As continuações tardias já se tornaram o grande filão de uma Hollywood cada vez mais receosa em apostar em novas ideias. O caminho a seguir, que costuma render bons resultados, é a chamada “sequência de legado”, da qual O Diabo Veste Prada 2 — continuação do sucesso de 2006 — é o mais novo exemplar. Normalmente, este tipo de roteiro busca reafirmar a importância do longa original, seja através de novos personagens numa história de dinâmica semelhante, com aparições estratégicas dos protagonistas clássicos “passando o bastão”, ou, simplesmente, apresentando uma nova trama com os mesmos personagens e a dinâmica já conhecida.
O som inconfundível dos saltos agulha ainda ecoa pelos corredores da Runway, mas o império de Miranda Priestly já não é o mesmo. A aguardada sequência de O Diabo Veste Prada transporta-nos para um cenário implacável, onde o glamour das passarelas colide de frente com a dura realidade do declínio do jornalismo impresso. A todo-poderosa editora-chefe, antes uma divindade intocável, agora trava uma batalha diária para manter o seu legado vivo e a sua revista relevante numa era de transformações digitais que exige reinvenção a qualquer custo.

Porém, o golpe mais letal para Miranda não vem das redes sociais ou da nova geração de influenciadores, mas de um rosto muito conhecido. Emily Charlton, a ex-primeira assistente que outrora vivia à beira de um colapso nervoso para não decepcionar a chefe, ressurge não mais como subordinada, mas como uma titã da indústria. Agora no comando de uma das mais influentes e ricas marcas de luxo do mundo, Emily detém o poder financeiro e a influência de que a Runway precisa desesperadamente para sobreviver.
As peças no tabuleiro de xadrez da alta-costura mudaram de lugar. Com Emily no controlo de orçamentos milionários e parcerias vitais, ela passa a interferir diretamente nas decisões editoriais e no futuro da mulher que um dia a aterrorizou. O que se desenha na trama é uma fascinante “guerra-fria” de grifes — um embate visceral marcado por estratégias corporativas, ambições desmedidas e uma rivalidade guardada por anos. Nesta nova era da moda, os papéis inverteram-se, provando que a vingança é, sem dúvida, o acessório mais perigoso da temporada.
Neste cenário, o filme promove o reencontro do público com as três queridas personagens vinte anos depois. Em alguns momentos, a obra causa a sensação de uma versão de luxo daquelas reuniões de elenco que contam histórias de bastidores de filmes e séries cult. De fato, a parte 2 joga para a torcida, fornecendo altas doses da altivez de Meryl Streep como Miranda e da empatia gerada pela Andy de Anne Hathaway.

O diretor David Frankel retorna adotando a tática de não mexer no que já deu certo. Portanto, o que se vê são os mesmos planos e a mesma edição do filme de vinte anos atrás. A fotografia, mais uma vez assinada por Florian Ballhaus, reforça essa familiaridade. A argumentista original, Aline Brosh McKenna, também está de volta e assume a difícil tarefa de continuar uma trama que já tinha sido satisfatoriamente concluída. Por terem passado duas décadas, ela soube trabalhar habilmente as mudanças ocorridas neste período que impactaram as dinâmicas dentro da Runway e até o comportamento tóxico da sua editora-chefe. Miranda apresenta algumas mudanças, não por se ter tornado exatamente uma pessoa melhor, mas por precisar de se adequar aos novos tempos para não sucumbir. O problema reside no facto de Andy, vinte anos mais madura e com uma carreira consolidada como jornalista, continuar a repetir trejeitos de iniciante que precisa de se provar diante de Miranda. Desta vez, o roteiro também não explica adequadamente a execução dos planos para cumprir as missões impossíveis enviadas pela chefona.
Anne Hathaway continua a interpretar Andy esbanjando carisma, mantendo o público a torcer por ela. Meryl Streep, a dona do espetáculo, domina cada quadro quando entra em cena, sendo percetível que a trama é construída em função do seu brilho — e a diva do cinema americano não o desperdiça. Stanley Tucci continua a “roubar a cena” como Nigel. No entanto, o personagem de Kenneth Branagh parece excedentário. Já Emily Blunt faz da sua nova versão de Emily algo ainda mais irresistível.

O Diabo Veste Prada 2 é, verdade seja dita, uma continuação desnecessária. Contudo, o resultado final — já que resolveram transformar o clássico numa franquia — foi um reencontro afetivo satisfatório, apesar de não primar pela originalidade. É a velha fórmula de contar uma nova história mantendo a receita que funcionou tão bem. E, certamente, fica a porta aberta para mais um capítulo.








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