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“Napoli – New York” adapta texto de Fellini sob o olhar das crianças

Imagine viver nos anos 50 e 60, esperando ansiosamente pelo próximo filme do mestre Federico Fellini. Mas é 2025 e algo incrível acontece: um novo filme de Fellini estreia! Sim, isso vai acontecer: um roteiro inédito de Fellini e seu colaborador Tullio Pinelli acaba de ganhar vida ao ser adaptado para o cinema pelo diretor Gabriele Salvatores, que considerou o material, desde o primeiro passar d’olhos, “um tesouro escondido”. E o resultado só podia ser esse: um espetáculo.

Nossa história começa em 1949, um ano depois de o menino protagonista de “Alemanha, Ano Zero” considerar o parricídio. Mas não estamos na Alemanha, e sim em Nápoles, destruída pela guerra. Em um bombardeio, a garota Celestina (Dea Lanzaro) perde a última parente próxima, sua tia, e, desamparada, precisa começar a vender cigarros junto ao menino de rua Carmine (Antonio Guerra).

Numa noite, Carmine sobe num navio norte-americano para cobrar uma dívida e Celestina vai atrás dele. De repente, eles embarcam em uma aventura: ir até Nova York, onde mora Agnese, irmã de Celestina – isto é, se conseguirem passar pelo sempre vigilante comissário Domenico Garofalo (Pierfrancesco Favino).

O navio Victory serve como um microcosmo que reproduz a desigualdade social do mundo. Há as cabines de primeira classe, para viajantes de luxo, e os dormitórios onde estão amontoados dezenas de outros passageiros e tripulação. O espaço, a comida, a experiência da travessia: tudo coloca em contraposição os diferentes estratos de viajantes.

A visão da Estátua da Liberdade na chegada à América provoca reações contrastantes nas crianças. Carmine diz que ela tem cara de metida, mas Celestina vê uma semelhança com uma imagem de santa que tinham em casa, a Madonna de Pompeia. A estátua sempre foi símbolo do recomeço dos imigrantes, que partiam então para triagem na Ilha de Ellis, e o primeiro contato com ela foi filmado em muitas ocasiões, desde o cinema mudo.

A migração italiana para os Estados Unidos pode não ter sido tão significativa quanto a para o Brasil, mas foi também notável. Entre 1820 e 2005, calcula-se que cinco milhões e meio de italianos migraram para os EUA. Os números da imigração foram menores, mas o preconceito foi maior: ele é praticamente desenhado quando as crianças entram num restaurante e um gerente explica que ali “não servimos italianos”.

Carmine joga um jogo de cartas ilustradas chamado Mazzetti e Celestina ajuda-o a trapacear. Com 52 cartas como no baralho tradicional, o jogo consiste em duas pilhas de cartas que devem ser viradas uma a uma, e quem tem a carta de maior valor vence. No filme são mostradas partidas apenas com dois jogadores, mas é possível jogar as cartas com número maior de jogadores à mesa. É possível jogar Mazzetti até mesmo em sites de apostas online.

Salvatores dirigindo os atores mirins

Uma sequência da vida no navio é embalada pela canção “Smile”, de autoria de Charles Chaplin, aqui ouvida na voz de Jimmy Durante. Chaplin compôs a melodia para seu último filme mudo, “Tempos Modernos” de 1936, e a letra foi adicionada por John Turner e Geoffrey Parsons em 1954. Outras escolhas musicais, como “Be My Baby” na chegada a Nova York, seriam impensáveis na época em que foi escrito o roteiro, mas aqui compõem uma trilha sonora vibrante e bastante adequada.

É verossímil que Celestina veja o filme “Paisà”, de 1946, em um cinema nova-iorquino. Os filmes costumavam demorar mais para cruzar fronteiras antigamente, ainda mais se isso incluísse a tradução e posterior dublagem ou legendagem. É também possível que ela reconhecesse os cenários e as pessoas filmadas: no movimento do Neorrealismo Italiano, os cineastas optavam por filmar em locação, não em estúdio, e usando pessoas comuns, não-atores.

Antes de ser cineasta, Federico Fellini foi jornalista e roteirista, escrevendo parte de e sendo diretor assistente inclusive no supracitado “Paisà”. Tullio Pinelli, por sua vez, era um jovem advogado – Fellini se matriculou no curso de Direito, mas não há registros que tenha assistido a alguma aula – que se aventurava como dramaturgo. Tendo conhecido Fellini em Roma em 1946, firmaram uma parceria, e Pinelli declarou que o encontro entre os dois foi “um relâmpago criativo”.

A história de “Napoli – New York” diverte, emociona, e traz crítica social, sobretudo aos abutres da imprensa, que Fellini sem dúvida conhecia de primeira mão. Trazer o provérbio napolitano “Você não é estrangeiro, só é pobre. Se você é rico, não é estrangeiro em lugar nenhum” foi só a cereja do bolo. Com um bom material, em geral se fazem bons filmes. Salvatores, ganhador do Oscar, soube aproveitar o material que tinha em mãos e criou um novo clássico.

NOTA 10  de 10


“Napoli – New York” é o filme de abertura do 20° Festival de Cinema Italiano no Brasil, que acontece a partir de 29 de outubro em 90 cidades e conta com exibições gratuitas no site.

Napoli - New York

Napoli - New York
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Nota: 10/10
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