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Lado B: Another World

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Uma cena clássica dos games

Já choraminguei as nostalgias da minha infância aqui na coluna Lado B ao escrever sobre a pequena grande epopéia fantasiosa de Twinsen em Little Big Adventure 2, agora é a vez de falar um pouco sobre outro jogo que marcou essa época de ouro dos computadores e também fez sucesso por mais de uma década em outras plataformas, tornando-se um clássico dentro da indústria, e que há certo tempo tive a oportunidade de redescobri-lo ao jogar sua edição comemorativa de 15 anos. Trata-se do game Another World, também conhecido por Out of This World, uma aventura em moldes cinematográficos desenvolvida pelo brilhante designer Eric Chahi e lançada a princípio para o computador pré-histórico Amiga 500.

A trama dá-se início com uma animação onde um jovem ruivo deixa para trás uma noite tempestuosa após adentrar um misterioso laboratório subterrâneo. Seu nome é Lester Knight Chaykin, um carismático cientista que se encontra envolvido em sua última experiência com um acelerador de partículas. É óbvio que essa história nunca dá certo, vide tantos outros jogos e livros de ficção científica, então não é nenhuma surpresa quando acidentalmente Lester é teletransportado para um desconhecido planeta alienígena.  A partir daqui o jogador assume o papel do jovem físico e é obrigado a fugir de criaturas bestiais e escapar de diversas armadilhas e soldados. A odisséia em busca de uma maneira para voltar a sua casa leva Lester a diversas situações que necessitam de muita observação e estratégia por parte do jogador, felizmente você não estará sozinho, pois em dado momento do jogo, o jovem encontra na prisão um alienígena também capturado, surge daí uma cooperação mútua que ao decorrer da trama torna-se em uma grande amizade, mesmo que um não entenda a língua do outro. Muitos puzzles recheiam o jogo do início ao fim, sendo alguns incrivelmente difíceis, principalmente pelas resoluções excêntricas!

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Lester Knight Chaykin

A jogabilidade não podia ser mais simples, pois através do teclado você tem as opções de correr, saltar e apertar o botão de ações. Fácil? Não exatamente, pois apesar da simplicidade, as versões mais antigas de Another World têm sérias falhas na resposta do comando, nada que o torne insuportável, mas no mínimo irritante. Alguém lembrou de Dragon’s Lair ou Prince of Persia? Além das possibilidades  de ação citadas, Lester ainda pode conseguir uma arma, tendo ela três modos de uso: tiro normal, escudo de proteção e um tiro especial. Lembro-me agora de vários momentos caóticos, onde era necessário se defender com o escudo, atirar e escapar de diversos grupos de soldados. Os produtores, pensando na dificuldade desafiadora, disponibilizaram vidas infinitas ao jogador e uma variedade de checkpoints, algo que garante um alto fator de “replay”, já que poucos tem paciência suficiente para o clássico “começar tudo de novo”. É interessante observar também que tal qual um filme, o jogo possui diversas “cut scenes”, onde mesmo com ausência de legendas, podemos entender todo o decorrer da história e assim admirar as belíssimas animações de Eric, muito  avançadas em se tratando de games para a época.

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Detalhe da abertura

Quando foi lançado, Another World não obteve um sucesso comercial estrondoso, mas com o passar dos anos o jogo foi se tornando cultuado, provando que sua mecânica simples e interativa é simplesmente atemporal. Em minha opinião o mais sensacional da série é sua direção de arte, Eric Chahi acertou em cheio ao dar um visual recheado de polígonos, vetores e possuindo uma paleta de cores bem estudada, opondo-se genialmente aos famosos “sprites” e assim criando um estilo único. Aliás, a experimentação foi o maior aliado de Eric, tendo em mente uma “game engine” inovadora, um roteiro cinematográfico e técnicas que mesclavam o manual e programas como o Deluxe Paint, Devpack Assembler e o GFA Basic. Para se ter uma idéia de onde surgiram os movimentos de Lester, Eric filmou seu irmão mais novo e desenhou tudo com o uso de um rotoscópio, no caso um dispositivo que permite redesenhar quadro por quadro uma filmagem. O resultado foi uma animação surpreendente, simulando com uma semelhança incrível os movimentos humanos! Também é preciso citar o trabalho de Jean-François Freitas, responsável pela trilha sonora, embora essa se resuma na maioria das vezes nos sons dos passos de Lester, embalando o jogador em um verdadeiro clima de suspense.

Capa muito famosa
Capa muito famosa

Mesmo Another World tendo criado um nicho próprio no mundo dos jogos,  a série resultou em uma mal sucedida continuação para o Sega CD, no caso o Heart of Alien, que infelizmente não vendeu nem os mesmos números do primeiro título. Eric Chahi ainda lançou o maravilhoso Heart of Darkness (mais um que vai para a lista de jogos de ouro) antes de desaparecer no universo dos games, reaparecendo apenas em 2004, sempre prestigiado em um a coletânea de alguns clássicos que fizeram o Amiga 500: Amiga Classix 4. Em 2004 foi lançada uma versão do jogo adaptada ilegalmente para o Gameboy Advance, sendo que apenas em 2005 ela foi autorizada para distribuição e hoje pode ser baixada para ser jogada com o uso de um Flash Card ou um emulador. Mas não para por aí, em 2007, como citei discretamente no início da resenha, os fãs foram presenteados com o Another World 15th Anniversary Edition CD-ROM, onde o jogo foi reestruturado para uma resolução de 1280×800, tendo maior qualidade sonora e algumas opções extras, além de um diário contando todo o desenvolvimento do game, um manual e 17 minutos de entrevista com os desenvolvedores Eric Chahi e Jean-François, é definitivamente um item para colecionadores.

É difícil acreditar que um jogo tão pouco usual e tão excêntrico possa ter sobrevivido a tantos “remakes” e ainda ter deixado um legado para tantos designers. As influências são perceptíveis desde algumas modalidades de jogos em Flash, como o badalado “point-and-click”, tal qual a famosa trilogia brasileira Trapped, até nos trabalhos de desenvolvedores como Goichi Suda (Killer7, No More Heroes), Fumito Ueda (ICO, Shadow of The Colossus) e Hideo Kojima (Metal Gear, Snatcher, Policenauts, Boktai). Nada mal, não? Caso você também tenha tido o privilégio de terminar essa sétima maravilha, parabéns, pois teve em mãos um dos mais importantes jogos já desenvolvidos (e não sou eu quem está falando). E se você, querido leitor inocente, nem ao menos ouviu falar sobre Another World, não perca mais tempo!

Aos nostálgicos, acessem o site oficial do Eric Chahi (Another World) para terem acesso a informações únicas (tal qual o roteiro original do game, onde no final Lester iria se tornar o novo líder do planeta)!

4 Comments

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  1. Quando comecei a ler a resenha, achei o jogo familiar, pensando em Flashback (outro clássico que se vc não trouxe aqui, deve trazer já rs), mas quando você disse que ele é o mesmo cara por trás de Heart of Darkness eu disse: “aaaah!”

    Cara, HoD é simplesmente insano. Apesar de ter uma premissa aparentemente infantil, o jogo é tenso demais. Não dá pra parar um minuto sem morrer, e não tem um tempinho de paz em parte alguma! Fora que os inimigos são sinistros e a dificuldade é complicada.

    Parabéns pelos posts, Cezar, despertam aquela nostalgia! =D

  2. Só tive acesso à versão do Mega Drive, que peca em jogabilidade (como as versões antigas de Prince of Pérsia). Mas é uma maravilha! O tom de filme na narrativa simplesmente te faz lembrar de Inimigo Meu, que foi resenhado aqui nesta coluna recentemente.

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Publicação Cezar