No cinema de animação comercial, é cada vez mais frequente o uso de uma “receita de bolo” que, quando dá certo, a regra é produzir cada vez mais e mais, já que o público-alvo está ávido por novas histórias estreladas pelos personagens que conquistaram seus corações. É uma pena, no entanto, que seus novos capítulos, embora cheguem a saciar o desejo dos espectadores em geral, não possuam o mesmo sabor dos originais e não tragam grandes inovações ao que já foi visto anteriormente.

É o que acontece agora com “Meu Malvado Favorito 3” (“Despicable Me 3”, 2017), que traz de volta todos os elementos consagrados da franquia, adicionando algumas novidades para a série e “joga para a galera” o tempo todo para garantir a alegria dos fãs. Mas não muda praticamente nada do que já foi visto anteriormente, e serve apenas para “manter a roda girando”.

Na nova aventura, Gru (novamente dublado por Leandro Hassum na versão em português e Steve Carell no original) continua trabalhando na Liga Anti-Vilões ao lado da agora esposa, Lucy Wilde (Maria Clara Gueiros/ Kristen Wiig), ao mesmo tempo que cuida de suas três filhas adotivas Margo, Edith e Agnes e, é claro, de seus Minions. Os problemas começam quando ele falha em prender Balthazar Bratt (Trey Parker/Evandro Mesquita), um ex-ator mirim que virou criminoso, o que o faz cair em desgraça com sua nova chefe, Valerie da Vinci. Para piorar, boa parte de seus Minions se rebela e deixa de trabalhar para ele.

Além disso, Gru descobre que tem um irmão gêmeo chamado Dru (também com a voz de Hassum e Carell) e decide levar sua família para conhecer o lugar onde mora, num país distante. Só que Dru quer convencer Gru a voltar para o mundo da vilania para provar que pode ser tão bom quanto ele cometendo crimes. Tentado pela proposta, Gru acaba se metendo em confusões ao lado de seu novo parceiro, ao mesmo tempo em que precisa ainda lidar com as ameaças de Balthazar Bratt.

Embora não traga nada que justifique essa sequência (a não ser, claro, vender mais e mais produtos relacionados a este universo – especialmente os Minions – e ganhar muito dinheiro na bilheteria), “Meu Malvado Favorito 3” ainda consegue divertir em alguns momentos da trama, graças aos seus personagens e seu comprovado carisma. A introdução de novos membros como Dru e Balthazar Bratt até traz uma certa graça para a franquia, já que o irmão do protagonista é, praticamente, o oposto total dele (o que gera uma das melhores piadas visuais da série, que tem a ver com Yin e Yang) e o vilão faz rir com referências aos anos 80, seja pelo visual extravagante de sua roupa com ombreiras, seja pelas diversos ícones do período que todo mundo adora tirar sarro, inclusive aqueles que o viveram. Porém, o roteiro deixa de lado a nova chefe de Gru (visualmente inspirada em Donatella Versace), depois de mostrar que ela tinha um grande potencial para gerar mais risadas.

Falando em anos 80, um dos grandes méritos do filme está na sua sensacional trilha de canções repleta de clássicos do período. Assim, grandes hits nomes como Michael Jackson, Madonna, Olivia Newton-John, Phil CollinsA-Ha, Van Halen, Berlin e Dire Straits ajudam na diversão e, com certeza, vão fazer a alegria de quem viveu nessa época. Inclusive, até compensam a pouca criatividade de Pharrell Williams, que traz novas composições (e até reaproveita algumas dos capítulos anteriores, além de “Freedom”, de “Truque de Mestre 2”), mas nenhuma que seja tão boa quanto “Happy”, da trilha de “Meu Malvado Favorito 2” e chegou a concorrer ao Oscar de 2014.

No entanto, o roteiro escrito por Cinco Paul e Ken Daurio, responsáveis também pelos textos dos dois primeiros filmes, peca por trazer diversas subtramas que são jogadas na tela, mas não se resolvem de maneira satisfatória. Assim, temos Gru se relacionando com o irmão, Gru tentando capturar Balthazar, Lucy tendo que lidar com as meninas (sempre fofas), os Minions se metendo em confusões e por aí vai. Aliás, os realizadores devem ter se dado conta de que os simpáticos seres amarelos são tão amados pelo público (o que gerou o spin off “Minions”, lançado em 2015) que resolveram criar sequências só para eles que parecem fazer parte de um outro filme, uma espécie de “Minions 1.5”. Esses momentos certamente vão levar as pessoas às gargalhadas. Mas não se conectam em quase nada com a história principal.

Na dublagem brasileira, Leandro Hassum volta a fazer um ótimo trabalho como Gru e surpreende ao criar a voz de Dru, bem diferente da que ele desenvolveu para o protagonista, dando-lhe uma personalidade que também ajuda a torná-lo mais engraçado. Maria Clara Gueiros mostra que está mais segura como dubladora e tem um bom trabalho como Lucy. Evandro Mesquita surpreende como Balthazar Bratt, já que em alguns momentos ele muda completamente o modo de falar que o público está acostumado a ouvir e cai como uma luva para o personagem. Aliás, um dos momentos mais divertidos do filme é uma referência à banda do ator, a Blitz, que quem “pescar” vai rir bem alto no cinema.

Com uma impecável parte técnica na animação comandada por Pierre Coffiin, Kyle Balda e Eric Guillon, “Meu Malvado Favorito 3” acaba sendo mais do mesmo e se tornando o filme mais fraco da franquia, apesar de ainda ser capaz de divertir bastante e fazer piadas com outras produções, como “Procurando Nemo”, “Star Wars: O Império Contra-Ataca” e até a série de TV “Esquadrão Classe A”. Só fica devendo mesmo no quesito originalidade e resta saber por quanto tempo a saga de Gru vai resistir antes de se tornar algo realmente desnecessário, como o que aconteceu com o último “A Era do Gelo”. Mas este momento ainda não chegou. Então, o jeito mesmo é curtir enquanto dá.

Filme: Meu Malvado Favorito 3 (Despicable Me 3)
Direção: Pierre Coffiin, Kyle Balda e Eric Guillon
Elenco: Leandro Hassum, Maria Clara Gueiros, Evandro Mesquita (Vozes)
Gênero: Infantil
País: EUA
Ano de produção: 2017
Distribuidora: Universal Pictures
Duração: 1h 30 min
Classificação: Livre

  • Cine com Pipoca

    Adorei a crítica Parabéns

  • Valeu. Muito obrigado!!!