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Os grandes filmes de 2019

O ANJO de Luís Ortega

Ortega se impregna da aura pop e turbulenta dos anos 70 e imprime uma narrativa cheia de signos de seu tempo, num filme também gravita em torno da humanidade que pode haver por trás da idealização de um serial killer (ainda vivo, em prisão perpétua). Sem tirar o foco do protagonista em nenhum momento, O Anjo é um contundente estudo de personalidade, até quando isso se estende a Argentina como um todo.

MIDSOMMAR de Ari Áster

Tecnicamente deslumbrante, o diretor consegue criar tensão mesmo sem lançar mão da escuridão (o filme é todo paradoxalmente solar e aberto). E os atores, dentro de seus difíceis papéis (especialmente o torpor dramático da novata Florence Pugh), rechaçam o quanto o filme é mais complexo no que tem de assustador, do que aterrorizante no que é como cinema. Eis aqui um dos grandes filmes do ano!

GUERRA FRIA de Pawel Pawlicowski

O filme – com fotografia em tela 4:3 num preto e branco reluzente e muitíssimo bem iluminado – pulsa através da força do encontro/desencontro. O roteiro faz disso o ponto de contato mais visceral com o espectador. É um melodrama desconstruído, mas honesto o suficiente para sensibilizar. Guerra Fria é um filme de sentimentos. Tanto como Ida é. Mas com Pawel cada vez mais seguro de sua forma de fazer cinema. Abrangente no aspecto humano e Visceral na visão estética. Essas propriedades o gabaritam como um dos melhores filmes do ano.

ASSUNTO DE FAMÍLIA de Hirokazu Koreeda

O filme vai desenvolvendo cada integrante dessa família, munindo-os da humanidade necessária não para justificá-los, mas para simplesmente ressignificar seus atos questionáveis. Tanto a família como a sociedade japonesa aqui são desconstruídas e o que isso resulta é uma direta assimilação emocionada da plateia, sobretudo pelas consequências disso para seus personagens. Cannes tinha razão ao premiar um filme muito consciente de sua sensibilidade.

CAFARNAUM de Nadine Labaki 

Por mais que a diretora não poupe o espectador na dureza com que olha sobre seus indivíduos, a verdade sobressai muito mais que qualquer lampejo de estilização. Assim, o filme é o próprio sentido do seu discurso. Aquele sentido latente no encontro entre o cinema e o olhar infantil. Na belíssima última cena, mais do que emocionados, estamos rendidos.

DEMOCRACIA EM VERTIGEM de Petra Costa 

O Brasil é uma oligarquia. O povo acha que faz parte dela, mas a serve. E vota/compreende mal seus efeitos. Democracia em Vertigem é um atestado de como o brasileiro não compreendendo o próprio Brasil, se equivoca nas urnas. Petra se vale de sua condição privilegiada para, até com uma interessante mea culpa, observar a prostituição partidária que rege nossa política. O tom pessoal vira universal quando as chagas expostas são absolutamente cívicas.

ERA UMA VEZ EM… HOLLYWOOD de Quentin Tarantino 

Quando o filme reconecta a paixão com a história que quer contar, seu sentido, até para as expertises do diretor como cinema, vira uma experiência. E o final, insano e reinventado, ainda dá tempo para perdoarmos a escolha de deixar a figura de Sharon Tate relegada a um espectro. Tarantino é afetivo com a memória dela e com seu filme, mesmo muitas vezes dando a sensação de estar se divertindo sozinho.

A FAVORITA de Yorgos Lanthimos 

A fotografia, entre o deslumbramento e o estranhamento, alicerçam as sólidas interpretações das três atrizes – Olívia Colman, Rachel Weisz e Emma Stone, excepcionais – e dão forma, para além do frescor da maneira como Yorgos filma, a uma abordagem crucial sobre o quanto a complexidade das relações humanas emerge da inevitabilidade de suas personalidades. Esse inclusive é o sentido do final que o diretor dá a sua história. Bem mais representativo que objetivo. Na verdade vem sendo o sentido de toda a curta e promissora obra dele em si.

O IRLANDÊS de Martin Scorsese 

Para além de sua genialidade, o peso sobre o filme que tem em mãos fica muito evidente. Para além desse pequeno grande problema, é a comprovação da potência que ainda é a sina criativa do cineasta. Trabalhando com um elenco tão emblemático para sua obra quanto para o cinema setentista em si (leia-se: Robert De Niro, Al Pacino e Joe Pesci), a potencialidade do resultado é maior que seus pecados.

DOR E GLÓRIA de Pedro Almodóvar 

Dor e Gloria é sobretudo uma visão terna de Almodóvar sobre suas memórias, e até por isso rende cenas tão brilhantes como a perda da inocência da criança Salvador e o reencontro maduro dele com uma relação do passado. Entre cinebiografia e ficção, o filme cresce para dentro daquilo que é: uma verdadeira auto confissão, ou como ele mesmo diz: representação íntima de si.

NÓS de Jordan Peele 

Nós é um filme de provocação. E como tal, requer do espectador mais do que uma conexão de inércia. O filme cresce com a gente. Jordan Peele, definitivamente é um nome e se acompanhar. Seu segundo filme comprova que seu talento é tão sagaz quanto seus filmes. Provocar. Há quanto tempo um blockbuster não conjuga tão bem esse verbo?

CORINGA de Todd Philips 

Coringa sempre foi um vilão. Investigar sua origem sob uma perspectiva adulta e realista, é uma forma de levantar mais interpretações para a vilania. Joaquim Phoenix é absolutamente um co-autor dessa história, apenas pela genial meticulosidade de sua interpretação. Daqueles casos que serão estudados em escolas de atores. A inteligência de “Coringa” reside em prescindir da mitologia para exatamente buscar entender do que ela é feita. Chamar de obra-prima aqui, não é entusiasmo precoce. Brilhante!

A VIDA INVISÍVEL de Karim Aïnouz

A memória aqui, não redime, apenas marca. Assim como o filme em si. Aïnouz, um dos grandes diretores desse país, sobe mais um patamar ao agregar visibilidade à vidas invisíveis que remontam sua memória afetiva e nossa assimilação comovida.

HISTORIA DE UM CASAMENTO de Noah Baumbach 

Noah amadurece sua própria linguagem cinematográfica acompanhando a corrosão de um casamento onde razões entram em combustão com as emoções de um Adam Driver e Scarlett Johansson em estado de graça e dando a real medida da complexidade de suas construções. Roteiro e direção afiados, com a expertise de Noah em transcrever observações humanas sobre seres. Espetacular!

BACURAU de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

Bacurau tem sangue nos olhos no que representa como nação, ainda mais com o cenário político da qual é contemporâneo. Mas também é um exercício de carpintaria cinematográfica. Kleber e Dorneles brincam com seus próprios códigos cinematográficos atrelados as referências que universalizam o discurso. Vejam Bacurau. Não é só importante, é um filmaço para saciar a fome de pipoca, ao mesmo tempo em que estimula a potência do seu lugar de fala.

O MELHOR FILME DE 2019: PARASITA de Bong Joon-Ho

O extrativismo social já é por si só um grande antagonismo de classes. Parasita pega essa teoria e transforma na grande prática cinematográfica do ano. O diretor sul-coreano faz aqui sua obra-prima. O que se extrai dessa obra é a pura genialidade de Bong, objetivamente em observar os comentários sociais de forma cáustica e banhada a ironia fina como só o bom e raro cinema pode proporcionar. PARASITA É O FILME DO ANO!!!

Menções honrosas para outros destaques de um ano tão bom cinematograficamente: Temporada, Ad Astra, Dois Papas, Rainha de Copas, Greta e Divino Amor.

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