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‘Sol no Escuro’ e as novas luzes da MPB

“Góes. Esse sobrenome tem alguma sensibilidade criativa embutida no seu DNA que faz com que todos os artistas que o carregam no RG – nesse caso mais especificamente os cantores – vulgo o baiano Alex Góes (que comentarei a respeito em um próximo texto) e o paulista Fábio Góes, de quem irei tecer meus griphos musicais hoje.”

O ‘SOL’ do Fábio Góes apareceu no meu porto, como num efeito cascata, por meio da série ‘Alice’ produzida e exibida pelo canal de TV a cabo HBO. A faixa ‘Sem Mentira’ fazia parte da trilha sonora da série, embalando vários momentos importantes na trajetória da personagem título.
Com ‘Sem Mentira’ arranhando na minha playlist, fui estimulado a adentrar o trabalho musical do cantor – que até então eu desconhecia – e desvendar mais a fundo seu trabalho musical tão minimalista e autoral.
Fiz o download do seu primeiro álbum ‘Sol no Escuro’. Disco que foi incluído – merecidamente – na lista da Rolling Stone Brasil como um dos 25 melhores álbuns nacionais daquele ano (2007).
Das 11 músicas que compõem o álbum, destaco quatro, que são as que mais mechem comigo desde o primeiro play, a primeira viagem, ao primeiro raio de sol que rasgou minhas retinas e extasiou meus ouvidos:
‘Sem Mentira’ – O arranjo, a melodia e toda a orquestra instrumental que está em total sintonia com a letra propriamente dita (e escrita), me faz viajar, flutuar… O andar da vida, o que nós realmente somos, sem maniqueísmos. Afinal somos um nada que tem o privilegio de ser tudo. De ruim, de podre, de bom, de real, de verdadeiro.
‘Sol no Escuro’ –Faixa número 01 e que dá nome ao álbum. Junto com ‘Sem Mentira’ as duas imprimem o tom intimista e genuinamente autoral que caracteriza o trabalho musical do seu criador/produtor/interprete.
A letra da música é um verdadeiro poema que decifra a ânsia desmedida do excesso, do superlativo, da ambição. “… Mesmo de barriga cheia, eu quero tanto, eu quero sempre mais…”; “…Vivi minha vida inteira… Mas não me canso de querer sempre mais…”
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O título me deixou uma intrigante pergunta: O ‘sol’ seriamos nós e o ‘escuro’ refere-se à vida? Ou o ‘sol’ é a vida e nós é que somos a escuridão que nela permeia? 
‘Sereno’ – É a continuidade da imersão introspectiva e reflexiva que aflora no álbum. A primeira frase da letra “Chorai, a noite abrirá. Um escuro imenso pro sol entrar…” remonta a ambiguidade da música título, e faz do sol e do escuro serem astros de um mesmo céu. A poesia ilumina as duas estrofes – da breve, porém longínqua canção – e se encerra no choro da noite dentro do escuro presente em cada um de nós.
‘Salmão’ –A última faixa do álbum faz uma analogia entre a crueza da carne humana e a cultura oriental de comer carne (de peixe) crua.
Em um tom antropofágico infantil regido pelo estralar dos dedos, e um arranjo que nos faz voltar no tempo de criança, onde dançávamos música de roda, pulávamos amarelinha e fingíamos comer terra, Fábio Góes consegue brincar com dois hábitos vitais da nossa existência, comer e COMER. Ontem carne de bicho, amanhã carne de gente. Não necessariamente nessa ordem, e não necessariamente no sentido absoluto dos respectivos açougues.

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