Dsc7376 copy
AcervoCríticasTeatro

O questionamento entre o real e o fictício e outras fronteiras no espetáculo ‘Fauna’

O enredo de Fauna parece começar amarrado. Atenção ao verbo ‘parecer’. Parece que será um roteiro mais do mesmo, um bom momento de distração, talvez, com muita qualidade, trazendo uma espécie de quase metalinguagem ao tratar de um grupo que vai montar um filme sobre a vida de um personagem real. Atenção agora ao ‘talvez’ da oração anterior. O grupo, quatro personagens com diferentes graus de implicação com a história a ser contada, debruça-se sobre cenas, falas e a história do personagem real. O enredo sobre o qual o grupo trabalha, no processo doloroso de virar produto acabado, comporta elementos de realidade e ficção que, enquanto ainda processo, vão sendo exaustivamente esmiuçados. Realidade e ficção que possivelmente não precisem ser tão bem marcadas, não exijam a obrigatoriedade de que sejam bem discernidas uma da outra.

Fauna é a personagem retratada, cuja história está sendo oferecida à atriz e ao cineasta pelos filhos, que ainda moram na casa e na fazenda onde ela morou quando viva. Fauna é a personagem que dá nome ao espetáculo, trazendo uma ambiguidade que não pode passar despercebida. Quanto à tal ambiguidade, apenas a mencionarei. A peça, em que trama e personagens pareciam começar um pouco mais engessados, segue em um crescendo de complexidade e diluição de fronteiras entre categorias e conceitos muito apropriada à própria indagação sobre a delimitação entre o real e o fictício. Nesse ponto, à guisa de diálogo com outras obras culturais das quais o público pode usufruir, pode-se remeter à temática do drama de Fauna ao filme “O cidadão ilustre”, de Gastón Duprat e Mariano Cohn, em cartaz na cidade do Rio, que traz exatamente a questão entre o real e o fictício em uma obra de arte, com a diferença de que o meio em questão é o literário, e a autoficção, gênero no cerne das polêmicas e do fazer literário atual, é o veículo que propicia a obra.

Fauna, com acertadíssima direção de Erika Mader (que também interpreta Julia, a atriz) e Marcelo Grabowsky trabalha as questões das fronteiras entre o real e o fictício, entre os gêneros e os desejos, entre os papeis e as funções, através da problemática de seus personagens no fazer do documentário/filme de ficção. No palco, Erika Mader, Eduardo Moscovis, Erom Cordeiro e Kelzy Ecard (esta última com suas tiradas de humor ácido e irônico), interpretam esses personagens que, a princípio, têm seus lugares e suas funções bem delimitados e seguros, e suas atribuições muito bem definidas: um dirige, a outra interpreta, a outra conta as histórias de Fauna e o outro, um pouco mais arisco e misterioso, conta algumas outras histórias. Um é o experiente cineasta, outra é a atriz novata, a terceira é a mulher experiente e forte, inabalável em suas certezas, o outro é o homem bruto e isolado, desprovido de sensibilidade. Entretanto, a trama vai ficando mais complexa e embolada, no sentido literal do termo, com nós difíceis de soltar, e, paralelamente, vai também desarranjando todos os a prioris que montavam um perfil apressado dos personagens em questão.

Fauna é uma mulher misteriosa que se vestia de homem, sendo esta última característica o que vai prevalecer na apropriação que Júlia, a atriz, fará da personagem retratada. Ela passa a vestir as roupas da personagem, a usar artifícios de sedução da forma como imagina que a personagem talvez seduzisse, ela está na casa da personagem, circulando por seus cômodos e entre seus objetos. Sua apropriação de Fauna questiona toda a feminilidade e as obrigações de gênero. No que se pode considerar o auge do espetáculo e o momento de maior qualidade do texto, Julia expressa o desejo de poder ser pai do próprio filho. Ela se pergunta como emprestar seu corpo a diversas funções diferentes, como doá-lo a um outro ser, como conciliar a maternidade e o ofício de atriz, como não ser exclusivo de apenas uma obrigação maior, por isso insiste que quer ser pai, quer ter um filho e poder estar longe fisicamente dele. Os limites da sexualidade e do desejo também são mexidos e embaralhados no decorrer da trama. O texto, de Romina Paula e tradução de Hugo Mader, é hábil em deslindar as questões levantadas por Julia e vividas pelos demais personagens.

O belíssimo cenário de Fernando Mello da Costa, por sua vez, parece ir traduzindo o desarranjo de papéis, funções e lugares dos personagens à medida que o drama avança. Inicialmente, um retângulo ao centro, onde se dá a cena, e a palha que preenche todo o entorno, assinalando o ambiente rústico e rural no qual o drama se passa. Mas à medida que os personagens vão se misturando entre si e com os personagens citados, e à medida também em que os desejos escapolem das celas em que estão bem contidos e dos formatos normatizados que se espera deles, tudo vira palha no cenário, não há mais separação entre uma organização prévia e segura (supostamente representada pelo centro e pelo retângulo iniciais) e a desorganização que há ao redor. Tudo se emaranha e, com diz o personagem de Eduardo Moscovis à dada altura, não importa mais se o que se busca retratar é realidade ou ficção. Isso é o que o menos importa, na verdade.

O espetáculo, em cartaz no Centro Cultural da Justiça Federal, fica em cartaz até 16 de julho. Confira detalhes sobre horários e preços aqui.

Deixe um comentário

Sugeridos
Street Fighter
CríticasFilmes

‘Street Fighter’ preza pela fidelidade, mas escorrega na estrutura

Os fãs de Street Fighter tinham a certeza de que o game...

Captura de tela 2026 10 13
AgendaTeatro

Luiza Mariani estreia solo autoral O que meu peito carrega sobre mim

O texto da peça nasce de uma experiência pessoal de sua intérprete-autora...

Núcleo Pèrègun, formado por Carol Rocha Ewaci e Wellington Ngunga, participa do Poéticas Pretas 2026. Foto acervo do grupo
AgendaTeatro

Poéticas Pretas 2026 – Territórios em movimento

Com inspiração no pensamento da historiadora Beatriz Nascimento, o evento do NEABI/Célia...

1 FESTA NO ARRAIAL O MUSICAL
AgendaTeatro

“Festa no Arraial, O Musical” desembarca em Brasília

Livremente inspirado em “Sonho de uma Noite de Verão”, de William Shakespeare,...

Thunder Hoop Collection (QUByte Classics)
CríticasGames

Thunder Hoop Collection: o segundo conserta o que o primeiro estragou

A QUByte Classics juntou dois arcades da Gaelco na Thunder Hoop Collection:...

João Attuy como o Imperador Sábio, Adriana Lessa como a Rainha da Neve, Carlo Porto como o Rei Vaidoso e Guilherme Carvalho como Andersen (Crédito João Pedro Hachiya)
AgendaTeatro

Belém recebe o espetáculo “Sonho Encantado de Cordel, O Musical”

Com músicas originais de Paulinho Moska, Chico César e Zeca Baleiro, peça...

5b1aad8eff4579d3ed29f194435f3f49f629f6c64373b368cb390473a6029a9e
CríticasGames

Apidya’ Special: a abelha morre, a voz repete e a paciência acaba

Apidya’ Special é a refeitura de um shmup do Amiga lançado em...

Froggy Hates Snow
CríticasGames

Froggy Hates Snow quase frita o “Switão” em nome da diversão.

Um sapo, um deserto congelado e uma bolha de calor da qual...

Manairons
CríticasGames

Manairons e sua falta de “Tompêrro”

Manairons é um platformer 3D de ação que bebe do folclore catalão...

Priscilla Colombi em A Vingança é um Jardim Selvagem foto Adriana Marchiori
AgendaTeatro

“A vingança é um jardim selvagem” vai entrar em cartaz no iBT

  Pela primeira vez na capital paulista, A vingança é um jardim...

Captura de tela 2026 10 13
AgendaTeatro

Do Ventre à Cabeça, solo de Luiza Braga, estreia no Sesc Ipiranga

Com dramaturgia e atuação de Luiza Braga, e direção de Victor Mendes...

Kitchen Wars
CríticasGames

Kitchen Wars: o restaurante pega fogo, mas o cardápio é curto

Overcooked e Moving Out ensinaram muita gente a gritar com os amigos...

City Hunter
CríticasGames

City Hunter: divertido e mal maturado.

City Hunter nasceu em 1990 no PC Engine, baseado no mangá de...

Foto Mariana Scofano Divulgação
AgendaTeatro

Mariana Scofano integra elenco de Heathers, o Musical, no Rio

A atriz Mariana Scofano integra o elenco de Heathers, o Musical, montagem...

Era Uma Vez o Rei – Grupo Pombas Urbanas Foto de Ricardo Avellar
AgendaTeatro

Teatro Comunitário reúne Brasil e Colômbia em Cidade Tiradentes

De 13 a 17 de outubro de 2026 (de terça-feira à sábado),...

Unicirco
AgendaTeatro

Alegrai, um musical circense no Teatro Carlos Gomes

O espetáculo Alegrai, um Musical Circense Brasileiro está em cartaz no Teatro...

Leste do eden ambrosia critica
CríticasSériesTV

Leste do Éden constrói um linda história sob olhar cortante

Existe uma carga poética e quase inescapável na adaptação de Leste do...

Cena de Heathers O Musical - Crédito Kay Marinho
AgendaTeatro

“Heathers – O Musical” estreia nova montagem no RJ

Sucesso na Broadway, “Heathers – O Musical” chega aos palcos cariocas com...