No compasso do carrossel e da roda gigante giram as vicissitudes da vida. Foi com base nessa metáfora que Woody Allen alinhavou sua nova trama intitulada “Roda Gigante” (Wonder Wheel, EUA/2017), tendo como cenário o parque de diversões novaiorquino Coney Island na década de 1950. O longa produzido pelo novo Amazon studios foi exibido na sessão de encerramento do Festival do Rio. Foi o segundo lugar do mundo que teve a chance de assistir ao filme que deve entrar em circuito em dezembro. Antes houve apenas uma sessão em Nova York na última semana.

A história gira em torno de uma família para lá de disfuncional. O patriarca é Humpty (Jim Belushi), o bronco operador do carrossel do parque, casado com Ginny (Kate Winslet). Ela é uma garçonete frustrada com uma carreira artística que não foi adiante e um casamento anterior falido. O fruto desse casamento anterior é Richie (Jack Gore), garoto obcecado por cinema e por atear fogo nas coisas. Somos apresentados a eles através do ponto de vista de Mickey (Justin Timberlake), um jovem salva-vidas bonitão que sonha em se tornar um dramaturgo. Ele tem um caso amoroso com Ginny. Para bagunçar ainda mais o coreto chega a filha de Humpty, Carolina (Juno Temple), que havia se distanciado e agora se abriga no apartamento do pai para se esconder de gangsters. 

Woody Allen trabalha esses personagens com sua mais do que comprovada maestria. E a precisa direção de atores extrai uma performance inspirada de James Belushi (que andava meio esquecido dos holofotes e tem aqui sua grande chance de votar a brilhar), e uma atuação no tom certo do ator/cantor galã Justin Timberlake. Mas quem brilha mesmo são as mulheres. O filme foi escrito para elas. Juno Temple desfila talento e um charme brejeiro na composição da fugitiva mulher de um mafioso. E Kate Winslet se encontra em estado de graça com sua Ginny. Em uma atuação verdadeira e comovente, ela consegue transmitir uma torrente de sentimentos em um sorriso de meia boca. As melhores e mais difíceis linhas de diálogo do script foram escritas para ela. E a atriz correspondeu à confiança que lhe foi depositada. Uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz já pode ser cogitada.

A fotografia de Vittorio Storaro é responsável por toda a composição das variações de clima. Essa é a segunda vez consecutiva que colabora com Allen. O filme anterior, Café Society também teve sua assinatura como cinematógrafo. Aqui ele entrega um trabalho que explora as temperaturas de cor com delicadeza e em alguns momentos até com uma certa ousadia. As transições ora sutis ora abruptas entre cores frias e cores quentes saltam aos olhos causando efeito estroboscópico. Além disso, emula estilo cinematográfico de produções da época em que o filme se passa.

“Roda Gigante” não se trata nem de longe de um “Woody Allen menor”. Não é exagero classificá-lo entre os melhores trabalhos do diretor na fase contemporânea. Seus maneirismos estão ali, e para os que adoram dizer que ele se repete não se trata de autoarremedo. É apenas sua marca registrada se fazendo valer e proporcionando entretenimento inteligente como de praxe. Nesses termos, torçamos para que Allen continue se repetindo até quando conseguir.

Cotação: Muito Bom