O texano Tom Ford se destacou no mundo da moda após salvar a marca italiana Gucci da falência durante a década de 1990. Depois, criou sua própria grife e ficou ainda mais rico do que já era. Com o nome consagrado, o estilista surpreendeu muita gente ao anunciar que se lançaria como diretor de cinema. A ideia, vista com certa descrença, se tornou uma grata descoberta quando, em 2009, lançou o drama “Direito de Amar”, que deu ao ator britânico Colin Firth sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Ator.

Sete anos depois, Ford realiza “Animais Noturnos” (“Nocturnal Animals”, 2016), seu segundo filme como cineasta e roteirista, inspirado no livro “Tony e Susan”, de Austin Wright. O filme, vencedor do Grande Prêmio do Júri do Festival de Veneza, embora tenha grandes qualidades em sua parte técnica e conte com um elenco sensacional, decepciona ao tentar fazer um estudo aprofundado de seus personagens, e não consegue escapar do lugar comum. Daí suas pretensões ficam pelo meio do caminho.

A trama é centrada em Susan Morrow (Amy Adams), uma negociante de arte de Los Angeles que tem uma vida privilegiada, ao lado de seu marido Hutton Morrow (Armie Hammer), mas que sente que algo está faltando. Durante um fim de semana em Hutton viaja para resolver negócios, Susan recebe um manuscrito do ex-marido, o escritor Edward Sheffield (Jake Gyllenhaal), chamado “Animais Noturnos” e dedicado a ela.

A história do livro se passa durante uma viagem pelo Texas que Tony Hastings (também Gyllenhaal) fez com sua esposa Laura (Isla Fisher) e sua filha India (Ellie Bamber). Tudo corria bem até que a família é abordada por um grupo de arruaceiros liderados por Ray Marcus (Aaron Taylor-Johnson). À medida que vai lendo o livro, Susan percebe que o texto tem conexão com o relacionamento entre ela e Edward e começa a lembrar o que fez para que seu casamento chegasse ao fim, e busca uma maneira de se redimir de seus erros.

A sequência que abre “Animais Noturnos” é, sem sombra de dúvida, a melhor do filme. Sem dar spoilers, pode-se dizer que ela vai contra tudo o que a maioria das pessoas considera esteticamente perfeito, o que pode causar um certo desconforto a quem não tem a mente aberta para outros conceitos.

Talvez por isso, a ideia que passa inicialmente (de que a história vai realizar uma crítica contundente sobre como a superficialidade toma conta da vida de muita gente) vai, lentamente, sendo substituída por uma trama que só pretende chocar, mas que na verdade possui reviravoltas já vistas em outros filmes de suspense.

Um claro exemplo disso é quando o público descobre o que motivou o fim do casamento entre Susan e Edward, algo digno de uma novela de Gilberto Braga em seus piores dias (o que, aliás, já tem acontecido há algum tempo).

Outro problema que o filme possui está na pouca criatividade de Ford em encontrar soluções para que suas sequências não se tornem repetitivas. Assim, o cineasta repete a mesma ideia mais de uma vez, como se estivesse martelando para o espectador o que os personagens estão pensando ou sentindo naquele momento, como nas cenas em que os protagonistas aparecem tomando banho em locais diferentes, mas a edição dá a impressão de que os dois estão pensando um no outro. Quando aparece na primeira vez, é algo interessante. Mas quando isso volta a acontecer, fica banal e dispensável.

Embora as três histórias contadas no filme se interliguem, apenas a trama do livro de Edward realmente desperta interesse, a partir do surgimento de Bobby Andes (Michael Shannon), responsável por investigar os autores dos crimes cometidos contra Tony Hastings e sua família. O que soa estranho, já que a proposta inicial é ter um maior entendimento da relação entre Susan e Edward e não de uma história fictícia.

Assim, surge a decepção de que tudo aquilo que prometia ser melhor desenvolvido sobre a questão de que as pessoas só ligam para as aparências desaparece para dar lugar a uma trama policial que até discute os limites das pessoas. Mas é pouco para o que poderia ser um filme realmente com algo a dizer.

Uma pessoa envolvida com a moda como Ford não poderia errar na parte plástica de um filme e “Animais Noturnos” é, sim, uma obra esteticamente belíssima. Conta com uma ótima fotografia de Seamus McGarvey, uma bem realizada direção de arte de  Christopher Brown e bons figurinos de Arianne Phillips. Além disso, o diretor contou com um verdadeiro Dream Team em seu elenco, que mostra por que são alguns dos atores e atrizes mais conceituados de Hollywood atualmente.

Amy Adams passa por duas fases de Susan e consegue mostrar as diferenças de sua personagem no passado e no presente, especialmente no que ela sente em relação às pessoas. Jake Gyllenhaal tem, talvez, o papel mais difícil por ter que interpretar duas pessoas tão distintas que só compartilham a dor de sofrerem um grande trauma, e o ator se sai muito bem.

Porém, os que mais chamam a atenção são Michael Shannon e Aaron Taylor-Johnson. Shannon ainda não realizou um trabalho ruim nos últimos anos e, aqui, marca presença como o durão, mas com um semblante enfraquecido, Bobby Andes, que vai levar o angustiado Tony a um caminho sem volta.

Já Taylor-Johnson, mais conhecido como o herói da franquia “Kick-Ass” surpreende ao convencer como o perigoso e assustador Ray Marcus, mostrando que tem tudo para conseguir papéis mais desafiadores no futuro. Tanto que, por seu desempenho, foi indicado (merecidamente) ao Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante.

Armie Hammer e Isla Fisher pouco têm a fazer com seus personagens e Laura Linney, sempre competente, faz o que pode para não ficar ridícula como a mãe de Susan, já que a diferença de idade entre as duas atrizes é de apenas dez anos.

Com uma ótima trilha sonora de Abel Korzeniowski“Animais Noturnos” termina de uma forma um pouco óbvia, o que pode deixar a sensação de descontentamento ainda maior. No fim das contas, o filme é mais um daqueles que vem numa bela embalagem e cheio de boas intenções. Mas nós todos sabemos qual o lugar que está cheio delas.

Filme: Animais Noturnos (Nocturnal Animals)
Direção: Tom Ford
Elenco: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon, Aaron Taylor-Johnson
Gênero: Drama/Suspense
País: EUA
Ano de produção: 2016
Distribuidora: Universal Pictures
Duração: 1h 56min
Classificação: 14 anos