Cinebiografia do Rei do Pop mira no espetáculo e escorrega na parte dramática
Que uma cinebiografia de Michael Jackson era esperada há anos não é novidade para ninguém. No entanto, o tempo que levou para que isso acontecesse fez com que Michael surfasse em um hype que se reflete nos vultosos números de pré-venda. Quase 17 anos se passaram desde sua morte, e sua trajetória ainda não havia sido adaptada para as telonas. Na TV, houve a série Os Jacksons, de 1992, sucesso de audiência que foca, em sua maior parte, nos anos do Jackson 5. Outras produções têm caráter documental, como This Is It, que mostra os ensaios para os shows que não aconteceram devido à morte prematura do artista, e o controverso Leaving Neverland, que expõe denúncias de abuso com veemência, ainda que sem provas conclusivas.
Tratar de um personagem dessa magnitude pode ser uma bênção e uma maldição ao mesmo tempo. Se, por um lado, é garantia de bilheteria — Bohemian Rhapsody, estopim dessa onda de cinebiografias musicais, não deixa mentir —, por outro, aumentam as chances de um recorte problemático que decepcione fãs, sobretudo os mais engajados. Afinal, não se conta uma vida em duas horas, ainda que apenas um período dela.

Michael mergulha na trajetória do Rei do Pop, propondo-se como uma cinebiografia definitiva que vai além das paradas de sucesso. O filme percorre desde a ascensão meteórica do pequeno prodígio à frente do Jackson 5 até a consolidação de uma carreira solo que moldou a cultura global. A obra busca explorar as motivações internas e o esforço deliberado do artista para alcançar o topo, tentando oferecer um olhar inédito sobre o homem por trás do mito e recriando momentos marcantes de sua jornada.
Contudo, o que o filme nos traz — algo que o trailer já sugeria — difere do que a sinopse promete. Vemos uma imagem de Michael Jackson muito mais próxima do imaginário popular, sobretudo anterior às polêmicas e às transformações físicas, do que um retrato aprofundado dos bastidores. Como já se tornou comum nas cinebiografias musicais, o roteiro de John Logan (Gladiador, O Aviador, A Invenção de Hugo Cabret) opta pela celebração, esvaziando a notória complexidade do protagonista. As virtudes são exaltadas — não apenas as artísticas, já que ele é retratado desde cedo como uma espécie de “escolhido”, mas também as humanitárias —, enquanto os defeitos são suavizados, muitas vezes apresentados como consequência de sua sensibilidade em um mundo hostil.
Na direção, Antoine Fuqua (O Dia de Treinamento, trilogia O Protetor) apresenta um trabalho funcional, sem grandes ambições estéticas, como se evitasse ofuscar o brilho do biografado. O produtor Graham King parece repetir sua lógica previamente adotada em Bohemian Rhapsody: o foco deve permanecer no ícone, não na assinatura autoral.

Com roteiro esquemático, direção engessada e edição pouco ousada, seria fácil classificar Michael como um filme bem meia-boca. No entanto, a força de Michael Jackson como figura cultural muda esse jogo. Se a obra não se destaca artisticamente, compensa ao recriar a magia do artista. As sequências de shows e os bastidores de clipes icônicos como “Thriller” e “Beat It” devem arrancar sorrisos dos fãs. A reconstituição da apresentação na comemoração dos 25 anos da Motown — momento em que o artista apresenta o moonwalk ao mundo — é um dos grandes destaques. Há também um cuidado em recriar a atmosfera de uma época em que astros eram universais, e não fragmentados em nichos como hoje.
Jaafar Jackson, sobrinho de Michael e filho de Jermaine, surpreende em sua estreia como ator, interpretando o próprio tio. Ele não só consegue imitar os passos de dança icônicos (ok, com uma bela ajuda da edição) como também mimetizar expressões, gestos e outros traços bastantes sutis da persona do Rei do Pop fora dos palcos. A semelhança física o beneficia, assim como a intimidade com a dança e o canto, mas não deixa de ser uma grata surpresa. Do outro lado temos Colman Domingo vivendo o pai de Michael, Joseph, que, como todos sabem, regia a carreira dos filhos como um tirano e adotava a filosofia de que pancadas são a melhor psicologia. No caso dele não houve amenização como se podia temer em se tratando de um filme produzido com a supervisão da família. Nia Long como a mãe, Katherine Jackson, também se destaca no tom certo na função de contraponto do pai. Ela representa o lado afetivo e lúdico para o menino e mesmo para o jovem adulto Michael.

O lado mais dramático acaba relegado a pano fundo, assim como seu processo criativo (as músicas e coreografias parecem surgir magicamente). Personagens são limados, como Diana Ross, figura de extrema relevância na carreira do artista, a irmã Janet, por conta da briga com o irmão produtor nos bastidores. Já outros são colocadas sem o devido tempo de tela, como os irmãos, praticamente figurantes, e Quincy Jones, o maestro do sucesso de Michael, uma das parcerias mais exitosas da indústria do disco. No entanto, o segurança Bill ganha destaque. Até mesmo o pequeno merecia uma participação maior. O garoto Juliano Valdi, que interpreta Michael na infância esbanja talento e seria melhor aproveitado se o longa tivesse uns 40 minutos a mais, com um recorte mais amplo da fase Jackson Five.

Por fim, Michael se vale da grandeza do astro e certamente será a porta de entrada para toda uma geração criar interesse sobre o Rei do Pop. Claudica como cinebiografia ao tratar acontecimentos de forma episódica e acelerada, mas acerta como espetáculo destinado às massas. E se faltou coragem para abordar temas mais sensíveis, a possível parte 2, que adentrará os anos 90 e 2000, terá material espinhoso de sobra, que, se de fato for explorado, poderá, quem sabe, transformar o conjunto em uma comovente história de ascensão e queda.








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