Vinte e cinco anos se passaram entre o último trabalho de estúdio de Roger Waters, “Amused to Death”, e o novo lançamento que chega agora ao mercado, “Is This the Life We Really Want?” (Sony/2017). Esse hiato abrangeu oito primeiros anos de quietude e os últimos quinze bastante intensos. Embora não lançasse discos, Waters tomou para si a responsabilidade de compensar o fim (só declarado em 2013) do Pink Floyd do qual já não fazia parte desde 1985. Se seus ex-companheiros estavam afastados do palco, ele fez a alegria dos fãs realizando megaturnês tocando os clássicos da banda. A mais recente e mais bem sucedida foi uma pomposa reedição de “The Wall”. E ainda encontrou espaço para realizar uma ópera clássica, “Ça Ira” (que chegou a ser encenada em Manaus em 2008 e em São Paulo, em 2013).

Nesse quarto de século, o mundo na essência não mudou muito e o baixista também não. Ainda há mazelas inerentes à condição humana e ele está aqui para cantá-las. Esse é o tom do disco, concebido como uma fúnebre trilha sonora da era Trump. Não chega a ser uma obra conceitual como os dois últimos do PF, “The Wall” e “The Final Cut”, e o primeiro solo “The Pros and Cons of Hitch Hiking”, mas não deixa de manter uma coesão temática.

O álbum abre com a reconhecível levada de violão floydiana na bela ‘Deja Vu’. Notas musicais entrecortadas por gravações de falas e efeitos sonoros, piano delineando a melodia e entradas triunfais de guitarra ou instrumentos de cordas friccionadas. Esses elementos com que estávamos acostumados na chamada “fase Roger Waters” do Pink Floyd (ali entre o “The Dark Side of the Moon” e o último “The Final Cut”) e mantidos nos álbuns solo, marcam presença aqui. Sua artilharia anti-políticos (sobretudo anti-Trump) entra em cena em ‘Picture That’. Na faixa ele vocifera: “Picture a prosthetics in Afghanistan (…) Picture a leader with no fucking brain” (Imagine uma prótese no Afeganistão (…) Imagine um líder sem uma porra de cérebro).

A reflexão continua na música seguinte ‘Broken Bones’, em que Waters declama: When World War II was over/Thought the slate was never wiped clean/We could have picked over them broken bones/We could have been free/But we chose to adhere to abundance/We chose the American dream (Quando a Segunda Guerra Mundial acabou / Pensou que a ardósia nunca foi limpa / Nós poderíamos ter escolhido sobre os ossos quebrados / Nós poderíamos ter sido livres / Mas nós escolhemos aderir à abundância / Nós escolhemos o sonho americano.).

Mais disparos contra Trump na faixa título, que abre com um dos (vários) discursos infelizes do atual presidente dos EUA. Um trecho da letra diz “everytime a nincompoop becomes president” (toda vez que um idiota se torna presidente). A música questiona o modus vivendi do mundo atual, baseado no medo e na xenofobia. Há alguns acenos à fase Pink Floyd. ‘Smell the Roses’ é um exemplo bem claro. Remete bastante a ‘Have a Cigar’ do disco “Wish You Were Here”, de 1974 e em determinado momento traz som de latidos de cães, que imediatamente nos traz à memória ‘Dogs’, do álbum seguinte, “Animals”. E a última estrofe faz intertextualidade com ‘Light My Fire’ do The Doors (“Girl we couldn’t get more higher”). Outro belo momento do álbum é a suite formada por ‘Wait for Her’ e ‘Oceans Apart’. Elas fazem a ponte para a distópica ‘Part of Me Died’, que encerra o disco mantendo a coesão com o niilismo da obra.

É possível estabelecer um paralelo entre Roger Waters e David Gilmour com John Lennon e Paul McCartney. Assim como Lennon, Waters é essencialmente letra e Gilmour melodia. Não que esse novo trabalho sofra de pobreza melódica, mas fica claro que a música é mais um suporte para dar um recado. É mais um meio do que fim. Comparemos com “Rather That Locke”, último disco de Gilmour, e comprovamos que seu ex-parceiro envereda por um som mais suingado.

“Is This The Life We Really Want?” pode ser considerado um prato cheio tanto para fãs ardorosos, que encontrarão deleite, quanto para os detratores, que constatarão que os pontos que costumam atacar estão intactos. Para o bem ou para o mal, é um autêntico disco de Roger Waters, que não perdeu a forma como compositor e enquanto o mundo estiver girando para o lado errado, ele ainda terá muito a dizer.