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Olhares & Observações: A respeito do fim

Neste artigo da coluna Olhares e Observações falaremos sobre um tema que pouco aparece nas mesas de RPG, o planejamento do final de uma crônica. Em quase todas a mesas de RPG que eu já participei, elas acabaram tendo finais precipitados, seja porque alguns jogadores deixam de poder jogar, ou porque o narrador perde o tesão pela história que está narrando, assim como outros motivos. Eu mesmo, como narrador, tive a chance de terminar, por um ponto final definitivo a poucas mesas, pelo menos de forma planejada com antecedência.

Acho que finais são importantes, e geralmente me sinto na obrigação de conduzir a mesa em uma direção que irá resultar em um fim que seja satisfatório para todos os jogadores. Recentemente tive a chance de escrever um término digno para uma mesa que já vinha sendo jogada por dois anos e meio. A coisa toda foi bastante ideal já que a mesa não estava terminando porque as pessoas se cansaram e etc, e sim porque eu queria que ela terminasse antes que qualquer fator efetivamente começasse a atrapalhá-la.

Este artigo está focado não apenas no término, mas em elementos que eu considero essenciais a um bom final de mesa:

A volta de NPCs marcantes:

Acho que este é um ponto importante, sejam eles antagonistas ou aliados é ideal que seus NPCs se façam presentes nos momentos finais. O bom narrador deve se utilizar deles para atar alguns nós e por que não mostrar a resolução de alguns de seus próprios problemas.

Todos os NPCs que possuam laços emocionais mais profundos com os jogadores deveriam efetivamente tomar alguma parte no processo de término. Por exemplo seja com a morte de um amante, ou o salvamento de sua vida. Um fim de relacionamento ou um casamento também poderiam funcionar.

E claro, em relação aos antagonistas, este é o momento deles brilharem, nãos os transforme em um vilão de quadrinhos de super-heróis, faça ele surpreender os jogadores, o humanize a um nível cinza em relação a sua moralidade. Brinque com as expectativas de seus jogadores.

Abra espaço para decisões:

Nada melhor para um jogador como se sentir em um mundo que ele realmente tem o controle.  O que poderá se suceder na história tem de ser consequência das suas ações. É importante que ao chegar no final da mesa a influência das decisões tomadas pelos jogadores seja cada vez mais sentida.

Uma das coisas mais legais a se fazer é efetivamente colocar uma grande decisão a ser tomada a poucos passos do clímax da crônica. Aquele tipo de decisão que mesmo o jogador mais tapado irá reconhecer que pode modificar tudo o que está em jogo.

Eu recentemente fiz isso antes do final da minha mesa e ouvi um comentário muito engraçado da parte de meus jogadores. Eles disseram que gostariam de ter algum tipo de save game nesse momento, para poder tomar as escolhas diferentes e ver como será o outro final. Mas é mais ou menos isso mesmo, é legal colocar escolhas que não só alteram completamente o curso da história, mas como também dividam seus jogadores e os façam debater o melhor caminho.

As escolhas também funcionam se forem utilizadas de forma sutil, mas se não for claro para os jogadores que eles detiveram o poder de escolha isso pode magoa-los de alguma forma, portanto enfatize sempre que você narra pelas conseqüências das ações de seus jogadores.

Teça um clímax:

É sempre bom que os momentos finais do jogo sejam marcantes e apresentem tons diferenciados do resto da mesa. Mais agressivo, mais épico, mais azedo ou mais político, mas sempre distinto.

Para se atingir um clímax é preciso seguir um enredo maior, poucas pessoas vão ligar se o final for um embate (seja ele político ou físico) contra um oponente inteiramente novo e não tão relacionado ao plot geral da crônica. Faça todas as últimas mesas em um crescendo, até o derradeiro auge na última (ou penúltima) sessão.

Recompense os jogadores e os dê mais liberdade de ação nesse momento, os coloque sempre no centro dos eventos a serem desvelados. E faça com que o final seja algo que tenha significado e importância emocional para cada um dos personagens.

Crie um epílogo:

Uma das coisas mais legais que você pode fazer é escrever um epílogo detalhado para ler para os jogadores depois que a última mesa acabar, neste epílogo haverá uma descrição breve de tudo o que ocorreu depois do fim do jogo.

É legal dar um final pessoal a cada NPC mais relevante, mostrar conseqüências de algumas das menores ações por parte do jogadores e estabelecer as principais diferenças que as decisões finais do jogo demarcaram.

Um epílogo rico em detalhes é um prato cheio para entusiasmar seu jogador ao ver que você pensou e refletiu sobre as conseqüências de quase tudo que eles fizeram ao longo da crônica, e é certamente um fechamento em chave de ouro para todos.

É importante também que o epílogo seja realista, nada de eles foram felizes para sempre, e mostre que algumas das boas ações que eles possam ter feitos tiveram conseqüência negativas a longo prazo. Um rei bom, por exemplo, pode não ter conseguido deter um insurreição civil e acabou sendo deposto por um terrível tirano e etc…

Acredito que estas pequenas dicas já sejam capazes de ajudar alguns narradores a desenvolver melhor um final para suas crônicas. Dúvidas, críticas e outras dicas são mais do que bem vindas nas sessões de comentários.

Tenham um bom jogo.

3 opinaram!

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  1. Show de bola esse post, viu, Felipe. Acho que de longe foi o post que mais gostei em um blog de RPG, tanto que li direto no RSS (não deixei pra depois) e vim comentar. Parabéns.

    Eu gostaria muito de conseguir terminar uma campanha, mas nunca tive muito sucesso nos planejamentos. E quando tive, sempre acontecia uma merda. Mas com certeza não tinha pensado em uma das dicas-chave do post, vai me ajudar bastante a dar finais merecidos a algumas tramas que eu tenho certeza que vão acabar por falta de motivação.

  2. Também me faltou sorte nos planejamento… epílogo e sem precisar de final feliz, boas dicas! Vamos ver se consigo usar elas logo.
    Excelente post! O primeiro que leio sobre o tema, meus reais parabéns!!!

  3. Adorei o artigo! É realmente bom poder ler de vez em quando RPG, um hobby que eu adoro, mas que anda bastante apagado em comparação ao que já foi um dia.
    Até hoje, consegui terminar somente uma aventura, a ponto de chegar no nível épico, mas depois disso as dificuldades de reunir o grupo e os afazeres do dia-a-dia realmente tornaram difícil a conclusão de qualquer história.
    Porém, pretendo começar uma nova aventura em breve e espero chegar ao fim dela. =)

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