O Metallica escolheu uma estratégia de divulgação bastante peculiar para seu novo disco, “Hardwire…To Self-Destruct” (Blackned Records/Universal, 2016). A promoção consistia em lançar videoclipes online das 12 faixas do álbum (veja todos aqui). O que é de se admirar, e muito, já que a banda encabeçou a cruzada contra a música de graça na internet em 2000. Isso queimou sua imagem junto ao público, que os viu como estando ao lado da indústria e não dos fãs. Outros artistas como Madonna e Alanis Morrissette também se posicionaram contra a tecnologia. Mas o Metallica, por ter se exposto mais, ficou com fama de vilão.

Esse décimo álbum de estúdio é o primeiro em oito anos. O último foi o apenas correto “Death Magnetic” de 2008. E a boa notícia é que esse é o melhor álbum da banda desde o “Black Album”, de 1991. James Hetfield (guitarra e vocal), Lars Ulrich (bateria), Kirk Hammett (guitarra) e Robert Trujillo (baixo) entraram no estúdio com compromisso de entregar não um pretexto para sair em turnê, mas sim algo de fato relevante.

metallica4O petardo ‘Hardwire’ abre o disco dando uma mostra do tom geral desse novo trabalho. É um rock pesadão, que até lembra os dois primeiros trabalhos “Kill Em’ All” e “Ride The Lightning”. É também uma música bastante sucinta. A menor do álbum, com apenas 3 minutos e 9 segundos. ‘Atlas Rise’ já começa a desenhar o viés épico do disco. E ao mesmo tempo, é facilmente reconhecida como uma típica composição do Metallica. Forma com a faixa anterior uma empolgante dobradinha no início da audição. A introdução de ‘Now That We’re Dead’ sugere uma prima-irmã de ‘Enter Sandman’. Não chega a ter o impacto de sua semelhante, mas é uma faixa empolgante e a mais melódica do primeiro disco.

Na sequência vem o chumbo grosso ‘Moth Into Flame’, uma séria candidata a hit. ‘Dream No More’ destoa das demais com um andamento mais cadenciado. Aproxima-se mais de um hard rock/metal melódico do que do tradicional heavy/thrash da banda. ‘Halo on Fire’ chega com clima (e duração, são 8 minutos e 15) dos épicos de “And Justice For All”, fechando o disco 1.

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A música que abre o disco 2, ‘Confusion’, faz uma interessante ponte com ‘Halo’. Parece que se trata de uma continuação, uma espécie de “outro”. É seguida de uma vigorosa dobradinha: ‘ManUNkind’ e ‘Here Comes Revenge’. ‘Am I Savage?’ é a menos inspirada do álbum. Ainda assim mantém a coesão. ‘Murder One’, outro metal old school, se anuncia em sua introdução como se houvesse parentesco com ‘Fade to Black’ e ‘One’, mas segue outra cadência. ‘Spit Out the Bones’ fecha o disco com a sutileza de uma britadeira. É uma faixa que parece ter sido composta para calar aqueles que acusam o Metallica de ter amenizado sua sonoridade do “Black Album” para cá.

Daí muitos podem perguntar: o Metallica tem cacife para lançar um disco duplo a essa altura da carreira? E a surpreendente resposta é sim, ainda que o segundo disco (sobretudo na reta final) seja menos inspirado do que o primeiro. A banda já vinha sendo acusada de se repetir e não ter nada de relevante para oferecer há 25 anos. Não que “Hardwire” venha eivado de novidades, ou tenha dado uma guinada diferente para a carreira do quarteto. Mas o que se ouve nas 12 faixas é o grupo seguindo fiel à sua fórmula, mas sem aquele amargor de café requentado. Além disso, lançar um disco duplo, com faixas concatenadas hoje em dia é um ato de bravura. Felizmente algumas bandas têm se aventurado por projetos mais ambiciosos do que um mero agrupamento de singles feitos para serem consumidos avulsos. Dois bons exemplos recentes são os últimos de Iron Maiden e de Avenged Sevenfold.

A produção de Greg Fidelman se mostra bastante correta. Ele mantém a crueza necessária das músicas, apenas realçando a clareza (e o peso) dos instrumentos, mas sem pasteurizá-los. Fidelman produziu Slipknot, Adele e Red Hot Chilli Peppers. Também já havia trabalhado com Metallica, produzindo o malfadado Lulu, parceria com Lou Reed. Além disso, foi engenheiro e mixer do álbum anterior. Esse também é o primeiro trabalho em que o guitarrista Kirk Hammett não contribuiu nas composições. É um fato inédito pois, desde que entrou na banda, em 1983, colabora com as letras. Outra novidade é que “Hardwire” é a estreia da banda com seu selo Blackned.

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E para os fãs que querem ainda mais, há ainda a versão deluxe com um terceiro disco. No lugar das treze músicas “Riff Origins” que a banda tinha palnejado inicialmente, a banda incluiu “Ronnie Rising Medley”, que fora gravada para o álbum tributo a Ronnie James Dio de 2014. Há também covers de ‘When a Blind Man Cries’ do Deep Purple e ‘Remember Tomorrow’ do Iron Maiden, além versões remasterizadas das nove músicas tocadas ao vivo no Record Store Day em 16 de abril de 2016, juntamente com uma versão ao vivo de ‘Hardwired’.

“Hardwire…to Self-Destruct” certamente injetará frescor no setlist dos shows do Metallica, com algo fora dos tradicionais cavalos de batalha, mas sem entediar os fãs. Os brasileiros poderão conferir o resultado ao vivo em março. A banda será uma das headliners do Lollapalooza 2017. Essa é definitivamente a volta por cima do Metallica que se esperava há anos.