Teatro

"Elis, A Musical" dá uma bela forma à memória afetiva musical do Brasil

Num determinado momento de “Elis, A Musical” (em cartaz no Oi Casa Grande/RJ), a cantora é questionada sobre do que mais sente saudade na vida. Ela olha um tanto enternecida e responde: “da minha inocência.” Pois o musical, escrito por Patrícia Andrade e Nelson Motta e dirigido por Denis Carvalho, dimensiona esse sentimento para moldar a personalidade da maior cantora do país numa linha narrativa intimista que gravita sobre a impressionante interpretação de Laila Garin, um achado que por si só já agrega ao projeto muito de seu êxito.

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A atriz incorpora a cantora nas suas arestas mais representativas, seja pelo tom preciso de seu alcance vocal, seja pelos maneirismos que a apelidaram de Pimentinha da MPB. O roteiro mapeia mulher e mito, contextualizando a trajetória de acordo com os discursos (muitas vezes pessoais) que fizeram de Elis Regina a personalidade tão idiossincrática que era. O arco dramático da cantora representa exatamente “a dor e a delícia de ser o que era”. A direção de Denis é vacilante no primeiro ato (talvez encantado demais com o torpor dramático de sua protagonista, perde o senso do espetáculo numa fase da história tão figurativamente espetacular) e inspirada no ato final (onde, talvez mais seguro narrativamente, entrega as melhores soluções cênicas). Uma característica bem marcante do traço de Patrícia no roteiro é o diálogo moldado sobre o jogo de palavras. Muitos dos embates se potencializaram por essa habilidade tão recorrente nos trabalhos da roteirista. Nelson impõe-se pela propriedade histórica e iconoclasta de nosso passado musical.

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O que faz de “Elis, A Musical” um espetáculo tão dolorosamente envolvente é o que reflete da própria Elis em seu conjunto. A perda da inocência da mulher representou o êxito do mito. Elis era, na verdade, a grande busca entre o que foi e o que se tornou, e isso diz muito sobre a sua morte. Cada lágrima, cada entrega, cada absorção externada em suas viscerais apresentações expunha como sua passionalidade vertia vulnerabilidade em força. A atriz Laila Garin merecia um Oscar, um Tony, um Oscarito por conseguir, de forma tão verossímil, dar vida a essa complexidade emocional. Vai ver que a própria Elis se materializou ali para fazer de sua busca pessoal, um emocionado elo com nossas memórias afetivas.

Não só recomendo como digo que “Elis, A Musical” foi e continua sendo o espetáculo mais importante de 2013/2014.

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