. Dentre estes elementos estava uma armação de holofotes e luzes em forma de aranha que ficava sobre as cabeças do trio e se movimentava de formas quase impossíveis em cada música, em especial durante a execução do álbum Moving Pictures em sua totalidade na segunda parte do show. Este sistema de luzes é inovador e os técnicos do grupo já parecem ter muito controle da coisa toda. Mais legal do que isso: logo ao centro dele havia uma lâmpada muito semelhante ao capacitor de fluxo do filme De Volta para o Futuro. Por que não, afinal, estamos falando de uma turnê que se chama Time Machine. E as referências não param por aí.

Todo o palco era conceitual, com máquinas e elementos steampunk. Inclusive a própria bateria gigante de Neil Peart, sendo que em vários momentos as tais máquinas soltavam muito vapor como grandes caldeiras além de fogo por toda a extensão do palco. Mais que isso: em muitas músicas, um contador do tempo mostrava o ano de lançamento daquela canção como se todos estivessem sendo levados para aquela época específica. Ainda nos telões, em muitos momentos as filmagens eram divididas em telinhas para os três que possuíam um formato de TVs antigas, até com efeitos para fazer com que as imagens mostradas ficassem “envelhecidas”. Coisa muito fina.

O SET LIST

De fato, a presença de Moving Pictures foi um tapa sonoro nos presentes. Ninguém imaginava que The Camera Eye seria tocada novamente depois de tantos anos, em especial porque o próprio Geddy Lee já havia dito em várias entrevistas que não suportava mais esta canção. Em entrevista ao UOL, já aqui em São Paulo, ele admitiu isso e percebeu que, mesmo 30 anos depois, Camera Eye ainda tem muita força e os fãs a recebem de braços abertos. Vieram também novas canções do vindouro Clockwork Angels, chamadas Brought Up to Believe e Caravan, que trazem o clima pesado, cru e muito virtuoso que virou marca deles com Test for Echo de 1996 e estabeleceu-se por completo com Vapor Trails de 2002, na volta da banda à ativa após os eventos trágicos da vida do baterista Neil Peart.

Time Stand Still foi uma das músicas cantadas com maior intensidade pelos fãs, pois além de ser um grande clássico ela também representa o momento destes músicos e de muitos dos que os acompanham há anos. Vale muito a pena ouvir esta canção observando cada verso de sua letra, em especial para aqueles que estão chegando (ou passaram) da faixa dos 30 anos. Ela é muito representativa e mágica. E falando em magia, Presto conseguiu uma coisa não imaginada: tornou-se maravilhosa ao vivo, ao contrário da fraca versão de estúdio.

Neil Peart fez seu clássico solo de bateria, que mais uma vez deixou todo mundo em silêncio observando sua capacidade criativa e virtuosa. Para alguns, o solo não foi tão intenso quanto o das turnês anteriores, mas foi mais uma vez marcante, sem dúvida.

O álbum mais recente, Snakes & Arrows (2007) foi bem representado com três de suas melhores canções, mas foi curioso perceber que músicas menos famosas ou icônicas tiveram reações absurdas da plateia, tais como Marathon (a qual este redator berrou a letra do começo ao fim) e a própria Fathless (de S&A) e Working Man, responsável por um término apoteótico da apresentação. Faltaram músicas? Apenas se eles tocassem por um dia inteiro, mas vendo as idades destes senhores e como eles se divertem no palco, foi mais do que pobres mortais como nós merecíamos.

  • Primeiro set:
  • The Spirit Of Radio
  • Time Stand Still
  • Presto
  • Stick it Out
  • Workin’ Them Angels
  • Leave That Thing Alone
  • Faithless
  • BU2B (Brought Up to Believe)
  • Free Will
  • Marathon
  • Subdivisions
  • Segundo set:
  • Tom Sawyer
  • Red Barchetta
  • YYZ
  • Limelight
  • The Camera Eye
  • Witch Hunt
  • Vital Signs
  • Caravan
  • Malignant Narcissism/Solo de Bateria
  • Closer to the Heart
  • 2112 Overture
  • Far Cry
  • Bis
  • La Villa Strangiato
  • Working Man

Como se todas estas horas maravilhosas de músicas não bastassem, a banda despede-se com mutia alegria e ainda brinca com o filme Eu te amo, cara, dos quais eles mesmos participam mostrando um vídeo em que os dois atores principais invadem o camarim após a apresentação. O típico humor do Rush. E que não demorem mais 8 anos para trazê-lo de volta.

5 opinaram!

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  1. Em uma sentença? FOI DO CARALHO! Eu estava lá e vi aquele solo de bateria virtuoso, vi o Lifeson tocar craviola e bandolim, vi um Geddy Lee que no começo estava receoso soltar a voz e NÃO VI NINGUÉM DESAFINAR!

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