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Logicomix – A matemática em quadrinhos

As funções estavam bebendo no bar tranquilamente quando, de repente, apareceu uma derivada na porta. Então as funções começaram a gritar como loucas e correr para todos os lados, tentando se esconder. Depois de alguns minutos de confusão, a derivada observa uma função bebendo num canto, sozinha, tranquila. Ela se aproxima e diz: “Não tem medo de mim não?”. “Claro que não, responde a função”. A derivada replica: “Como assim?”, ao que a função diz: “Porque eu sou e^x”. “Mas, diz a derivada, quem disse que estou derivando em relação a x?”.

Posso me incluir entre boa parte do mundo que não entende essa piada. Mas sempre acho graça em ouvi-la, justamente pelo vocabulário científico extremamente abstrato para mim. Convivendo com pessoas desse mundo “exato”, boiando enquanto eles riem das nuances do Big Bang Theory, entendo muito bem o entusiasmo deles pela lógica e pela matemática – sou uma nerd de outro campo, mas ainda nerd.

Há bem pouco tempo, um artigo do João Moreira Salles obteve (felizmente) sucesso instantâneo na rede. Ele demonstrava em seu discurso como as ciências são desvalorizadas no Brasil. Porém, mesmo desprezados pela comunicação, temos uma excelente escola de matemáticos, lógicos. Nossas escolas doutorais atraem estudantes estrangeiros (embora, estatisticamente, boa parte desses acabe por se casar no Brasil, não há pesquisas que demonstrem que a motivação inicial deles sejam as nossas mulheres).

Aí veio esse livrão, o Logicomix: “uma jornada épica em busca da verdade” . Dessa vez, é um Apostolos que convida um Christos a dialogar sobre a verdade. O livro acaba de ser publicado no Brasil pela Martins Fontes, uma tradução de Alexandre Boide dos Santos. A obra foi escrita por Apostolos Doxiadis e Christos Papadimitriou com arte de Alexos Papadatos e cores de Annie di Donna, aliás personagens desse livro que conta também a história da sua própria construção. O estúdio dos autores, o trabalho de toda a equipe, as mesas de desenho, livros e escaletas são o cenário recorrente da história. Há, todo momento, brincadeiras explícitas com seu próprio trabalho, a autorreferência (ou mise em abyme, como eu preferiria na minha nerdice literária).

A busca pela verdade, aqui, começa na Grécia, logo o berço da filosofia. Ali estão os autores engajados na luta para nos encenar a história dos fundamentos da filosofia da matemática tal como ela é concebida hoje. Sim, filosofia da matemática, não se trata do lugar comum de um pensador pensando sobre como se pensa ou sobre a natureza (fiz uma piada com Leibniz e com os pré-socráticos, minha gente), mas de refletir analiticamente, bem metodicamente, a ponto de criar uma linguagem que poderia decodificar o universo.

Logicomix, com um enredo que, dito assim, poderia provocar bocejos nos leigos, tornou-se um Best-seller instantâneo. Não apenas os experts foram procurar conhecer a história de Bertrand Russell (apesar de se classificarem como “graphic novel” ou de um épico, trata-se da biografia do Russell, romanceada em quadrinhos – uma combinação estudada minuciosamente para vender mais). O sucesso foi, aliás, tão rápido que grandes pesquisadores escreveram sobre o assunto, como o importante filósofo da matemática Paolo Mancosu, que publicou uma resenha bem analítica de quatorze páginas sobre o livro. Há muitos artigos acadêmicos sobre o assunto, assim como muitas resenhas de leitores comuns como eu.

Dividida canonicamente, como foi apontado pela Du9, em 1/3 de fato para 2/3 de ficção (que eles não escondem e, ora bolas, trata-se de uma obra literária, afinal), em um desenho bem american way of comic, não é, lá, assim, uma obra-prima dos quadrinhos. O crítico da Du9, revista francesa sobre quadrinhos autorais, foi bem feroz (e concordo com ele do ponto de vista estético), de que esse livro banaliza a idéia de graphic novel e que se  utiliza da velha ideia de arte funcional, com preocupação didática (o autor lembra que L’Association, do nosso Menu, já havia falado de lógica e guerra há muitos anos atrás, sendo que trabalharam bem o traço e o texto, sem precisar recorrer ao didatismo).

Não há, portanto, uma inovação artística, é de fato uma aula mastigada e com algumas falhas, logicamente falando. Seus autores têm, no entanto, o mérito de manter a história interessante até o final. É o livro que o pai deve dar a seu filho para fazê-lo se interessar pela matemática. É o livro que o professor deve ler com seus alunos e pedir para que eles pesquisem sobre esses autores (doce sonho: ainda não é com essa paixão que nossas escolas ensinam ciências. Não aprendemos vírgula da história da matemática nem no ensino médio – digam-me por favor que isso mudou desde que me formei e lá se vai uns… muitos anos). Esse livro pode ser um alento aos pesquisadores, por dar visibilidade à história de suas buscas, e fazer interessar essa garotada pelas ciências.

É que esse livro mostra a paixão deles, a busca incessante da verdade que produziu resultados dos mais diversos, que leva até a invenção da nossa queridíssima internet, passando pela reflexão sobre a história, sobre a guerra, do ponto de vista racional e, muitas vezes, margeando as questões sobre a loucura. Ele mostra como foi importante a troca entre tantos especialistas, como a história da exatidão conheceu tantas reviravoltas, tantas discussões para provar coisas que poderiam parecer banais quanto 1+1=2. Enfim nos apresentam como Russell e tantos outros tentaram entender seu tempo usando a razão. A “pesquisa” VS. “o mundo lá fora” é outro assunto que permeia Logicomix, que é, na verdade, na verdade, um convite a esse “lá fora” a entrar em contato com o mundo da pesquisa científica.

Alguns links:

Bem, falando em quadrinhos, prefiro os desenhos simples e a linguagem um tanto hermética do Abstruse Goose. Como eles mostram o “Teorema da incompletude”, por exemplo: http://abstrusegoose.com/244 (se os axiomas são verdadeiros, tudo o que vem deles é verdadeiro).

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  1. Boa resenha, só faltou o link para a página do livro no site da Martins Fontes (eu cheguei a pensar que não tivesse sido publicado em português).

  2. Vi faz pouco nas livrarias e me interessei, mas nem tive tempo de folhear. Não sou lá muito entendido de matemática, mas também não sou daqueles que acham que esses livros "Mundo de Sofia" não tem seu valor. A conferir.

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