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“Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, o Musical” traz intimismo à ideia de Broadway biográfica

Certa vez, numa entrevista, Cazuza disse quase que em tom profético: “Canto pra espantar os demônios, pra juntar os amigos, pra sentir o mundo. Canto pra seduzir a vida!”. Foi essa sedução que o justificou por sua rápida, porém visceral, passagem pela vida. Vida essa que sempre atraiu a curiosidade ficcional tamanha possibilidade dramática e até relativização trágica, muito pela onipresença da figura materna de Lucinha Araújo seja no livro (Só as Mães são Felizes), no filme de 2004 (Cazuza – O Tempo Não Para) e agora no bom musical Cazuza: Pro Dia Nascer Feliz. O cantor vertia sua forte e passional personalidade em discurso artístico e isso rendeu canções brilhantes e que mantém um impressionante diálogo com gerações recorrentes. Esse diálogo já impõe uma assimilação (afetiva?) automática e a história transcorre com facilidade. O diretor João Fonseca fez uma opção por retratar pelo naturalismo da neutralidade. Trata-se de um musical quase intimista, sem grandes arroubos a la Broadway. Nesse contexto, ele acerta – com algumas poucas derrapadas, principalmente no frágil segundo ato e em números que parece esquecer o conceito que ele mesmo imprime. O texto de Aloísio de Abreu não se arrisca e vai contando cronologicamente a vida do cantor, aproximando as músicas de suas necessidades narrativas (e nem tanto dramáticas, como por exemplo Codinome Beija-Flor, que acabou resultando anti climática).

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O elenco é, invariavelmente, muito coeso. Destaque para a composição de André Dias, como Ezequiel Neves. Susana Ribeiro e Marcelo Várzea fazem Lucinha e João Araújo. Fabiano Medeiros, Dezo Mota, Yasmin Gomlevsky, Sheila Matos, Thiago Machado, Bruno Fraga, Bruno Narch, Bruno Sigrist, Juliana Bodini, Oscar Fabião, Saulo Segreto e Osmar Silveira – forma um conjunto entrosado, harmônico. A banda também está alinhada a excelência do projeto (composta pelos músicos Marcelo Eduardo Farias, Evelyne Garcia, Bernardo Ramos, Daniel Rocha, Raul D’Oliveira, Rafael Maia e Herbert Souza). Mas a grande surpresa e o esteio vital do musical é o ator Emílio Dantas, arrasador e assustador na incorporação cênica, melódica e personalista de Cazuza. O ator compreendeu com absoluta inteligência a complexidade humana do cantor e, com isso, viraram um só. Mas, acima de tudo, compreendeu que o verbo seduzir fazia de Cazuza o artista que era, dando vida a isso. Saí do teatro e sua performance continuou na minha cabeça. Até como entidade, Cazuza impõe sua relevância. E, hoje, onde quer que esteja, ele poderia dizer que também cantou para seduzir para além da sua própria vida. Recomendo!

Onde? Theatro Net Rio – Sala Tereza Rachel (Copacabana, Rio de Janeiro)

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Ativista

Publicado por Renan de Andrade

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