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O espelho da condição humana em “Doze Homens e uma Sentença”

No website IMDb, “Doze Homens e uma Sentença” é o sétimo filme com maior nota dada pelos usuários, e o primeiro da lista filmado em preto e branco. Isto deve significar alguma coisa, não? Não apenas que o filme é bom (porque “bom” é muito pouco para defini-lo), pois isso a maioria dos adoradores do cinema já sabem. É que o filme é humano, demasiado humano, sem perder de vista o suspense e a crítica social.

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Ninguém deveria se espantar ao descobrir que “Doze Homens e uma Sentença” se originou como uma peça feita para a televisão. Tantas características do teatro e da telinha permaneceram escancaradas na adaptação para o cinema: o cenário único, atípico na sétima arte, mas cujo clima abafado pôde ser captado pelas câmeras da mesma forma que o foi pelas plateias; os poucos e anônimos personagens, que servem mais como arquétipos que como seres humanos reais, mas nem por isso deixam de ter passado, ideias e preconceitos.

O júri se reúne para decidir o veredicto. Não sabemos como foi o julgamento, mal vemos a cara do réu, não conhecemos os advogados de defesa e de acusação, mas em breve tomaremos contato com os argumentos de cada lado. Parecia que era só a parte fácil que faltava e, assim que os 12 jurados chegassem a uma opinião unânime, estariam todos liberados da sala claustrofóbica e ultra-aquecida. Muitos nem se importavam com o destino do réu, se era prisão perpétua ou pena de morte, porque já tinham sua opinião formada e queriam mesmo era sair logo dali e, quem sabe, ainda daria tempo de ver um jogo de beisebol.

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Eles escreveram os votos em pedaços de papel. Onze consideravam o réu culpado e apenas um, inocente. Era o jurado número 8 (Henry Fonda) que dava ao garoto pobre acusado de homicídio o benefício da dúvida. Que raiva! Por causa da teimosia de um eles teriam de ficar mais um tempo ali trancafiados. Mas era só o tempo de convencer o jurado teimoso de que o garoto era culpado e estaria tudo resolvido… ou não?

Nem tudo é o que parece, ou o que um advogado faz parecer ser. Com talento detetivesco, o jurado número 8 tenta derrubar os argumentos de cada um dos outros jurados, convencendo-os assim da inocência do réu. Alguns mudam de ideia rápido, outros têm convicções e traumas muito grandes que os impedem de ver o bem naquele garoto, outros ainda parecem estar lá só para contrariar todas as boas intenções e causar antipatia no espectador, como o jurado número 3, interpretado magistralmente por Lee J. Cobb. Entretanto, todos têm comportamento 100% verossímil e, por mais que nosso desejo seja nos identificarmos com o herói do filme, vez ou outra vemos nossas próprias falhas refletidas em um ou mais jurados.

Doze Homens e uma Sentença” foi o primeiro filme do diretor Sidney Lumet. Até então ele havia trabalhado apenas na televisão, e foi o protagonista que exigiu que o inexperiente, porém promissor, Lumet tomasse a frente do filme. Entre 1948 e 1955, Henry Fonda havia se afastado das telas para se dedicar ao teatro. Ele também participou de algumas atrações na televisão e, animado com as muitas possibilidades de “Doze Homens e uma Sentença”, foi também produtor do filme. Sem dúvida o jurado número 8 é o personagem mais íntegro de sua carreira, e um dos favoritos do próprio ator.

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Assim como muitos clássicos, “Doze Homens e uma Sentença” não ganhou nenhum Oscar, apesar de indicado em três categorias, e também não foi sucesso de bilheteria. Ensaios e gravações, juntos, duraram pouco mais de um mês, e analisando a simplicidade dos ingredientes é desconcertante ver que o resultado foi um filme esplêndido. Mas foi a qualidade que determinou que o filme virasse obra-prima. Foi a maneira fidedigna com que os atores interpretaram cada jurado. Foi a cinematografia em preto e branco, claustrofóbica e intimidadora, que nos colocava para suar e pensar com aqueles homens.

A história já foi levada aos palcos de diversos países e refilmada em 1997, com Jack Lemmon no papel que fora de Fonda. Apesar de a trama e até os diálogos serem os mesmos, essas novas adaptações não se comparam com o filme de 1957. Porque foi só lá que todas as partes se encaixaram com a maior perfeição.

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