O Arcade Fire já chegou àquele patamar em que um anúncio de novo trabalho gera frisson. Não é para menos. Ao longo desses 15 anos e cinco álbuns lançados, a banda formada e radicada no Canadá se consolidou como uma das mais importantes da cena atual, apoiada em uma sonoridade refinada e experimental, e ao mesmo tempo com um irresistível apelo pop. Não tinha como dar errado. E o novo disco “Everything Now” (Columbia/Sony Music, 2017) corrobora a química bem sucedida.

Quatro anos depois do ousado “Reflektor”, o AF retorna apostando em letras que reflexivas e críticas. É certamente a face da banda que eles pretenderam dar mais enfoque no disco.  Esse teor niilista é uma reação sintomática ao cenário político mundial. “Everything Now” se desenha como uma pequena ópera rock da era Trump e do consumismo desenfreado. Comunga com o novo disco de Roger Waters. E a identidade sonora do grupo também é bastante evidenciada. É o que percebemos nitidamente na primeira faixa, que dá o título ao álbum. Dançante, ela vem precedida de um prólogo que forma uma suíte.

A segunda, ‘Signs of Life’ mantém o clima de pista, com andamento funky/dub, e lembra vagamente algumas levadas do The Cash. A pujante ‘Create Comfort’ vem imbuída de um espírito disco ball embrulhando uma letra ácida. Em uma estrofe, Win Butler vocifera: “We’re the bones under your feet/The white lie of American prosperity/We wanna dance but we can’t feel the beat” (“Nós somos os ossos debaixo de seus pés/A mentira estúpida da prosperidade americana/Nós queremos dançar, mas não conseguimos sentir a batida”). A suíte ‘Infinite Content’ – que coloca um garage rock seguido de um andamento que remete à faixa título do álbum “The Suburbs”, de 2010 – é outro exemplo. O refrão mântrico diz “All your money is already spent/On infinite content!” (“Todo o seu dinheiro já foi gasto/ Em conteúdo infinito”).

A synth disco ‘Eletric Blues’ traz Règine Chassagne nos vocais principais. As músicas em que a Sra Butler assume a dianteira sempre rendem bons momentos. Na sequência vêm as menos inspiradas do álbum ‘Good God Damn’ e ‘Put Your Money On Me’. O álbum encerra com a etérea e existencial ‘We Don’t Deserve Love’ seguida do epílogo ‘Everything Now (Continued)’.

A produção ficou a cargo de um time de bambas formado por Thomas Bangalter (Daft Punk), Geoff Barrow (Portishead) e Steve Mackey (Pulp). A eles se juntou o colaborador de longa data, Markus Dravs. Ele foi o responsável por reforçar, no disco anterior, o acento groove já característico do Arcade Fire. E repete a fórmula aqui.

“Everything Now” mantém a coesão qualitativa da obra da banda, embora não tenha a excelência do debut “Funeral”, ou a ousadia de “Reflektor”. A profundidade pretendida para as letras é atingida na maioria das faixas, mas em algumas fica apenas a pretensão. Mas isso não apaga o brilho do trabalho. E é louvável que o Arcade Fire continue fiel a esse propósito de produzir álbuns com conceito de unidade, e não um amontoado de singles.