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Documento Musical: “The Joshua Tree” – U2

Em 1985 o U2 gozava de uma posição de destaque no olimpo pop. A banda estava a bordo da vitoriosa turnê de divulgação do álbum The Unforgettable Fire. Naquele ano, participaram do projeto anti-Apartheid Sin City, de Steve Van Zandt, guitarrista da E. Street Band de Bruce Springsteen. Ali eles se viram em meio a nomes de peso da música. Bono ficou envergonhado por seu pouco conhecimento de blues quando Keith Richards e Ronnie Wood dos Rolling Stones puxavam clássicos do gênero. A referência de rock para o vocalista era a british invasion e o punk. Daí, ele decidiu mergulhar fundo nas raízes do rock. O amor pela América já era mostrado de relance em Unforgettable, que trazia músicas com nomes como ‘4th of July’, ‘Indian Summer Sky’, e ‘Pride (In The Name Of Love)’, um tributo ao líder da luta pelos direitos civis dos negros nos EUA Martin Luther King. Mas foi em “The Joshua Tree” que a aproximação da banda irladesa com a cultura americana ficou mais explícita.

Bono diz que os desertos dos Estados Unidos foram uma forte inspiração para o clima do álbum. Não à toa a capa traz o grupo no Parque Nacional do Vale da Morte. A sugestão do fotógrafo Anton Corbijn era fotografar as árvores de Josué no Parque Nacional da Califórnia. Bono, por ser muito religioso gostou da ideia e até mudou o nome do disco (que a princípio se chamaria “Two Américas”) No entanto, a árvore que se tornou icônica foi fotografada no deserto de Mojave, a 300 km do parque. A planta morreu e tombou por volta de 2000. Bono disse à época que passou a ver duas Américas: a mítica e a real. Daí o primeiro nome escolhido para o álbum. A admiração, contudo, não afastou o viés político e crítico característico do U2.

A icônica árvore da capa do disco

‘Bullet With The Blue Sky’, por exemplo, mirava nos efeitos da guerra civil em El Salvador entre rebeldes e o governo financiado pelos EUA. A última faixa, ‘The Mother of the Disappeared’ também está relacionada com o conflito. Em visita ao país, Bono se encontrou com mães de mortos e desaparecidos pelas ações do governo salvadorenho. Voltando-se para o vizinho Reino Unido, ‘Red Hill Mining Town’ era sobre a greve dos mineiros de 1984.

“The Joshua Tree” é certamente o álbum mais pujante da discografia da banda, e marca a sua maturidade artística. O lado a era puxado pelos hinos ‘Where the Streets Have No Name’, ‘I Still Haven’t Found What I’m Looking For’ e  a balada ‘With or Without You’, que mostrava um entrosamento perfeito do baixo dominante de Adam Clayton com a marcação marcial precisa de Larry Müllen, adornada por uma melódica e rasgante linha de guitarra de The Edge. A primeira parte do álbum fecha com épica e dramática ‘Running to Stand Still’, uma das mais belas composições do quarteto.

Já o lado b traz as músicas que não estouraram na rádio, e é ainda mais denso. ‘In Gods Country’ traz um refrão marcante: “Sleep comes like a drug  In God’s Country/ Sad eyes, crooked crosses, in God’s country” (O sono vem como uma droga no país de Deus/Olhos tristes, cruzes tortas, no país de Deus). A criatividade de The Edge fica bastante evidente, mostrando como se pode fazer muito com pouco. ‘Trip Through Your Eyes’ traz a banda em uma versão folk, se esforçando para soar americana, mas escapando (por pouco) da caricatura.

‘One Tree Hill’ foi composta em homenagem ao roadie da banda Greg Carroll, que se tornou amigo pessoal de Bono. Ele morreu em um acidente de moto na Irlanda um ano antes do lançamento do disco. A música surgiu de uma Jam do vocalista com o produtor Brian Eno. Eno e Daniel Lenois já haviam trabalhado com a banda no disco anterior. Posteriormente, Steve Lillywhite, que produziu os três primeiros álbuns do grupo, para remixar potenciais singles e dar a eles maior apelo comercial.

“The Joshua Tree”, além dos prêmios (foi o grande vencedor do Grammy em 1988) rendeu uma muito bem sucedida turnê na qual eles conquistaram a América. Dessa excursão saiu o documentário/disco “Rattle & Hum”. Posteriormente o U2 ainda realizaria outros dois trabalhos brilhantes: “Achtung Baby” e “Zooropa”, que podem até ser considerados superiores. Mas indubitavelmente esse disco que completou 30 anos no último dia 9 de março é o ponto alto da carreira da banda.

E para comemorar o aniversário, haverá uma turnê com o álbum executado na íntegra, e pode ser que passe pelo Brasil. Se de fato acontecer, teremos algo raro por aqui, pois, bandas consagradas não costumam fazer esse tipo de show por aqui (os Stones, por exemplo, fizeram uma mini turnê com o repertório do álbum “Sticky Finger” nos EUA e aqui vieram com o show regular). Apenas bandas menos conhecidas ou retornando às atividades o fazem. E o disco ainda ganhará um relançamento de luxo em junho.

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Publicado por Cesar Monteiro

Cesar Monteiro

Um viciado em cultura pop que adora compartilhar seu vício com o maior número de pessoas possível

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