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Crítica: Nono ano de "24 Horas" se revela anacrônico à sua própria estirpe

Jack Bauer é produto da era Bush. E de um tempo que rapidamente ficou anacrônico. Só olhando por esse prisma que conseguimos entender (um pouco) do porquê dessa nona temporada de 24 Horas ter sido, em linhas gerais, decepcionante. A nova temporada estreou com a novidade de ser reduzida (12 episódios acampando às 24 horas habituais da trama) e com expectativa bem acentuada, uma vez que havia sido “terminada”, encerrando uma das atrações mais controversas da TV Americana. Refletia o mundo visto das janelas republicanas da Casa Branca, com sua política questionável de extremos por perspectivas próprias. Jack Bauer (Kiefer Sutherland) era a expressão de uma América paranoica pós 11 de Setembro. O universo (e as decisões) que gravitavam sua vida eram a expressão disso: matar ou morrer, atirar antes de perguntar, torturas e legislação própria. Nada mais “era Bush” que essa representatividade. Mas o Bauer 2014, frente ao panorama mundial Obama fica meio acossado político e ideologicamente. E isso fica ainda mais claro quando o roteiro não consegue lidar com esse paradoxo.

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“24: Live Another Day” foi uma temporada derivativa de sua própria costela. Mesmo, dramaturgicamente, construída para o frisson do espectador com suas viradas e mortes inesperadas (e há uma morte um tanto lamentada, mas surpreendente!), a série perdeu o viço de lidar com a contemporaneidade para justificá-la. Claro que ainda é bom entretenimento. Acompanhar seus eletrizantes episódios sempre será um sadismo delicioso. Entretanto, 24 Horas se tornou obsoleta dentro daquilo que propõe. Se ainda vão rolar outras temporadas, é uma incógnita, mas já sabemos que não se pode contar com a pertinência do factual – que tanto moldou seu lado mais feérico – que pelo menos invista em tramas que tornem nosso anti-herói Jack Bauer algo mais que um arquétipo de uma América ainda presa a suas contrariedades. Ou seja, faltou contundência a alegoria engenhosa que 24 Horas sempre foi.

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