O ponto nevrálgico da Lady Macbeth (idem, Reino Unido/2016) do diretor estreante William Oldroyd, está no longo plano estático no rosto impávido de sua protagonista, nos últimos minutos do filme. Ali está mimetizado toda a dimensão que a história traz, uma vez que é uma adaptação do romance “Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk“, do russo Nicolai Leskov, obviamente inspirado na clássica obra de William Shakespeare.

Com bagagem representativa no teatro, Oldroyd estreia na sétima arte, com um domínio estético muito interessante, numa espécie de sinergia com o trabalho teatral, mas sem subestimar o veículo que tem em mãos. Katherine (Florence Pugh) está presa a um casamento de conveniência. Casada, a jovem agora se vê integrante de uma família por fria conveniência. Apenas quando embarca em um caso extraconjugal com um trabalhador da propriedade do marido que as coisas começam a mudar. A crueza e a passionalidade desse envolvimento, desencadeia um desenrolar trágico, como bem evoca a história original inglesa.

O roteiro é hábil em desenvolver seu arco dramático com precisão, numa narrativa enxuta, mas cheia de ramificações dentro de seu próprio conflito. Mesmo que o filme respeite seu tempo, o espectador não tira os olhos de sua trama, que ganha requintes de crueldade aos longo de suas consequências.

A atriz Florence Pugh incorpora uma Lady Macbeth complexa em sua amoralidade e o desenho dramático de seu papel fica borrado diante de tamanha expressividade. Na outra ponta está sua empregada, Annie (Naomi Ackie, maravilhosa), importante peça para que o roteiro dimensione questões sobre hierarquia e classicismo, mesmo na impiedosa era vitoriana inglesa. É brilhante a forma como o diretor faz com que a jornada emocional de sua protagonista seja a grande força de seu filme. É como se o filme crescesse com o que Lady vai se transformando e com isso ganhe tanta espessura dramática.

Seja pelo DNA shakespeareano, seja pela cerne de sua reinterpretação russa, Lady Macbeth é uma grande filme se valendo de muito pouco. Mais precisamente de destrinchar perfeitamente o olhar impávido de sua protagonista quando o filme termina.