Artes Visuais

Crítica: Sobre a ilusão de uma hiperrealidade

Por que estar mais acostumado a olhar os outros nas capas, outdoors, novelas, filmes, do que a olhar o outro na sua frente no ônibus, no metrô, no trabalho, do outro lado da rua, do outro lado na cama?

Não há cansaço no olhar-se no espelho, nas selfies, nas selfies com os amigos?

Como lidar com esculturas hiperealistas ou insistir em pinturas hiperrealistas que não nos dizem nada sobre como ”realmente” somos ou aspiramos ser sem pensar no cansaço que traz a busca pelo ideal de perfeição?

É entediante.
A sensação é de olhar o outro de maneira muito próxima e profunda, coisa rara para quem vê a realidade através de moldes e não de substância.
Não se consegue olhar o outro mas há fascínio no olhar essas obras “super reais”…
Não se consegue tocar o outro mas se tem vontade de tocar a escultura pra senti-la.

“Parecem de verdade”. “Parece gente de verdade.” Não. Talvez sim, talvez uma mera sombra de quem poderíamos ser. Mas não, nem nós somos tão reais assim.
Sugerir formas de experiências supostamente reais de vida não é conceber a experiência de vida ao outro.
Não há experiência. Não há outro.
É entediante.
Tatuagem-do-neymar
 
O ideal de realidade pode andar junto com a suposta qualidade de perfeição. Mas não é dever da realidade que ela seja “perfeita” ou nos faça experimentar o perfeito.
Taí, ela está aí sempre.
Escolhemos vê-la no museu porque mesmo na nossa frente, à nossa volta, em nós, para observá-la são necessários olhos que enxergam além da forma, além da fôrma.
Levando tudo isso em consideração e pensando em outras formas de ir de encontro com o real, proponho algumas outras Experiências de Hiperrealismo:
1. Sentar-se no meio do museu para ser observado pelos outros e observa-los sendo observado. Permaneça o máximo que puder. Depois saia e dê a vez para outra pessoa ser observada.
2. Na hora do rush, parar no meio da avenida mais movimentada da cidade e ouvir o barulho do trânsito. Gravar o áudio e apagar logo após escutá-lo.
3. Ir a uma floresta densa à noite sem nenhuma luz e ficar de olhos abertos no escuro, percebendo as movimentações, as energias e a proximidade dos sons escutados. Permaneça de olhos abertos, no escuro.
4. Sentar-se em alguma calçada da cidade ou na frente de alguma farmácia, mercado, loja, igreja, imobiliária e observar os gestos e as movimentações dos passantes. É importante manter-se sentado abaixo do nível do olhar dos outros.
5. À noite, antes de dormir, sem roupa alguma, perceber o encher e esvaziar-se da região da barriga e do pulmão. Depois, contemplar seus dedos dos pés e depois perceber as variações de cor de suas solas dos pés. Dormir.
6.  10 ou Mosca dependurada na beira de um ralo, de Manoel de Barros
“Mosca dependurada na beira de um ralo…
Acho mais importante que qualquer jóia pendente.
Os pequenos invólucros para múmias de passarinhos
que os antigos egípcios faziam
Acho mais importante do que o sarcófago de Tutancâmon.
O homem que deixou a vida por se sentir um esgoto –
Acho mais importante do que uma Usina Nuclear.
Aliás, o cu de uma formiga é também muito mais
importante do que uma Usina Nuclear.
As coisas que não têm dimensões são muito importantes.
Assim, o pássaro tu-you-you é mais importante por seus
pronomes do que por seu tamanho de crescer.
É no ínfimo que eu vejo a exuberância.”
Quando você se olha no espelho, você espera se reconhecer. Você não se reconhece e ainda assim se olha no espelho. O espelho não serve de nada, mas você está ali parado esperando que em algum momento você se satisfaça com a imagem vista. Então você sai.
O que falta?
Segundo Freud (1930), “a distensão do vínculo com a realidade vai mais longe; a satisfação é obtida através de ilusões, reconhecidas como tais, sem que se verifique permissão para que a discrepância entre elas e a realidade interfira na sua fruição. A região onde essas ilusões se originam é a vida da imaginação; na época em que o desenvolvimento do senso de realidade se efetuou, essa região foi expressamente isentada das exigências do teste de realidade e posta de lado a fim de realizar objetivos difíceis de serem levados a termo. À frente das satisfações obtidas através da fantasia ergue-se a fruição das obras de arte, fruição que, por intermédio do artista, é tornada acessível inclusive àqueles que não são criadores.”
Isso me leva a crer que não é só no produto final de uma escultura do Ron Mueck que as pessoas estão interessadas, mas no próprio criador. Alguém, no caso Mueck, foi capaz de criar um ser, uma coisa, tão parecida com a realidade quanto a própria realidade. Acredito haver uma aproximação entre o entendimento de um deus cristão criador do universo e o entendimento de uma obra hiperrealista. Um estágio que revela-se no inconsciente através da “acessibilidade” da fantasia da obra de arte.
Há uma ilusão satisfatória que vai de encontro com os “espectadores” dessas obras.
Uma palpitação de frenesi alerta: “isso é real?”

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