Se não fosse diretor de cinema, Michael Bay teria uma carreira exemplar como vendedor de peixes. Afinal, o cineasta americano sabe muito bem como divulgar seus filmes, é simpático com a imprensa e tem sempre uma resposta na ponta da língua mesmo diante de perguntas cabulosas. Basta ver como ele se comporta quando tem que lançar um novo exemplar da franquia dos robôs gigantes que se disfarçam de veículos entre um combate e outro. Sempre elegante e espirituoso, como um bom vendedor de peixes deve ser. Ainda mais quando o seu produto não cheira muito bem.

Essa analogia serve perfeitamente para “Transformers: O Último Cavaleiro” (“Transformers: The Last Knight”, 2017), filme que peca em praticamente tudo o que é necessário para ser um bom cinema: roteiro, direção e atuação. Mas Bay, com seu jeito carismático (que mais uma vez pôde ser constatado pelos repórteres brasileiros em sua passagem por São Paulo em julho), tenta convencer a todos de que sua mais recente produção funciona como um ótimo passatempo. Mas, infelizmente, não é bem assim que acontece na prática.

O quinto episódio da franquia consegue a proeza de ser ainda pior do que o seu antecessor (“Transformers: A Era da Extinção”, de 2014) e cansa com o excesso de cenas de ação que parecem não ter fim. O som sempre em altos decibéis, uma história com mais buracos que as estradas brasileiras e uma tentativa (mais uma vez) frustrada de dar um ar épico para mais um capítulo da eterna luta entre os personagens inspirados em brinquedos da Hasbro.

Na trama, após os eventos do quarto filme, os Transformers foram considerados ilegais e passaram a ser perseguidos pela TRF, uma força especial liderada por Santos (Santiago Cabrera) que está disposta a eliminar todo e qualquer habitante de Cybertron. Alguns Autobots como Bumblebee, Hound (voz de John Goodman) e Drift (voz de Ken Watanabe) são protegidos pelo inventor Cade Yeager (Mark Wahlberg), que também vive como um fugitivo. Durante um confronto em Chicago, Cade acaba ajudando Izabella (Isabela Moner), uma jovem solitária, e a leva para o seu esconderijo. Além disso, ele tem contato com um estranho amuleto que pode ser a chave para encontrar o Unicron, um artefato que remete à origem da relação dos Transformers com os humanos.

A descoberta do talismã chama a atenção dos Decepticons, mais uma vez liderados por Megatron, pois o Unicron também pode significar o fim do planeta Terra. Em busca de respostas, Cade vai parar no castelo de Sir Edmund Burton (Anthony Hopkins), na Inglaterra, que revela segredos do passado dos Transformers, como a participação na formação da Távola Redonda do Rei Arthur (Liam Garrigan). Auxiliado pela historiadora Vivian Wembley (Laura Haddock), Cade corre contra o tempo para encontrar o Unicron antes dos Decepticons. Mas as coisas complicam com a volta de Optimus Prime (voz de Peter Cullen), que não é mais o mesmo desde que deixou a Terra em direção a Cybertron.

O orçamento de US$ 217 milhões (o mais caro da franquia até agora) de “Transformers: O Último Cavaleiro” fica bem nítido na telona, graças aos bem realizados efeitos especiais e às grandiosas locações usadas no filme. O que não fica claro é como, com tanto dinheiro gasto, não foi possível fazer uma obra minimamente satisfatória em termos de cinema. Nem mesmo o ímpeto de Bay de destruir tudo pelo seu caminho de várias maneiras (só comparado ao do alemão Roland Emmerich) empolga desta vez. Grande parte das sequências de ação continuam prolongadas além da conta e nada emocionantes. Talvez nem os fãs da série fiquem satisfeitos com o que acontece na trama.

Aliás, outro grande pecado do filme está no mais que confuso roteiro escrito por Art Marcum, Matt Holloway e Ken Nolan, que faz um verdadeiro Samba do Transformer Doido, misturando fatos históricos com diferentes mitologia, onde, no fundo, nada faz muito sentido. Tudo isso recheado de frases pomposas que soam bonito nas vozes dos robôs gigantes, mas carregadas de clichês. Para piorar, a trama faz personagens aparecerem e desaparecerem sem a menor cerimônia. Isso sem falar nos erros de continuidade tão gritantes que até mesmo quem não é muito observador vai notar.

Além disso, o filme prova que Bay desaprendeu a dirigir atores ao longo de sua carreira, já que ninguém do elenco se salva e todos têm interpretações medíocres. Se Mark Wahlberg já não convencia como inventor em “Transformers: A Era da Extinção”, não se sai muito melhor como um guerreiro renegado. O astro também falha em fazer par com a bela Laura Haddock e não mostra nenhuma química com a atriz, que foi criada para ser uma espécie de Megan Fox britânica, ainda mais com as péssimas frases de duplo sentido que os dois têm que dizer na história. O pecado maior é ver o excelente Anthony Hopkins pagando um dos maiores micos de sua carreira tentando dar alguma dignidade ao seu personagem, mas sem sucesso. A jovem Isabela Moner, que também veio ao Brasil junto com o diretor para lançar o filme, até mostra algum talento. Mas precisa de um papel melhor para se destacar de verdade no cinema. E o que foi a participação de Stanley Tucci como o mago Merlin? Nem merece comentários.

A única coisa que os envolvidos com “Transformers: O Último Cavaleiro” podem se vangloriar é o fato de que esse não é o pior filme da série, já que essa “honra” ainda pertence a “Transformers: A Vingança dos Derrotados”. No entanto, ele ainda é um forte candidato a pior blockbuster do ano. Perto dele, até mesmo “Cinquenta Tons Mais Escuros” fica menos intragável de assistir. Mas ainda assim, deve fazer muito dinheiro pelo mundo (mesmo com uma bilheteria abaixo do esperado nos EUA), garantindo novos episódios no futuro, com ou sem Michael Bay na direção. Ele jurou que esse é seu último filme na franquia. Mas essa pode ser mais uma história de vendedor de peixes.

Filme: Transformers: O Último Cavaleiro (Transformers: The Last Knight)
Direção: Michael Bay
Elenco: Mark Wahlberg, Isabela Moner, Anthony Hopkins, Laura Haddock
Gênero: Ação e Aventura
País: EUA
Ano de produção: 2017
Distribuidora: Paramount Pictures
Duração: 2h 29min
Classificação: Livre