O Dia em que Keith Richards Dormiu e Acordou com o Maior Riff do Rock

Nova biografia detalha o milagre sonâmbulo por trás de (I Can’t Get No) Satisfaction e resgata os bastidores mais selvagens, caóticos e geniais da maior banda de rock do mundo Com os Rolling Stones preparando o terreno para o lançamento de seu novo álbum, Foreign Tongues, The Rolling Stones, a nova e impiedosa biografia da…


Nova biografia detalha o milagre sonâmbulo por trás de (I Can’t Get No) Satisfaction e resgata os bastidores mais selvagens, caóticos e geniais da maior banda de rock do mundo

Com os Rolling Stones preparando o terreno para o lançamento de seu novo álbum, Foreign Tongues, The Rolling Stones, a nova e impiedosa biografia da banda escrita por Bob Spitz joga luz sobre os episódios mais sangrentos, glamourosos e bizarros da maior banda de rock do planeta. Mas, entre tantas excentricidades e lendas urbanas, nenhuma história supera a natureza quase sobrenatural — e comicamente humana — de como nasceu o hino “(I Can’t Get No) Satisfaction”.

A Trilha Sonora de um Ronco Genial

O ano era 1965. Após uma passagem por Paris, onde conheceram a modelo e atriz Anita Pallenberg, os Stones desembarcaram em Nova York para um show no Academy of Music e se hospedaram no Fort Harrison Hotel. Como era de praxe, Keith Richards foi para o quarto acompanhado de seus dois fiéis escudeiros de cabeceira: um violão acústico e um gravador de fita cassete.

Nas primeiras horas da manhã, imerso em um estado de semi-embriaguez e sono profundo, Keith despertou grogue. Algo martelava em sua mente. No puro instinto, ele tateou o escuro, alcançou o violão, apertou o botão de gravar e tocou uma sequência simples de notas que havia escutado em seu próprio sonho. Entre os acordes brutos, ele resmungou uma frase quase inaudível: “I can’t get no satisfaction”. Logo em seguida, desabou de volta no colchão, apagando instantaneamente.

No dia seguinte, Richards acordou sem absolutamente nenhuma lembrança do que havia acontecido. Ao olhar para o gravador, percebeu que a fita tinha rodado até o final do carretel. Intrigado, ele retrocedeu o rolo até o início e deu o play. O que ouviu mudaria a história da música:

“Na fita, você consegue me ouvir deixando a palheta cair e, o resto dela — cerca de 40 minutos de gravação —, sou apenas eu roncando”, relembrou o guitarrista anos mais tarde.

Apesar da sinfonia de roncos que se seguiu, o riff inicial era, como define o biógrafo Bob Spitz, “inegável”. Keith levou a gravação para Mick Jagger ainda naquela manhã, e o resto virou a página mais célebre do catecismo do rock and roll.

Outros Retalhos de Caos e Glória

Embora o milagre sonâmbulo de Keith seja o ápice anedótico, o livro de Bob Spitz funciona como um inventário completo do caos dos Stones. A biografia ainda resgata outros pilares fundamentais da banda:

O Nascimento pelo Telefone

Em junho de 1962, ao ditar um anúncio de jornal para conseguir shows, Brian Jones foi cobrado por um nome para o grupo. Olhando para o chão do apartamento imundo, ele viu um disco de Muddy Waters. A primeira faixa era “Rollin’ Stone Blues”. O nome foi dado ali mesmo, por puro improviso.

A Tragédia de Brian Jones

O livro destrincha a mente anárquica e o talento multi-instrumentista de Jones. Consumido pelo ciúme da parceria entre Jagger e Richards e pelo abuso de substâncias, ele foi demitido em 1969 e morreu afogado em sua piscina menos de um mês depois, aos 27 anos.

O Encontro com os Beatles

Em um show dos Stones em Londres, o público abriu espaço para quatro rapazes idênticos de casaco de couro: os Beatles. O encontro nos bastidores rendeu uma amizade instantânea, um convite para o Albert Hall e o choque dos Stones ao testemunharem a histeria ensurdecedora das fãs de John, Paul, George e Ringo.

O Quebra-Quebra na América

A chegada dos Stones nos EUA em 1964 foi marcada pelo deboche da mídia tradicional — como o apresentador esnobe Dean Martin —, mas consagrada pela violência das ruas. Em San Bernardino, a polícia de choque foi acionada quando uma multidão tentou derrubar as portas da arena. No palco, bastou Jagger gritar o nome da cidade durante “Route 66” para o local colapsar em desmaios, invasões e sedações médicas.