Como elaborar uma dança de autodefesa? Essa é a pergunta que atravessa Repertório N.3, trabalho de Davi Pontes e Wallace Ferreira que chega ao Rio de Janeiro neste mês, em meio a uma intensa circulação internacional dos artistas. A obra será apresentada gratuitamente entre os dias 22 e 24 de janeiro, 20h em Duque de Caxias, no Centro de Artes da Maré e no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
Última parte da trilogia Repertório, iniciada em 2018, a peça investiga a violência como condição histórica e estrutural que atravessa corpos negros e dissidentes, propondo a dança como um treino de autodefesa física, imaginária e epistemológica. Concebido, dirigido e performado pelos dois artistas, o trabalho mobiliza elementos como mimese, representação e estudos de imagens coreografadas por corpos dissidentes, criando um arquivo de ações que elabora resistências e modos de permanência no mundo.
A pesquisa parte do reconhecimento de que a violência não é incólume aos corpos negros e que cada corpo desenvolve estratégias próprias de defesa. A partir disso, Repertório N.3 fabrica possibilidades coreográficas que confrontam violências autorizadas e estruturais, posicionando o corpo como ferramenta política e poética capaz de interromper a lógica cruel que sustenta a sociedade moderna desde o século XIX.
A obra teve sua estreia nacional na 35ª Bienal de São Paulo, em dezembro de 2023, e desde então vem consolidando Davi Pontes e Wallace Ferreira como dois dos artistas brasileiros mais presentes no circuito internacional da dança contemporânea. Em 2025, a dupla integrou a programação da Bienal de Dança de Lyon, na França, um dos maiores festivais de dança do mundo, além de ter apresentado Repertório N.3 no Kinani, Bienal de Dança na África, em Maputo, Moçambique.
Após dois anos de estreia e circulação internacional, a estreia carioca aconteceu em novembro de 2025, dentro da programação do Festival Panorama, uma das principais plataformas de dança contemporânea do país. A atual circulação no Rio de Janeiro, viabilizada pela Política Nacional Aldir Blanc, PNAB, acontece entre compromissos internacionais, após as apresentações no estado, a dupla segue para o Chile, onde apresenta a obra no Santiago OFF, um dos festivais mais relevantes de artes cênicas da América Latina.
Segundo Davi Pontes, apresentar o trabalho no Rio de Janeiro carrega uma dimensão particular. “A gente começou esse trabalho no Rio há muito tempo. Fazer no Rio é sempre diferente de fazer em outro lugar; tem uma coisa da cidade, do jeito… não sei explicar exatamente. É muito especial estar aqui. É um projeto que a gente já apresentou mais de cem vezes, e é curioso porque sempre existe um pouco de ansiedade. Fico pensando como um trabalho feito tantas vezes ainda provoca isso. Acho que é porque a gente nunca sabe exatamente o que vai ser, já que depende muito do público. Por mais que a gente saiba o que fazer e quando fazer, muitas decisões são tomadas na hora, e o que acontece depende muito da resposta do público. Então, pra gente, é sempre desafiador, no mínimo.”
Wallace Ferreira também comenta sobre os desafios de apresentar a obra em sua cidade de origem. “É muito desafiador apresentar o trabalho no Rio. Ele diz muito sobre a gente dentro do contexto do Rio de Janeiro, não digo nem só do Brasil. A gente quase nunca apresenta aqui, quase nunca apresenta no país, então fazer em casa é um desafio. É apresentar para pessoas que nos conhecem, para pessoas que talvez entendam alguns códigos, que entendam do que a gente está falando quando a gente se move. Então sempre existe esse desafio de qual vai ser a resposta. Mas é um desafio gostoso, de entender e de se colocar em risco. Boa parte do nosso trabalho é o encontro com o público. A gente só sabe o que vai acontecer quando chega aqui, quando se coloca à prova. Então tudo pode acontecer, e a gente nunca sabe o que vai vir.”
SINOPSE
Repertório N.3 é a última parte de uma trilogia de práticas coreográficas. Esta pesquisa foca em estudos pós–coloniais, de gênero e raça, com uma questão fundamental de como criar uma dança de autodefesa. Ela reúne estudos sobre violência que, por um lado, investem na ideia da dança como treinamento de autodefesa, aplicando aspectos como mimese, representação e estudos de imagens coreografadas por corpos dissidentes, numa tentativa de arquivar ações para elaborar resistência e conjurar formas de permanecer no mundo e, por outro lado, não criar um projeto para generalizar a violência, mas para contrariar a matriz de inteligibilidade que impede as minorias de se tornarem sujeitos com direito à própria vida. Outra estratégia fundamental em nosso trabalho é a pose, pois acreditamos em seu poder de desafiar o tempo. As poses não pertencem aos corpos; são um jogo de significados. Quando posamos, estamos revivendo uma história que pode ou não ser nossa, mas que é compartilhada. Quando mobilizamos uma pose, percebemos que o tempo colide, se cruza, e as imagens se tornam labirínticas porque, paradoxalmente, elas não ordenam o tempo linear. Uma pose é uma máquina do tempo que pode se arrastar através do tempo ou sobrepor tempos dentro da mesma imagem.
SERVIÇOS:
Gomeia Galpão Criativo – 22/01, 20h
End.: Rua Dr. Lauro Neiva, 32, Duque de Caxias
Centro de Artes da Maré – 23/01
End.: Rua Bitencourt Sampaio, 181, Maré
17h – Oficina “Arquivos do Repertório”
19h30 – Apresentação “Repertório N.3”
MAM Rio- 24/01, 16h
End.: Av. Infante Dom Henrique, 85, Parque do Flamengo
Entrada gratuita: retirada de senha 1h antes
Duração: 45 minutos
Classificação indicativa: 18 anos
FICHA TÉCNICA
Coreografia e performance: Davi Pontes e Wallace Ferreira
Produção executiva: Netto
Coordenação de produção: Rafael Fernandes
Gestão: Quafá Produções
Distribuição internacional: Something Great
Coprodução: 35ª Bienal de São Paulo, Coreografias do Impossível, Arsenic, Centro de Arte Cênica Contemporânea
Residências artísticas: Festival ImPulsTanz, Festival Internacional de Dança de Viena, Arsenic, Centro de Arte Cênica Contemporânea, Lausanne, tanzhaus nrw, festival Kondenz e La Becque
Assessoria de imprensa: Monteiro Assessoria









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