Crítica: ‘O Agente Secreto’ (2025)

Brasil, Recife, 1977. O país ainda passava por uma forte repressão e censura prévia impostas pela ditadura militar. A escolha do período não é aleatória. Foi a época da transição política, iniciada em 1974, quando o governo militar e colaboradores civis do sistema opressor agiam por baixo dos panos, sob a vigilância de uma normalidade…


O Agente Secreto cena

Brasil, Recife, 1977. O país ainda passava por uma forte repressão e censura prévia impostas pela ditadura militar. A escolha do período não é aleatória. Foi a época da transição política, iniciada em 1974, quando o governo militar e colaboradores civis do sistema opressor agiam por baixo dos panos, sob a vigilância de uma normalidade forçada.

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O Agente Secreto (Brasil 2025) capta esse momento histórico, retratando a cidade do Recife e suas particularidades. As vidas de cidadãos conviviam com a burocracia institucional e a ameaça de violência que permeava o ar.

Em sua nova obra, o cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho, conhecido por sua abordagem meticulosa e politizada da realidade brasileira em filmes como “Aquarius” (2016) e “Bacurau” (2019); depois de “Retratos Fantasmas” (2023), retorna com “O Agente Secreto” à cidade do Recife para transformá-la num labirinto de mistérios e traições.

O ponto central do roteiro de Kleber Mendonça reside no tema da perda e do resgate de memórias. O diretor argumenta que a repressão do Estado não aconteceu somente com tanques, armas e violência física para se perpetuar, mas também com o silêncio conivente, a implantação sutil de um regime de desconfiança mútua e a constante paranoia da perseguição militar. Seu trabalho não é um simples thriller de ação e sim uma análise cinematográfica crítica. Kleber utiliza o gênero de espionagem como um filtro atmosférico para discutir temas importantes da história recente do Brasil.

O protagonista Marcelo/Armando (Wagner Moura) busca desesperadamente preservar sua própria história familiar, o que serve de poderosa metáfora para o Brasil que, de tempos em tempos, tenta apagar seus capítulos mais condenáveis para seguir em frente. O filme retrata minuciosamente de que forma a máquina de vigilância ditatorial, além de ter atuado com aparato físico, teve um impacto devastador no estado mental coletivo.

O desempenho de Wagner Moura é fundamental na profundidade dessa obra. Longe da histeria de seus papéis mais conhecidos, ele adota uma sutileza contida, comunicando mais com os olhos baixos e os ombros tensos do que com falas extensas. É o retrato do homem reduzido a seu medo, alguém que entende que a sobrevivência depende da capacidade de se tornar invisível, um não-ser. É a antítese do herói e, por isso mesmo, dolorosamente real.

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O elenco de apoio, igualmente afiado, também contribui para a densidade do longa-metragem. Porém, há vários momentos de respiro na tensão política. “O Agente Secreto” encontra espaço para a pirraça e a vivacidade da cultura pernambucana, como indicado no letreiro inicial; resgata antigas lendas urbanas, a efervescência do carnaval e figuras inusitadas.  

A carismática Dona Sebastiana (Tânia Maria) traz ao filme um senso de solidariedade e civilidade, construindo um contraponto ao autoritarismo. Este contraste é o que faz a produção ser tão universal. O regional gera uma autenticidade tão profunda que revela emoções e dilemas humanos fundamentais comuns a todos. Assim, ao detalhar o que é local, o longa-metragem aborda sentimentos que permitem a identificação global. Isso certamente explica a repercussão internacional de “O Agente Secreto”.

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Em 2025, a produção brilhou no Festival de Cannes, uma das principais premiações da indústria do cinema mundial. Venceu os prêmios de Melhor Diretor (Kleber Mendonça Filho) e Melhor Ator (Wagner Moura), além de ser o concorrente do Brasil no Oscar 2026. “O Agente Secreto” é um sucesso de crítica internacional que mostra a força do cinema nacional quando ele se propõe a ser complexo e ambicioso. Não é um filme para relaxar, mas para provocar e questionar o passado e o presente em nosso país. O longa, contudo, não é imune a críticas. Sua lentidão proposital pode incomodar e exige paciência do espectador.

“O Agente Secreto” apresenta diversas referências cinematográficas, desde o cinema brasileiro da década de 70 como “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia” (1977) até a influência de diretores como Brian De Palma na construção da paranoia. No entanto, Kleber Mendonça não se limita à referência; ele recicla estas estéticas para criar um cinema autoral.

O filme está disponível na Netflix e nos cinemas.

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O Agente Secreto

O Agente Secreto
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Nota: 9/10 – Fantástico
Nota: 9/10 – Fantástico
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