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NonNonBa, um conto sobre infância e amadurecimento usando o folclore japonês

Estamos vivendo um bom momento. Editoras estão cada vez mais lançando material exclusivo que não tinha sido publicado, além de reedições que revigoram ainda mais a nona arte. Entre as diversas novidades que temos em mangás. É inevitável que as editoras devem aos seus leitores publicações como as de Shigeru Mizuki, um dos nomes mais importantes na história do mangá. Felizmente a Devir demonstrou sua disposição em pagar essa dívida com o público leitor, com o lançamento do NonNonBa, um título que ganhou o prêmio de Melhor Álbum na Feira Internacional de Quadrinhos de Angoulême 2007.
O título faz parte do selo Tsuru, uma coleção que reúne autores japoneses clássicos e contemporâneos inovadores, reconhecidos pela sua contribuição para a arte da narrativa gráfica e também, para a cultura japonesa.
NonNonBa, publicado originalmente no Japão em 1977, é a obra-prima do mangaká. Parte biográfico, parte fantástico, um trabalho tocante sobre a infância e o amadurecimento, inspirado em grande parte no próprio Mizuki quando criança e sua avó, uma fonte inesgotável de conhecimento sobre os youkais (espíritos-monstros do folclore japonês).
A narrativa se concentram nesse caráter autobiográfico, levando de volta aos anos 1930, numa cidade costeira, Sakaiminato. Lá, Shige Muraki, um menino travesso e preguiçoso, começou a se interessar fervorosamente pelo mundo sobrenatural por causa da influência de uma idosa, NonNonBa, que conta para ele vários tipos de histórias relacionadas com o yôkai. Ao mesmo tempo, o garoto enfrenta as tarefas de sua idade: sua falta de interesse em estudos, os jogos de guerra com seus amigos, um estranho problema familiar, os primeiros interesses amorosos, etc. Mas, acima de tudo, seu fascínio pelo mundo do oculto prevalece, pois as criaturas emergem da tradição popular para dentro dos limites dos quadrinhos que moldam suas histórias.

Como Yoshihiro Tatsumi, Mizuki pertence a uma geração de mangakás que desenvolveram suas propostas estimulado pelas Kamishibai – “teatros de papel” – e pelos Kashibon – “bibliotecas para alugar”, que contribuíram ativamente para formar a cultura de uma sociedade em plena reconstrução, após o absurdo da Segunda Guerra Mundial. Foi no calor daquela guerra que o autor perdeu o braço esquerdo, o dominante, mas longe de desistir, aprendeu a desenhar com a mão direita, aperfeiçoando a sua técnica e estilo para se tornar um desenhista que se destacaria entre seus contemporâneos. E é notório nas histórias contadas em NonNonBa, o profundo respeito e interesse na cultura japonsesa, em especial aos youkai. Mizuki mergulhou tanto na terra do folclore que ganhou o status de uma lenda em seu país, tanto que em Sakaiminato há um museu dedicado a ele.
Mas o que torna NonNonBa uma proposta que se destaca entre as inúmeras obras autobiográficas disponíveis para os leitores? A mistura bizarra entre realidade e fantasia com o contraste entre o estilo realista do cenário(do fundo) e o aspecto caricatural dos personagens, com um roteiro original, divertido e pitoresco, além dos youkais, é claro, uma resposta para a pergunta.
Também destacamos a oportunidade de conhecer o Japão rural dos anos 1930, ou melhor, uma aldeia remota da capital, em que a inocência crua e despreocupação das crianças se contrasta com certos comportamentos dos adultos. Ou ainda a ênfase de fazer uma autobiografia que se afasta do tom sério e melancólico, tão comum nesse gênero. É este retrato de uma infância aparentemente calma, apesar de alguns eventos traumáticos ou desagradáveis, é lembrado pelo autor de uma forma tão perceptível especialmente em passagens apresentando seu pai, cujo apoio foi decisivo na época em que suas aspirações artísticas se concretizaram.

NonNonBa é apresentado como um retrato biográfico, testemunho de uma época e uma história da uma paixão por fazer quadrinhos. E o mais belo está em concentrar-se nas experiências de vida que condicionaram a sua bibliografia, e a ingenuidade com que abordou suas primeiras tentativas de capturar suas fantasias no papel. O mangá, que a Devir traz numa edição no formato 17 x 24 cm, com 428 páginas, 6 delas coloridas, é uma ótima introdução ao gênero e pela bela reflexão sobre a vida que o jovem autor levou, e um poderoso olhar tanto para suas motivações quanto para o mundo pré-guerra do Japão. Um mangá bem diferente do que encontramos nas livrarias e bancas, um vislumbre oferecido pelo autor de sua cultura. Recomendadíssimo.

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