Para começar, uma confissão: nunca li Camus. Mas conheço François Ozon de muitos filmes, e o cineasta nunca decepciona. Com uma sedutora – pelo menos para mim – fotografia em preto e branco, “O Estrangeiro” de fato é um filme sólido, fiel à obra-prima do Existencialismo, e instigante.
Como em “Casablanca”, o filme começa com um mapa. Como num cinejornal, há uma narração. O que é narrado é que a França, em seu período colonizatório, levou modernidade à cidade de Argel. Depois, somos levados para dentro de uma prisão, onde chega nosso protagonista. Um dos presos lhe pergunta o que ele fez para estar lá. Ele responde: “eu matei um árabe”. Tem início um flashback – e o filme propriamente dito.

Numa manhã, Meursault (Benjamin Voisin) recebe um telegrama avisando que sua mãe havia falecido numa casa de repouso. Ele vai até lá para o funeral, e fica curiosamente calmo frente à novidade de que ela tinha um noivo entre os convivas do asilo.
De volta à rotina, ele flerta com Marie (Rebecca Marder) e se envolve com as idiossincrasias de dois vizinhos, o encrenqueiro Raymond (Pierre Lotin) e o velho Salamano (Denis Lavant), dono de um cachorro. Até que chega o momento que mudará sua vida e a abreviará sobremaneira.
A escolha por filmar em preto e branco aproxima “O Estrangeiro” de outra adaptação literária recente: a minissérie da Netflix “Ripley”, adaptada de “O Talentoso Ripley” de Patricia Highsmith. A sequência do tribunal lembra outra, também em preto e branco e crua, do clássico mudo “O Martírio de Joana D’Arc”, de 1928. E essa não foi a primeira incursão de Ozon no mundo dos filmes bicromáticos: em 2016 ele fez o belo “Frantz”, remake do excelente Lubitsch esquecido “Não Matarás”, de 1932.

Há que se destacar um intérprete: Swann Arlaud, que interpreta o padre. Ele vem chamando minha atenção há um bom tempo em vários projetos, entre curtas e longas. Ele tem na conta três prêmios César, o Oscar do cinema francês, incluindo dois de Melhor Ator Coadjuvante por roubar a cena nos excelentes filmes “Anatomia de Uma Queda” e “Graças a Deus”, este também dirigido por François Ozon. Como bom coadjuvante, é ao lado dele que Benjamin Voisin tem seu grande momento em “O Estrangeiro”.
O livro de Albert Camus foi publicado em 1942. Na época, a cidade de Argel estava em ebulição, sendo a Argélia uma colônia francesa, e o cinema estava de olho. Na França em 1937, com um remake em Hollywood no ano seguinte, era contada a história do ladrão Pépé Le Moko, rei da Casbah, bairro labiríntico que é citado brevemente em “O Estrangeiro”.
A maioria das críticas concorda: “O Estrangeiro” é uma adaptação muito fiel ao livro, o que me deu ainda mais vontade de conhecer a obra literária. Eu ainda não li Camus. Mas sempre é tempo para começar. E com um incentivo do cinema sempre de excelência de François Ozon, melhor ainda.








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